Descrição de chapéu The New York Times

Ladrão de quadros de Van Gogh explica destino de obras de arte roubadas

Octave Durham analisa que furto recente de quadro do pintor em museu holandês foi muito fácil

Nina Siegal
Amsterdã | The New York Times

As imagens das câmeras de segurança mostravam claramente o homem quebrando as portas de vidro do Museu Singer Laren e depois saindo minutos mais tarde com um quadro de Vincent van Gogh sob o braço.

“Veja só”, disse Octave Durham, ao assistir à cena. “O equipamento dele nem é profissional. Se você é profissional, estará vestido todo de preto. Mas ele está de jeans e de tênis Nike.”

A exasperação de Durham não é a de um telespectador que tenha dedicado tempo demais a séries sobre crime. Ele foi ladrão e 18 anos atrás roubou não só um mas dois quadros de Van Gogh do famoso Museu Van Gogh, em Amsterdã.

Como um dos dois ladrões condenados por esse crime em 2004, ele serviu uma sentença de prisão de pouco mais de 25 meses. Em 2016, a polícia italiana encontrou os dois quadros que ele roubou na parede da cozinha de uma casa em Castellammare di Stabia, perto de Nápoles, em posse de Raffaele Imperiale, um membro de uma quadrilha de tráfico de drogas italiana. Eles foram devolvidos ao museu.

“Esse foi o roubo de arte mais fácil que eu já vi”, concluiu Durham, 47, sobre o roubo do quadro do Singer Laren, que aconteceu cedo na manhã de 30 de março .

A polícia da Holanda se recusou a comentar a investigação. Mas Arthur Brand, um detetive particular que investiga crimes de arte e ajudou a recuperar muitas obras de arte roubadas, disse que estava trabalhando com a polícia no caso e que via algumas semelhanças entre o roubo e o crime de Durham.

Os dois foram invasões rápidas, cometidas em menos de cinco minutos por homens equipados com martelos. Tanto o quadro roubado do Singer Laren, “O Jardim Paroquial de Nuenen na Primavera”, quanto um dos roubados por Durham, “Congregação Deixando a Igreja Reformada de Nuenen”, mostram a igreja da qual o pai de Van Gogh era pastor.

 "O Jardim Paroquial de Nuenen na Primavera" (1884), de Vincent van Gogh
"O Jardim Paroquial de Nuenen na Primavera" (1884), de Vincent van Gogh - Groninger Museum

“Minha forte suspeita é que o roubo tenha sido cometido por alguém que copiou aquele crime”, disse Brand. (Aliás, ele verificou que Durham estava internado no hospital no momento do roubo.)

Durham, que atende pelo apelido Okkie, não gosta da teoria da cópia. “As pessoas dizem que ele é um ‘aspirante a Okkie’, mas não sei”, ele afirmou em entrevista. “Eu não teria feito o roubo daquele jeito.”

Agora, o criminoso está mais ou menos na situação em que Durham ficou décadas atrás. O que fazer com um quadro de Van Gogh roubado? Quem compra uma pintura amplamente conhecida como roubada?

“Eu roubei os quadros porque percebi uma oportunidade”, disse Durham. Ele reparou que havia uma janela no museu que parecia fácil de quebrar. “Não tinha um comprador antes do roubo”, ele disse. “Imaginei que podia vendê-los, ou, se tivesse um problema, usá-los para negociar.”

Por “negociar”, Durham quer dizer usar os quadros como moeda de troca com as autoridades caso ele encontrasse problemas por outros motivos.

Durham foi acusado diversas vezes de roubos e invasões, entre os quais um assalto a banco pelo qual foi considerado inocente mas agora admite que cometeu. Ele falou bastante sobre seu passado, nos últimos anos, tendo em 2017 concordado em participar de um documentário sobre sua vida.

Em uma biografia de 2018, “Master Thief”, de Wilson Boldewijn, Durham confessa ter cometido outros roubos, igualmente, mas insiste em que jamais praticou violência contra pessoas ao cometer seus crimes. (Nos termos da lei holandesa, os registros de processos criminais são sigilosos.)

“Minha regra número um é falar macio, ter um carro rápido e não encostar a mão em qualquer pessoa”, disse ele.

Durham disse que, quando criança, um de seus vizinhos era criminoso, na Holanda –Kees Houtman, que devolveu dois Van Goghs roubados que tinha em seu poder ao Judiciário do país, em 2005, na esperança de receber uma sentença de prisão mais leve em um caso de contrabando de drogas. As obras de Van Gogh em questão tinham sido roubadas de outro pequeno museu holandês em 1990. Durham disse que “isso ficou na memória”.

