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Televisão Maratona

Não há mocinhas em 'Little Fires Everywhere', mas mulheres complexas

Personagens são confrontadas com debates éticos de difícil solução e, diante deles, é impossível existir uma heroína

Little Fires Everywhere

  • Onde Disponível no Amazon Prime Video
  • Elenco Reese Witherspoon, Kerry Washington, Joshua Jackson
  • Criação Liz Tigelaar

Logo no primeiro episódio do seriado "Little Fires Everywhere", descobrimos a primeira camada de significado do título: uma casa pega fogo a partir de pequenos focos de incêndio. Porém, ao longo dos oito capítulos, vai ficando claro que as faíscas estão de fato por toda parte, não apenas na casa que é destruída.

As faíscas saem, sobretudo, do contato entre mães e filhos, e dos conflitos entre mulheres sobre filhos e família.

Reese Witherspoon, que vive uma das protagonistas, dá sequência aqui a seu projeto de produzir obras de audiovisual que abordem temáticas essencialmente femininas com personagens longe dos estereótipos e baseados em livros de escritoras, como em "Big Little Lies", da HBO.

Agora, o programa inspirado no livro homônimo da americana Celeste Ng acompanha duas mulheres bastante diferentes numa pequena cidade de interior. Elena é uma mulher branca, casada, jornalista em meio período, mãe de quatro jovens com idades próximas, e Mia é uma mulher negra, solteira, artista plástica, mãe de uma adolescente.

A relação entre as duas se dá em meio a afetos que se chocam com preconceitos, além de um conflito envolvendo a guarda de uma criança filha de uma imigrante ilegal chinesa.

Witherspoon, que vive Elena, é magistral no papel da mãe que tem tudo sob controle, com um mapa de post-its para a vida de cada um de seus filhos e uma agenda de sexo com o marido, mas que vai perdendo tudo, vendo escorrer o equilíbrio por entre seus dedos.

Já Kerry Washington, que dá vida a Mia, constrói uma mulher atormentada pelo passado e cheia de trejeitos faciais, que não consegue esconder sua raiva mesmo de boca fechada, mas que não emite tanta hipocrisia quanto sua personagem deveria ter.

É curioso como, a depender da situação, a empatia do espectador balança entre Elena e Mia, embora a primeira pareça mais uma vilã, cheia de manias, regras e preconceitos, enquanto a segunda se apresente como a portadora da bandeira da liberdade. Mas as duas são confrontadas com debates éticos de difícil solução e, diante deles, é impossível existir uma heroína.

Afinal, é disso que se trata: não há mocinhas, mas sim mulheres complexas, com desejos e responsabilidades, que se veem em meio à desordem.

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