Descrição de chapéu
Josimar Melo

Quarentena é a hora certa para fazer faxinas e receitas demoradas

Em casa por causa do coronavírus, crítico prepara costela bovina enquanto ouve 15 horas de Richard Wagner

Não sei se veio antes o ovo ou a galinha. Acho que receita e música chegaram juntas à minha mente. Ficar em casa instiga a fazer receitas demoradas, especialmente se não requerem permanente supervisão —caso de um braseado de costela bovina, que se faz praticamente sozinho, suando por horas na panela dentro de um forno manso.

Aí há tempo para outras coisas, como acessar o site da Metropolitan Opera House, de Nova York, que disponibilizara temporariamente seus vídeos. Escolho a montagem de 2011 da tetralogia do compositor alemão Richard Wagner, o "Anel do Nibelungo". Quatro óperas, totalizando 15 horas, companhia de sobra para demoradas receitas na cozinha.

Costela bovina com purê de batata-doce
Costela bovina com purê de batata-doce - Karime Xavier/Folhapress

Ao menos três coisas a genialidade de Wagner nunca mereceu –ter Hitler como fã (lembram seu lamentável antissemitismo, mas não sua militância com o anarquista Bakhunin, seu texto "Arte e Revolução"); ter sido trilha sonora da peça nazista encenada pelo descerebrado ex-secretário da Cultura de Bolsonaro; e servir de mero fundo musical para um cozinheiro e faxineiro medíocre como eu.

Mas foi a isso que o condenei, ao pôr a obra do Met para reverberar na televisão da sala, enquanto da cozinha escutava os acordes regidos com ímpeto e simpatia pelo maestro James Levine.

Para brasear a costela encomendada ao açougue vizinho, preparei os vegetais disponíveis para aromatizar o caldo (cebola, alho, salsão e cenoura bem picados) e ervas do meu canteiro —tudo refogado numa panela de ferro. Dourei a carne e, com pedaços de tomate para dar cor e graça, molhei com vinho tinto e um caldo caseiro congelado.

Na sala, o drama entre deuses e homens em torno do mágico anel ganhava volume. Na cozinha, só via de comum entre as atividades o fato de que a panela de ferro esmaltado, que ficaria por horas dormitando no forno baixo, era alemã —e, ademais, evocava os rompantes metais wagnerianos da orquestra.

Imaginava também que o prato de sabores profundos, aromas pungentes e caldo espesso teria uma dramaticidade à altura da música.

Como nem só de caviar se vive uma quarentena, fechado o forno tratava de ocupar o tempo com a faxina da engordurada cozinha, seguindo as precisas instruções passadas remotamente pela Rita, a diarista, de seu home office.

Golpes de esfregão se repetiam ecoando os leitmotivs que emanavam da sala. Enquanto o deus Wotan cuspia ódio apocalíptico contra a filha, eu atacava furiosamente germes, bactérias e vírus possivelmente homiziados na película engordurada.

Da cozinha, meio exaurido, parei por alguns minutos para ver a imagem na TV, notando uma contradição estética em vias de acontecer. Admiro a forma como a costela bovina é servida nos melhores restaurantes, lapidada como uma escultura, puro osso e carne que habilidosos açougueiros e cozinheiros livraram de gorduras, membranas e adiposidades.

Foi a limpidez que vislumbrei no vídeo, quando, além da música, atentei à cenografia espetacular. Cenário e iluminação fazem uma fusão impactante de tecnologia e simplicidade minimalista, atualizando a antiga saga nórdica recriada por Wagner no século 19.

Li que a montagem de Robert Lepage foi polêmica, mas minha ignorância abissal se maravilhou ao ver as valquírias cavalgando o próprio cenário, entre outras belíssimas e mais complexas soluções. Nada mais distante do que a apresentação disforme, grotesca, das costelas que chegam ao prato.

Passadas dez horas, banheiros limpos, costela macia, molho reduzido, Siegfried soando na TV, fui à cozinha buscar o vinho —mas a garrafa se espatifou no chão.

Foi a primeira vez em que uma taça ou garrafa se partiu por acidente e, no lugar de lamentar por "meu precioso vinho", mirei os cacos e a mancha rubra com um berro de "meu chão limpinho".

Durou pouco. Fechei a porta ("uma hora seca") e fui comer a costela à Richard Wagner enquanto ainda estava fumegante e perfumada.

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