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Cinema

'Nóis por Nóis' vai além de molde composto por vítimas e algozes

Filme retrata vida de jovens da periferia que vivem em espaços definidos pela violência

Nóis por Nóis

  • Quando Estreia nesta quinta (12)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Ma Ry, Maicon Douglas, Matheus Correa, Stephanie Fernandes
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Aly Muritiba e Jandir Santin

Um garoto desperta o irmão mais velho com uma arma de brinquedo feita de cano de PVC. Policiais dão uma dura num grupo de jovens que vivem num bairro de periferia. Numa tela de TV, um game mostra um fuzil abatendo inimigos.

A sucessão das três cenas na abertura de “Nóis por Nóis” deixa claro que a violência, tanto simbólica como real, define o espaço, as regras de convívio e condiciona a linguagem do grupo que o longa elege como protagonista.

​Não se trata de um ponto de vista externo disfarçado como narrativa policial, seguindo o molde de “Cidade de Deus”, por exemplo. Como o título sugere, a ideia é mostrar como esses protagonistas se veem, conhecer seus sonhos e compreender o que os condena à invisibilidade para a classe média que vai ao cinema.

A violência está onipresente, mas não se resume à posse de armas. Isso fica claro no percurso de Café, jovem que tenta resistir às pressões do chefe local do tráfico. E na tortuosa relação do casal Gui e Jana, quando ela engravida e ele reage como perfeito canalha.

São situações que enriquecem “Nóis por Nóis”, libertando-o do molde maniqueísta composto apenas por vítimas e algozes.

O trabalho em dupla do experimentado Aly Muritiba com o estreante Jandir Santin alcança um equilíbrio entre veracidade e intensidade.

Numa série de curtas surpreendentes em seus dois longas solo, Muritiba firmou-se como diretor que combina o olhar agudo para questões sociais com formas que interrogam as imagens.

Santin, por sua vez, agrega sua experiência com atores não profissionais, o que se traduz em vigor realista, na autenticidade de gestos, modos de falar e aparência física.

“Nóis por Nóis” também se fortalece por uma referência externa e involuntária. Tal como vimos há pouco no francês “Os Miseráveis” e no brasileiro “Bacurau”, a violência deixa de ser apenas um traço social e passa a valer como recurso extremo de significação.

A revolta emerge quando não existe mais a alternativa de diálogo, de negociação ou se perde a crença na justiça. Assim como em “Bacurau”, a revolta é condição para voltar a existir.

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