Poema de Maiakóvski é publicado na íntegra pela 1ª vez no Brasil; leia

'Sobre Isto', escrito durante reclusão em apartamento, sai em agosto pela 34

Vladimir Maiakóvski tradução Letícia Mei

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página é parte de "Sobre Isto", longo poema escrito pelo russo de dezembro de 1922 a fevereiro de 1923, quando ficou isolado em seu apartamento após uma grave discussão com Lília Brik, sua amante. A íntegra da obra será publicada pela primeira vez no Brasil em agosto, pela Editora 34.

desenho em preto e branco
Ilustração para poema de Maiakóvski - Power Paola

Petição endereçada a...

Peço-lhe, camarada químico,
preencha o senhor mesmo!

Ancora a arca.

. . . . . . Raios, para cá!

Cais.

. . . . . .  Ei!

. . . . . .  Jogue um cabo!

E acabo

. . . . . .  de sentir com os ombros

o peso dos peitoris de pedra.

O sol

. . . . . secou a noite do dilúvio com seu calor.

Na janela,

. . . . . . . . encontro o dia com ardor.

Do globo somente — o monte Kilimanjaro.

Do mapa africano somente — o Quênia.

O globo é uma cabeça calva.

Eu sobre o globo

. . . . . . . me englobo de dor.

O mundo

. . . . . . . gostaria

. . . . . . . . . . . . . de patabraçar os peitos-montanhas

neste monte de dor.

Para que dos pólos,

. . . . . . . por todas as moradias,

role a lava pétrea-derretida,

é assim que eu gostaria de cair no choro,

urso-comunista.

Meu pai

. . . . . . . é um nobre de quatro costados,

a pele das minhas mãos é terna

Talvez,

. . . . . . . beba os dias com versos num trago,

e sem nunca ter visto um torno.

Mas com a minha respiração,

. . . . . . . . . . . . . . com as batidas do coração,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . com a voz,

com cada ponta de cabelo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . arrepiado de medo,

com os buracos das narinas,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . com os pregos dos olhos,

com os dentes arreganhados na rosnadura ferina,

porcoespinho a pele,

. . . . . . . com as sobrancelhas unidas em ira,

com um trilhão de poros,

. . . . . . literalmente --

. . . . . . . . . . . . . com todos os poros

no outono,

. . . . . . . no inverno,

. . . . . . . . . . . . . . na primavera,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . no verão,

de dia,

. . . . . . . no sono

não aceitarei,

. . . . . . . . . . . . . . odeio isto

tudo.

Tudo

. . . . . . o que em nós

. . . . . . . . . . . . . está cravado pelo passado de escravidão,

tudo,

. . . . . . enxame mesquinho,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . entranhado no dia-a-dia

até no nosso

. . . . . . . regime bandeirrubro.

Não darei o gostinho

de ver

. . . . . . que calei meus versos com um tiro.

Não cantarão tão cedo

o réquiem ao meu talento.

Podem me matar

. . . . . . . . . . . . . emboscada na esquina

. . . . . .  . . . . . .  . . . . . . . com uma faca talvez.

Os D'Anthès não mirarão a minha fronte.

Quatro vezes envelheço — quatro vezes

rejuvenesço,

até que a morte me apareça defronte.

Onde quer que eu morra,

. . . . . . . . . . . . . morrerei cantando.

Em qualquer buraco enterrado,

sei —

. . . . . .  com mérito estarei deitado.

com os tombados sob a bandeira vermelha.

Mas seja qual for a minha sorte —

. . . . . . . a morte é a morte.

Terrível — não amar,

. . . . . . . terror — não ousar.

Por todos — uma bala,

. . . . . . . por todos — uma faca.

E para mim,

. . . . . . . . . . . . quando será minha vez?

. . . . . . E para mim o quê, então?

Talvez,

. . . . . . . lá nas profundezas da infância,

encontrarei

. . . . . . . . . dez dias suportáveis.

E eles?!

. . . . . . . Queria o mesmo destino para mim!

Mas não.

. . . . . . . Vejam —

. . . . . . . . . . . . . . não tenho a mesma sorte!

Se eu acreditasse no além!

. . . . . . . Fácil viagem experimental.

Basta

. . . . . . . apenas estender a mão —

a bala,

. . . . . . . num piscar de olhos,

. . . . . . . . . . . . . traça retumbante o caminho mortal.

O que posso fazer,

. . . . . . . . . . se eu

. . . . . . . . . . . . . . com toda a pressão,

com a plenitude do coração,

nesta vida,

neste

. . . . . . . mundo

. . . . . . . . . . . . . . tinha

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . e tenho fé. 

olhos desenhados
Ilustração para poema de Maiakóvski - Power Paola

Vladimir Maiakóvski foi um poeta e dramaturgo russo (1893-1930).

Letícia Mei é tradutora e mestre em letras pela USP.

Power Paola é uma cartunista e ilustradora equatoriana.

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