Antologia reúne 50 anos de crônicas famosas e raras de Verissimo

Personagens como o Analista de Bagé e o detetive Ed Mort, contudo, ficaram de fora do volume

São Paulo

Luis Fernando Verissimo está no negócio das crônicas há mais de 50 anos. Durante uns tempos, era uma por dia —“o que era mortal”, segundo ele conta ao repórter. Não dá para esperar que se lembre de tudo o que escreveu.

Às vezes certos lampejos, como a reunião de uma nova antologia, devolvem à sua memória textos que já fugiram dela há tempos. “As surpresas podem ser boas”, afirma o escritor de 84 anos. “Ou então você fica pensando, ‘eu escrevi essa bobagem?’”.

Agora “Verissimo Antológico”, coletânea robusta de mais de 300 crônicas lançada pela Objetiva, vai tornar um pouco mais difícil esquecer as coisas boas.

Os textos organizam as cinco décadas de trabalho de um dos autores mais populares do Brasil, que começou a escrever em jornais em 1969 e segue firme com colunas em O Globo e O Estado de São Paulo.

É uma seleção exaustiva e cuidadosa de material que saiu na imprensa, em coletâneas antigas e em publicações esparsas, mas, como ocorreria com qualquer autor de produção tão vasta, deixa de fora partes essenciais.

Não é possível entender todo o alcance do escritor gaúcho sem os personagens que entraram fundo no imaginário popular, mas estão ausentes neste volume de 700 páginas, como a ingênua Velhinha de Taubaté, o bronco Analista de Bagé e o detetive Ed Mort.

Por outro lado, a antologia traz raridades que estavam há décadas fora de circulação. A função de garimpar por “pepitas perdidas”, como ele mesmo coloca, ficou ao encargo do jornalista Marcelo Dunlop.

Por exemplo, há “O vingador da Lady Di”, uma história sombria de quase dez páginas sobre o mistério envolvendo o assassinato de uma atriz pornô em plena filmagem, que saiu encartada numa revista Caros Amigos de 1998.

Ou “A verdade”, versão divertida de Verissimo para o caso de Capitu e Bentinho, que estava perdida numa antologia machadiana, segundo Dunlop.

Ou ainda “Meu personagem inesquecível”, em que o autor Deus relata em primeira pessoa a criação de Eva —“personagem que se apossa da história e a leva em direções que [o autor] nunca imaginara”— e revela ter poupado Caim da morte porque era seu “personagem mais interessante até ali”. Outro com mais de dez páginas.

O tamanho de alguns de seus textos de outrora também espanta Verissimo, célebre pela concisão. A maioria de seus escritos dos anos 2010 têm cerca de duas páginas, tamanho de suas colunas. “Não sei se havia mais espaço para a crônica ou se eu é que era mais prolixo ou menos preguiçoso.”

luis fernando verissimo, em preto e branco
O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo  - Evandro Leal - 16.nov.2017/AgênciaFreelancer/Folhapress

O livro traz também, por óbvio, algumas de suas crônicas mais antológicas, com o perdão do trocadilho —“Palavreado”, em que dá vida à sonoridade da língua portuguesa, “A metamorfose”, em que revira Kafka de cabeça para baixo, e “O suicida e o computador”, em que reflete sobre a força angustiante do processo de escrita (e reescrita).

Lógico que qualquer realce desses, que elege uns poucos destaques na obra de um cronista que influenciou gerações, é absolutamente pessoal. E é lógico que o autor também tem uma seleção assim na cabeça. Mas ele se esquiva.

“É um pouco como a relação de um pai com suas filhas. O autor pode ter sua filha favorita, mas não pode dizer qual é.”

E do lado oposto, há algo que preferiria relegar ao esquecimento? “Atirar a crônica ou a antologia no fogo, não. Torcer para que o leitor esqueça o texto ruim que leu, sim.”

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