Descrição de chapéu Moda

Saint Laurent, na Semana de Moda em Paris, traz roupas para tirar selfie e se jogar

Desfilando meninas embaladas a vácuo numa pista de dança, tesoura da grife manda às favas relatórios de tendências

Paris

Em meio a tantas bandeiras relevantes para levantar, da sustentabilidade ao machismo em tempos de #MeToo, há espaço para grifes que preferem apenas dançar. No caso da Saint Laurent, numa pista de dança daquelas extravagantes, sexy e coloridas da virada dos 1980 para os 1990.

Foi uma referência ao último passo do exagero que seria extirpado logo depois na passarela minimalista foram o mote da coleção da marca apresentada aos pés da Torre Eiffel, dentro de uma caixa espelhada como aqueles globos de boate.

Maior porta-voz do brilho desavergonhado, daquele que enche de luz o escuro da balada, a marca desfilou na semana de moda de Paris, nesta quarta-feira (26), um repertório de cores quentes que tingiu looks coladíssimos ao corpo, em calças de cintura alta, tops e saias lápis que deixam cair por terra todo o empacotamento que prega uma temporada de outono-inverno como esta de Paris.

Não é pouca coisa para uma grife de luxo despir as modelos no limite do que pareceria vulgar ou explicitamente desnecessário para olhos acostumados a julgar tanto como são os dos fashionistas tradicionais.

O estilista belga Anthony Vaccarello desvirtua nesta coleção toda o romantismo clássico que se tenta colar nos guarda-roupas há pelo menos três anos. E consegue, substituindo o couro por um material ainda mais fetichista, o látex, que nesta coleção assume o papel de deixar as garotas quase que embaladas a vácuo.

Não é tão fácil ostentar os saltos, a pele aparente e as transparências, mas quando combinados na passarela, os looks evocam um período de liberdade da moda que pode seduzir as garotas mais interessadas em diversão do que um close comportado.

A trilha do desfile era composto por sintetizadores, um barulho daqueles comuns aos filmes sci-fi ou aos primeiros filmes de Pedro Almodóvar, que parecem ter ganhado forma e pincelado o bloco de vermelhos estridentes em bases de tecido com algum reflexo, do veludo molhado à seda.

Essa talvez seja a coleção mais consistente e fora dos padrões conduzida por Vaccarello, cuja tesoura manda às favas relatórios de tendências e põe pingos nos is. Mostra que, no fim das contas, quem procura uma moda como a da Saint Laurent quer mesmo é curtir, tirar selfie e se jogar na pista em paz.

É um espírito de liberdade similar ao que o português Felipe Oliveira Baptista desfilou em sua estreia na grife Kenzo, que abriu os desfiles desta quarta. O espírito nômade, característico de uma juventude cada vez mais sem raízes como a de hoje, foi o mote da coleção “Going Places” (indo a lugares).

No caso da marca, o passeio é por um misto do rigor da alfaiataria francesa com a desconstrução da costura japonesa que permeou o caminho do estilista Kenzo Takada até 1993, quando vendeu sua marca. A partir daquele ano, vários estilistas passaram a criar em cima de seu legado.

Nesta nova fase, capas longas, looks de túnicas tanto para homens quanto para mulheres e roupas de proporções ampliadas, ainda que leves, produziram a imagem esportiva e jovem da coleção.

Um tigre com a bocarra aberta, por vezes colorido, outras apenas pincelado em nanquim em fundo branco, foi a única imagem usada por Baptista, que preferiu jogar com silhuetas, acessórios utilitários e toda a gama de possibilidades para roupas de viajantes chiques.

Ele compôs num mesmo look saias, coletes, cintos do tipo cartucheira, viseiras e tanques de água, tudo junto e misturado, mas que, monocromáticos, passam a impressão de serem uma coisa só. Não há excessos aparentes, apenas uma confusão bem planejada que só um estilista consciente da tesoura conseguiria produzir.

O desfile aconteceu na área externa de um centro de reabilitação para jovens surdos, dentro de uma estrutura de plástico similar àquelas montadas para quarentenas ou campos de refugiados. Nenhuma referência aos dias de hoje é mera coincidência.

Como se pedisse para que as pessoas escutassem o que acontece no mundo exterior, fora da bolha fashionista, Baptista deu um golpe de imagem que provavelmente o acompanhará nos próximos trabalhos para a Kenzo e vestirá os mais atentos ao discurso dele.

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