Descrição de chapéu The New York Times

'Imagine que fosse com sua irmã', diz Ronan Farrow sobre acusação de abuso contra Woody Allen

Dylan Farrow, filha adotiva do cineasta e irmã de Ronan, acusa Allen de tê-la molestado quando criança

Jennifer Schuessler John Williams
The New York Times

O jornalista Ronan Farrow, autor do best seller “Operação Abafa”, disse na terça-feira que romperia sua relação com a editora Hachette Book Group, com a qual mantém contrato, depois que esta anunciou que uma de suas divisões publicaria a autobiografia de Woody Allen, no mês que vem.

Farrow é filho de Allen com a atriz Mia Farrow, e sua irmã adotiva, Dylan Farrow, há muito tempo acusa Allen de tê-la molestado quando ela era criança, acusações que o cineasta nega.

Em uma troca de e-mails a que o The New York Times teve acesso, Farrow, cujas reportagens sobre as acusações de agressão sexual contra Harvey Weinstein e outros homens poderosos ajudaram a lançar o movimento #MeToo, criticava a Hachette severamente, classificando sua decisão de publicar as memórias de Allen como uma traição.

“Sua política de independência editorial entre as diferentes unidades do grupo não o isenta de suas obrigações morais e profissionais como editor de ‘Operação Abafa’, e como líder de uma companhia que está sendo solicitada a auxiliar os esforços de homens abusivos para legitimar seus crimes”, escreveu Farrow em um email a Michael Pietsch, presidente-executivo da Hachette, cujo selo editorial Little, Brown publicou o livro de Farrow.

“Enquanto você e eu trabalhávamos em ‘Operação Abafa’, um livro que em parte trata dos danos causados por Woody Allen à minha família, você estava secretamente planejando publicar um livro da pessoa que cometeu aqueles atos de abuso sexual”, acrescentou Farrow.

“Obviamente, minha consciência não permite eu continue a trabalhar com vocês”, escreveu Farrow no final da mensagem. “Imagine que isso tivesse acontecido com a sua irmã”.

O email a Pietsch veio um dia depois que a Grand Central, outro dos selos editoriais da Hachette, anunciou ter adquirido os direitos de “Apropos of Nothing”, a autobiografia de Allen, que será lançada no dia 7 de abril.

Um comunicado à imprensa define o livro como “um relato abrangente de sua vida, tanto pessoal quanto profissional”, que cobriria “seu relacionamento com familiares, amigos e os amores de sua vida”.

Em entrevista por telefone na noite de terça-feira, Pietsch se recusou a oferecer detalhes adicionais sobre o livro, como a tiragem inicial, ou o adiantamento pago pela Grand Central ao autor. E ele também se recusou a dizer qualquer outra coisa sobre o conteúdo do livro, limitando-se a afirmar que se tratava da “história completa de sua vida, do começo ao presente”, contada na “voz inconfundível de Woody Allen”.

Pietsch disse que ligou para Farrow na segunda-feira depois de ser informado pelo agente do escritor de que ele estava insatisfeito com a publicação. E reiterou o que revelou ter dito a Farrow: que um princípio básico do trabalho editorial era o de que as diferentes divisões da empresa não interferem editorialmente umas com as outras.

Ronan Farrow, filho de Woody Allen, em evento em Beverly Hills, nos Estados Unidos
Ronan Farrow, filho de Woody Allen, em evento em Beverly Hills, nos Estados Unidos - Danny Moloshok/Reuters

“Não permitimos que o programa editorial de qualquer unidade interfira com o de outra”, ele disse, apontando para o fato de que a Hachette publica “milhares de livros” por ano.

“Cada livro tem sua missão”, ele disse. “Nosso trabalho como editores é ajudar o autor realizar aquilo que se dispôs a fazer ao criar seu livro”.

Perguntado sobre a missão do livro de Allen, ele parou para pensar. “A Grand Central acredita fortemente que existe uma grande audiência que deseja ouvir a história da vida de Woody Allen contada por ele mesmo”, disse Pietsch. “Por isso decidiram publicar”.

Farrow se recusou a comentar sobre suas conversas com Pietsch ou sobre a publicação do livro de Allen. Letty Aronson, a irmã de Allen, preferiu não comentar.

O anúncio da publicação iminente das memórias foi uma reviravolta inesperada nas fortunas literárias de Allen, cuja carreira está estagnada na era do #MeToo. Nos últimos anos, atores como Greta Gerwig e Timothée Chalamet expressaram arrependimento por terem trabalhado com ele. Em 2018, a Amazon Studios cancelou um acordo de distribuição para múltiplos filmes que tinha com o cineasta, mencionando entre outros motivos o interesse redespertado pelas acusações contra Allen.

Em maio de 2019, o The New York Times noticiou que Allen vinha tentando vender sua autobiografia desde o final de 2018, mas que suas abordagens haviam sido “recebidas com indiferença ou rejeição clara”, com base em entrevistas com quatro editores que foram procurados para uma possível publicação do livro.

A verdade é que Ben Sevier, vice-presidente sênior e editor responsável pela Grand Central, havia fechado discretamente um contrato para publicar o livro, em março do ano passado. Naquele momento, a Little, Brown, outra divisão da Hachette, estava em meio ao trabalho de edição de “Operação Abafa”, de Farrow, publicado em outubro, que passou 11 semanas na lista de best sellers de não ficção do The New York Times.

No livro, Farrow escreve com franqueza sobre seu relacionamento com a irmã, e em dado momento revela ter pedido conselhos a ela sobre como conversar com alguém que estava “acusando uma pessoa muito poderosa de um crime sério”, antes de entrevistar uma das acusadoras de Weinstein. Ele também acusou executivos da rede de televisão NBC de bloquearem suas investigações sobre Weinstein, cujos resultados foram publicados posteriormente pela revista The New Yorker.

No email a Pietsch, ele expressou preocupação por Dylan Farrow não ter sido contatada “para verificação dos fatos”, e descreveu as acusações de sua irmã como “comprovadas por montanhas de relatórios e provas obtidos no momento da queixa”.

Pietsch se recusou a comentar sobre a verificação de fatos, que não costuma ser uma prática padrão na publicação de livros, ainda que obras sobre temas delicados costumem ser revisadas por advogados para evitar acusações de difamação.

Na segunda-feira, Dylan Farrow recorreu ao Twitter para definir o anúncio da Hachette como “profundamente perturbador para mim, e uma completa traição de meu irmão”.

Dylan Farrow, cujo primeiro romance, “Hush”, será publicado no final do ano pela Wednesday Books, selo editorial da St. Martin’s Press, também criticou a editora por não a contatar para verificação de fatos, o que ela definiu como “uma grosseira abdicação de sua responsabilidade mais básica, por parte da Hachette”.

“Isso oferece mais um exemplo dos profundos privilégios que o poder, o dinheiro e a notoriedade propiciam”, ela disse. “A completa cumplicidade da Hachette nisso deve ser descrita como o que é, e a empresa deve ser responsabilizada por isso”.

Tradução de Paulo Migliacci

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