Descrição de chapéu Games

Caso de racismo nos games requer pressão externa para que Xbox se posicione

Caso Xbox MiI Grau, desautorizado pela Microsoft, ecoa Black Lives Matter e golpeia o 'politicamente incorreto'

São Paulo

Um sujeito publica uma piada racista na internet. Em menos de uma semana, é expulso de um punhado de plataformas das quais tirava a sua renda, jogando videogames e falando sobre eles.

Em resumo, esse é o caso que sacudiu a comunidade gamer no Brasil na última semana —e que foi o front mais recente das guerras culturais no país.

Jimmy De Santa, personagem de 'GTA V' que é retratado como uma caricatura do gamer tóxico
Jimmy De Santa, personagem de 'GTA V' que é retratado como uma caricatura do gamer tóxico - Reprodução/IMDb

Imagine uma época em que se considera aceitável proferir desaforos preconceituosos em frente a grandes públicos. Nós provavelmente ainda estamos vivendo nela.

Um streamer é uma espécie de performer online que joga videogame enquanto faz gracinhas para sua audiência. Ao mesmo tempo, costuma atacar de youtuber. Alguns se valem do chamado discurso “politicamente incorreto” para construir suas personas virtuais.

No fim de maio, quando manifestações ligadas ao Black Lives Matter só cresciam, um membro do canal Xbox Mil Grau postou no Twitter uma montagem em que se lia “o que pessoas negras estão
fazendo hoje/ o que pessoas brancas estão fazendo hoje”. De um lado, uma fotografia de uma pessoa negra perto de um carro em chamas. Do outro, astronautas brancos num simulador da SpaceX.

Hashtags em repúdio ao post tremularam no Twitter. Mas, num primeiro momento, nada aconteceu de fato.

O editor de vídeo Ricardo Regis foi um dos principais catalisadores do processo de degola do canal. Ele compilou falas ditas durante transmissões do Mil Grau e postou nas redes sociais —e viralizou. No vídeo, piadas com Hitler, lésbicas e negros.

“Para quem já conhecia [o canal], nada do que foi dito ali foi algo novo”, diz Regis. “Criou-se a ‘etiqueta’ de deixá-los falar e fazer o que quisessem.”

A coisa escalou, e aí vieram as expulsões, notas de repúdio e um “fatality” —a Xbox proibiu que o nome do canal incluísse a marca. “O conteúdo da conta Mil Grau não reflete nossos valores fundamentais de respeito, diversidade e inclusão”, escreveu em nota.

Em nota, os streamers tentaram se explicar, dizendo que não houve racismo. Dizem que seu conteúdo é recomendado para maiores de 18 anos. “Fazemos brincadeiras e piadas conhecidas como ‘humor negro’.”

O universo dos games talvez abrigue os casos mais palpáveis do chamado fetichismo da mercadoria. Alguns gamers se orgulham em se definir como “nintendistas”, “sonystas” ou “caixistas”, numa espécie de amor patriótico a uma fabricante de videogame.

O Xbox Mil Grau acabava atuando como um evangelizador espontâneo da Xbox —antes do episódio, a relação entre os dois era outra.

A conta oficial da Xbox Brasil já chegou a usar um conhecido bordão da Mil Grau, “é com isso?”, em suas redes sociais para fazer graça.

Segundo Regis, a Microsoft chegou a levar o time do Xbox Mil Grau, com tudo pago, à E3, maior feira de videogames do mundo, nos Estados Unidos. Procurada, a Microsoft não confirma se houve de fato o patrocínio e não fala sobre a relação da empresa com o canal ao longo dos últimos anos.

Mas o que teria causado essa mudança de postura da Xbox? Faz sentido dizer que o universo dos games passa por um momento de virada de chave em que discursos preconceituosos anteriormente tolerados não são mais aceitos? Vamos com calma.

O post do membro da Mil Grau aconteceu justamente numa semana em que marcas globais, como Twitter e YouTube, se manifestavam oficialmente a favor do movimento Black Lives Matter.

Seguindo os passos do braço musical da Sony, a PlayStation adiou um evento sobre o PS5, ainda a ser lançado, e postou um texto em apoio ao movimento, seguido pela hashtag #BlackLivesMatter, no dia 1º de junho. A concorrente Xbox foi lá e retuitou. A Nintendo demorou um pouco mais e publicou no dia 3 um comunicado solidário à comunidade negra.

A Rockstar Games bloqueou temporariamente seus jogos online, incluindo “GTA” e “Red Dead”, também em apoio ao Black Lives Matter.

Dizer que foi um caso de lugar e hora errados pode ser uma análise mais precisa do que aconteceu com o Mil Grau.

Mas nada disso invalida necesariamente a ideia de que os games passam por um período de transição —ainda que esse processo seja lento.

“Eu acho que se estivéssemos na fase de fazer vista grossa [a discursos preconceituosos por parte das plataformas] seria um avanço. Do meu ponto de vista, estamos na fase do endosso”, diz Regis, que também é fundador de um canal de games, o Nautilus. “Difícil enxergar mudança positiva em meio ao contexto sociopolítico que a gente vive, mas eu acredito que, por menor que tenha sido, essa foi uma pequena vitória. Gera precedente.”

Não é de hoje que os games são palco de disputas que ultrapassam as telas de computador. Um caso que entrou para a história recente das guerras culturais foi o Gamergate.

O estopim fui um post num blog de 2014 sobre um término de namoro. No texto, um homem chora as pitangas depois de terminar com Zoë Quinn, uma desenvolvedora de games de Boston.

Uma parte do textão dizia que a mulher teria se relacionado com um jornalista de um site especializado, o Kotaku. Isso supostamente teria revelado como eram sórdidas as relações dos desenvolvedores de games com a mídia.

Segundo o New York Times, o jornalista nunca escreveu sobre nenhum game de Quinn. Mas o texto foi parar no 4chan, e lá a misoginia tomou corpo.

Quinn teve o endereço físico descoberto, informações pessoais divulgadas, fotos íntimas vazadas e sofreu intimidação e assédio virtual em massa. Pelo menos outras duas mulheres foram alvo de ataques parecidos no mesmo período.

O Times descreveu o episódio como “máfia que criou um manual para uma guerra cultural”. Steve Bannon disse que usou o Gamergate como inspiração e catalisação para a campanha presidencial de Donald Trump. “Você pode ativar esse exército. Eles entram no Gamergate ou o que quer que seja e depois se voltam para a política e Trump”, disse Bannon ao jornalista Joshua Green, há três anos.

O relatório do FBI, a polícia federal americana, dizia que “não foram identificados perpetradores ou ações” e que a procuradoria em Boston, para onde o caso foi enviado, “recusou persecução da matéria”.

Os acusados não tinham um rosto definido e, nesse caso, não houve qualquer punição.

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