Funcionários demitidos do Museu Afro Brasil acusam diretor de irregularidades

Museu nega e diz ser 'compreensível que os colaboradores dispensados busquem outros motivos da dispensa'

São Paulo

Funcionários demitidos pelo Museu Afro Brasil durante a pandemia do novo coronavírus se juntaram para denunciar irregularidades cometidas pelo diretor e fundador da instituição, o artista e curador Emanoel Araujo.

As dispensas, que atingiram 23 profissionais (ou quase um terço do total de empregados do museu), foram justificadas pelo corte de 14% nos repasses às organizações sociais pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa paulista por causa da pandemia —com orçamento anual de cerca de R$ 9 milhões, o Afro Brasil é vinculado à pasta.

Fachada do Museu Afro Brasil, no parque Ibirapuera, em São Paulo - Daniel Marenco - 27.jul.2011/Folhapress

Em uma carta aberta, os ex-funcionários afirmam que as demissões são, porém, sintoma da irresponsabilidade com que a instituição vem sendo administrada.

"Reconhecemos o papel fundamental desempenhado pelo diretor Emanoel Araujo ao longo de sua trajetória", diz o texto. "No entanto, não podemos nos silenciar diante dos excessos protagonizados pela gestão da instituição, que trata o bem público como um bem privado."

Três ex-funcionários, que preferiram não se identificar, detalharam essas práticas à reportagem. Entre elas, estariam dificuldades impostas por Araujo à equipe para cumprir o plano de trabalho do museu, acordado com a secretaria responsável, e o uso de pessoal e de serviços do museu em benefício próprio.

O artista e curador é descrito pelos ex-funcionários como alguém que tacha de inimigo qualquer um com quem entre em conflito.

Segundo esses profissionais, ele recusa sistematicamente esforços de parcerias com instituições reconhecidas, como já foi o caso do Museu de Arte Moderna de São Paulo e o Museu de Arte Sacra, apesar de o plano de trabalho prever esse tipo de articulação. A justificativa para isso seria a presença de desafetos nas equipes dos locais, afirmam.

A mesma arbitrariedade seria aplicada às obras que pertencem ao museu. Os ex-funcionários dizem que trabalhos de nomes importantes no cenário nacional, como Rosana Paulino e Thiago Gualberto, foram retirados de exibição e, num dos casos, até mesmo do acervo, depois que Araujo se desentendeu com esses artistas.

Eles ainda afirmam que há relatos de que obras da coleção pessoal de Araujo são restauradas pela equipe do museu em horário de trabalho.

Outra crítica são os embates de Araujo com o setor educativo, um dos mais afetados pelas demissões —ao menos nove pessoas da área foram dispensadas.

Segundo os ex-colaboradores, o diretor do museu repreendeu sucessivas vezes educadores que atenderam visitantes em situação de vulnerabilidade social, algo previsto no plano de trabalho da instituição.

Também teria imposto obstáculos ao desenvolvimento do programa para deficientes, outro item previsto, e estabelecido internamente uma idade mínima de sete anos para as visitas escolares guiadas, algo que não está explícito no acordo com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

Os ex-empregados ainda afirmam que quase todos os cargos de coordenação do museu, que são estratégicos e têm remunerações mais altas, são ocupados por pessoas brancas. Com isso, argumentam, reproduziriam uma estrutura com a qual a instituição, que mapeia a influência africana na sociedade brasileira, deveria romper.

Segundo a carta dos ex-funcionários, os contratempos fragilizam a instituição e são agravados com os afastamentos, "uma vez que os trabalhadores demitidos desenvolviam, com reconhecido desempenho, atividades de pesquisa, estratégias de difusão, comunicação e ações educativas".

O museu nega qualquer irregularidade. "É compreensível que os colaboradores dispensados busquem outros motivos da dispensa. No entanto, a gestão do museu está agindo com toda transparência em relação às medidas implementadas para enfrentar esse período tão adverso", afirma, em nota, o Museu Afro Brasil em resposta às acusações.

Segundo a instituição, foram considerados todos os cenários possíveis, inclusive a redução de jornada de trabalho com respectiva diminuição dos salários, algo que os ex-funcionários pediam na carta.

No entanto, continua o Afro Brasil, "a rescisão contratual de parte dos colaboradores foi indispensável, em especial para aqueles cujas atividades presenciais ao público estão suspensas" —segundo o museu, essa é "uma das despesas mais significativas do contrato de gestão firmado com o estado para a operação".

Sobre as outras acusações, o museu diz que "se pauta pela transparência e sempre atendeu aos resultados esperados pelo estado de São Paulo com muita eficiência". Também afirma que as metas entre a associação que o administra, a Associação Museu Afro Brasil, e o governo de São Paulo são cumpridas e que as prestações de contas confirmam essa regularidade.

Essa não é a primeira vez que a instituição enfrenta uma crise interna. No ano passado, o anúncio de um contingenciamento de 23% da verba destinada à cultura em São Paulo quase levou o espaço a encerrar suas atividades nos fins de semana.

Há três anos, dois ex-funcionários acusaram Araujo de assédio sexual. O artista e curador negou as acusações e disse que eles estariam incomodados por ele ter criticado a artista Renata Felinto no Roda Viva, exibido pela TV Cultura em dezembro daquele ano.

O Museu Afro Brasil completou 15 anos no ano passado. Seu acervo abriga mais de 6.000 obras, sendo que cerca da metade delas foi doada pelo próprio Emanoel Araujo.

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