Ele afirmou que inicialmente ofereceu os quadros de Van Gogh que tinha roubado a dois criminosos, mas que estes foram assassinados antes que o negócio fosse completado.

“Sou religioso e supersticioso”, disse Durham. “Fiquei com a impressão de que os dois quadros eram amaldiçoados. Pensei que não queria ter coisa alguma a ver com eles.”

Por fim, ele e seu cúmplice, Henk Bieslijn, venderam os quadros a Imperiale, que era dono de um café em Amsterdã e líder da Camorra, uma organização criminosa napolitana. Ele levou os quadros para a Itália e os escondeu na cozinha da casa de sua mãe, aparentemente para proteção, de acordo com Willem Nijkerk, procurador público na procuradoria de Amsterdã.

Enquanto isso, Durham fugiu de Amsterdã para a Espanha, onde a polícia o deteve em 2003 em Marbella, uma cidade turística no sul do país. Investigadores forenses holandeses conseguiram extrair DNA de um boné de beisebol que ele esqueceu no Museu Va Gogh, o que resultou em sua condenação, mas ele se recusou a revelar a localização dos quadros.

Octave Durham, que roubou obras de Van Gogh em 2002, em Amsterdã
Octave Durham, que roubou obras de Van Gogh em 2002, em Amsterdã - The New York Times

Mais de uma década depois, quando a polícia italiana estava investigando a família do crime organizado Imperiale e a Camorra, Imperiale confessou por carta estar em poder dos quadros, aparentemente na esperança de negociar uma sentença mais leniente.

Pelo menos 34 quadros de Van Gogh foram roubados ao redor do mundo, de 1975 para cá, disse Nienke Bakker, curadora sênior dos quadros do artista no museu. O número inclui 20 pinturas roubadas em 1991 do museu no qual ela trabalha. Elas foram recuperadas poucas horas mais tarde, em um carro abandonado.

Ursula Weitzel, a procuradora pública chefe para casos de crimes de arte na procuradoria holandesa, disse que, em geral, obras de arte são roubadas pelos mesmos motivos pelos quais pessoas roubam carros.

“A menos que seja um crime passional, usualmente o motivo é ganhar dinheiro”, ela disse. "É simples assim. As pessoas não roubam porque querem ter o quadro em suas paredes. Esse tipo de roubo, por orgulho ou status, nunca vi acontecer. Em geral o motivo é o dinheiro. Ou para reter a obra por motivo de segurança, caso seja necessário.”

Brand disse que muitos ladrões acreditam que conseguirão vender os quadros no mercado aberto, mas depois não demoram a descobrir que não existem compradores legais.

“Mais de metade de meus casos foi assim”, ele disse. “Você tem ladrões que acreditam que existem compradores que realmente querem ter obras de arte roubadas em suas paredes. Mas eles não existem. Isso só acontece no filme ‘Dr. No’. No entanto, alguns ladrões acreditam que existem pessoas assim, e têm uma surpresa desagradável quando não conseguem vender as obras.”

É quando isso acontece que eles as oferecem a outros criminosos, segundo ele, frequentemente por valor muito inferior ao real.

Brand estima que, no submundo do crime, uma obra de arte tenha valor equivalente a 10% de seu valor no mercado de arte legítimo. Um quadro que seria vendido por US$ 10 milhões em um leilão, é negociado entre criminosos por um valor de cerca de US$ 1 milhão. Durham disse que a porcentagem é ainda menor –cerca de de 2,5% a 5% do valor de mercado.

Weitzel, que lida com cerca de dez casos de roubo de arte por ano só em Amsterdã, disse que às vezes um criminoso retém uma obra roubada na esperança de usá-la como proteção ou para barganhar com as autoridades.

“No fim, é um investimento, ainda que seja um investimento ilegal”, acrescentou Weitzel.

Muitas vezes demora décadas para que obras roubadas ressurjam, e poucas peças, menos de 10% do total roubado, retornam, segundo Brand. Nos casos de quadros avaliados em milhões de dólares, a probabilidade de que terminem recuperados melhora significativamente. “Ainda não é muito grande”, afirmou ele. “Meu palpite é que as pessoas destroem as peças de arte menos valiosas, porque não têm o que fazer com elas.”

O quadro roubado do Singer Laren, uma pintura em óleo sobre papel, de 1884, havia sido emprestado pelo Museu de Groningen, no norte da Holanda.

Durham disse que não roubaria outro quadro de Van Gogh, e descreveu o roubo que cometeu 18 anos atrás como "a ação de um jovem".

“Não é como roubar um banco”, disse ele. “Compreendo agora que as pessoas realmente gostam de arte, e que se você rouba obras de arte as pessoas ficam magoadas e zangadas. Agora compreendo isso, mesmo que não tenha esse sentimento pessoalmente.”

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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