Beyoncé e Kanye West puxam onda de canções de protesto e de orgulho negro

Músicas surgem no calor das manifestações antirracistas, que têm de 'Fuck Tha Police' a Pop Smoke como trilha

São Paulo

Em 1987, Dr. Dre ainda não era famoso quando saiu atirando com armas de paintball no meio do trânsito em Los Angeles. O produtor, depois conhecido por hits com N.W.A., Snoop Dogg, Tupac e pela carreira solo, foi pego pela polícia, apanhou na hora e como pena teve de passar os fins de semana na cadeia.

Ice Cube considerou o episódio a gota d’água, depois de uma crescente repressão contra as gangues da cidade —ou “todo mundo que eles achavam que era de gangue”, segundo o rapper—, para que ele escrevesse a letra de “Fuck Tha Police”.

A música, lançada pelo N.W.A., grupo de Cube com Dre e Eazy-E, entre outros, saiu em 1988, foi banida das rádios e entrou na mira do FBI, mas acabou se tornando uma das mais emblemáticas canções de protesto contra a violência policial.

Com uma mensagem nada sutil, “Fuck Tha Police” —lembrada com frequência até hoje em letras de rappers brasileiros e de outros lugares do mundo— é uma das trilhas das manifestações do movimento Black Lives Matter, que tomaram as ruas de diversos países nos últimos meses.

As caixas de som levadas aos protestos ecoaram clássicos, mas também abriram abriram espaço para hits do trap contemporâneo e acabaram influenciando a produção de uma nova leva de músicas de protesto nos Estados Unidos.

Rapper de Los Angeles, YG usou o refrão do clássico do N.W.A. em “FTP”, faixa que ele lançou em junho. “É a polícia da Ku Klux, eles têm uma missão/ É a polícia da Ku Klux, têm uma agenda secreta/ É a verdade, não vou parar”, ele canta. “A polícia já me odeia, por que não?/ Fazer sua cidade de riquinhos parecer um lixão/ De quem faz as regras, precisamos de respostas rápidas/ Eles estão irritados, foda-se, vamos deixá-los emputecidos.”

A música foi lançada como um chamado aos protestos de 7 de junho em Hollywood, tratados pela imprensa ali como a maior manifestação antirracista da história da cidade, com cerca de 20 mil pessoas reunidas. Imagens do dia estão no clipe da faixa de YG.

Nos anos 1980, “Fuck Tha Police” era, antes de tudo, uma canção de denúncia. Hoje, este papel é também dos celulares, apontados por manifestantes como armas contra policiais violentos, em imagens que rodaram o mundo. A mais emblemática delas, do assassinato de George Floyd —que era rapper— por um policial branco.

A estética dos vídeos amadores acabou norteando o clipe de “Wash Us In The Blood”, faixa de Kanye West com Travis Scott. Dirigido pelo artista visual Arthur Jafa, o vídeo traz imagens de violência policial e de pessoas com dificuldades para respirar entremeadas com manifestações culturais afro-americanas. “A vida toda sendo bandidos/ Sem escolha, vendendo drogas”, canta West. “Genocídio, o que isso gera? Escravidão, o que isso gera?”

Até a estrela pop Beyoncé foi inspirada pelo momento. “Formation”, sua faixa politica de 2016 reverberada pela performance no Super Bowl e que levou policiais a tentarem boicotar um show da cantora— já era tocada nas manifestações quando ela soltou “Black Parade”, em 18 de junho, dia da celebração da emancipação dos escravos nos Estados Unidos.

“Por favor, continuem a lembrar nossa beleza, força e poder”, escreveu Beyoncé, que lembra ícones como Curtis Mayfield e Martin Luther King, exalta as origens africanas e diz que será preciso “um exército” para deter os movimentos.

Sem o alcance de estrelas como Kanye West e Beyoncé, diversos artistas têm cantado os dias de revolta contra a polícia e o racismo sistêmico. Noname, rapper de Chicago, se uniu ao renomado produtor Madlib em “Song 33”, um jazz-rap de pouco mais de um minuto que vai direto ao assunto.

“Uma garota desaparece e então outra desaparece”, ela repete no refrão, enquanto relaciona os protestos ao feminismo e critica a matança de mulheres negras trans. “Eles falam sobre abolir a polícia/ E essa é a nova ordem mundial/ Estamos democratizando a Amazon, queimando fronteiras/ Esta é uma nova vanguarda/ Eu sou a nova vanguarda.”

Em junho, o músico Terrace Martin reuniu os rappers Denzel Curry, Daylyt, G Perico e o saxofonista Kamasi Washington em “Pig Feet”. A faixa, baseada no sax cortante e com bateria acelerada, é agressiva e traz Curry rimando que “a tragédia está na tela como peças de William Shakespeare”. O clipe também traz imagens de protestos feitas com celular.

O rapper Pink Siifu ficou conhecido em 2018, com o disco “Enslay”, baseado em loops de soul. Neste ano, lançou “Negro”, álbum que desenvolve o discurso e a estética com influências do punk, do noise e do jazz. O LP traz na capa uma referência à bandeira americana e é repleto de gritos e barulhos —um distúrbio da ordem com raiva e brutalidade.

Além da revolta, a trilha sonora do Black Lives Matter também é de exaltação. “Alright”, hit de Kendrick Lamar de 2015, já havia sido cantada em protestos e voltou a tocar no momento. “This Is America”, lançada por Childish Gambino em 2018, também voltou à evidência. Essas duas faixas chegaram às listas de mais tocadas do Spotify no Brasil nos últimos meses, assim como James Brown, com “Say It Loud — I’m Black and I’m Proud”.

Herdeiros de Prince chegaram a lançar um vídeo atualizado para “Baltimore”, música que ele lançou em 2015 em homenagem a Freddie Gray —americano que morreu nas mãos da polícia naquele ano. Em Los Angeles, uma música de 2004, “Feelin’ Myself”, de Mac Dre, voltou a ser tocada em protestos. A faixa, que trata mais de autoestima do que de problemas sociais, também revela esse lado afirmativo dos movimentos.

Isso está melhor representado em Nova York, que teve como trilha das manifestações a música “Dior”, do ano passado, do rapper Pop Smoke. O jovem MC era da cena de drill —novo estilo de rap— do Brooklyn e foi assassinado a tiros em fevereiro, aos 20 anos.

A faixa não tem nem um verso sequer sobre polícia ou repressão e, na verdade, fala sobre dançar com estilo. Ponte mais forte com a juventude, “Dior” denuncia o sonho da vida de prazeres, de festas e roupas caras, que no caso do artista foi abortado pela violência.

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