Com filtros do Snapchat, Pedroca Monteiro cria mininovela no Instagram

Recaída com ex e dramas familiares são tema de episódios, que oscilam entre cenas emocionantes e engraçadas

Estocolmo

“Solidão que vem/ Solidão galopante.” Se esses versos ainda não soam familiares, não se preocupe. É questão de tempo para que o novo hit da quarentena chegue até você. Compositor? Um dos personagens criados por Pedroca Monteiro em sua mininovela no Instagram.

Criada há menos de dois meses, a trama já conquistou milhares de seguidores, incluindo famosos como Nanda Costa, Fernanda Vasconcellos, Reynaldo Gianecchini, Roberta Sá, Lulu Santos e Anna Muylaert. Até Teresa Cristina, a rainha das lives, gravou um vídeo cantando o hit de Monteiro.

Mas o que diferencia a mininovela de produções como “Sinta-se Em Casa”, de Marcelo Adnet, “Diário de um Confinado” ou dos personagens "quarentenados" do Porta dos Fundos?

A mininovela extrapola a comédia, gênero oficial do confinamento. É uma história nos moldes do clássico folhetim televisivo, mas contada em formato virtual e em curtíssimos capítulos diários, compostos de minivídeos, com até um minuto de duração.

Nos vídeos aparecem os personagens criados por Monteiro, que os interpreta usando filtros do Snapchat, que distorcem sua aparência e adicionam feições específicas para cada um. Para completar, o ator usa vozes diferentes e jeitos de falar exclusivos para cada persona.

No início, a narrativa tinha foco em dois personagens principais, pais separados de gêmeos que compartilham a guarda das crianças na quarentena. A situação soou familiar para muitos. Mesmo quem não tem filhos reconheceu no ex-casal os riscos de recaída vividos por muitos no período de isolamento.

O público quarentenado se apegou imediatemente a Ivanildo, o ex-marido de coração mole e ato falho recorrente —“meu amor, Leticia"— e Leticia, assoberbada com crianças, mensagens incessantes de Ivanildo e o drama com o namorado Paulo, dependente de uma relação edipiana com a mãe.

Ator Pedroca Monteiro em estréia da comédia "Simples Assim", no Teatro Frei Caneca, em 6 de setembro de 2019
Ator Pedroca Monteiro em estréia da comédia "Simples Assim", no Teatro Frei Caneca, em 6 de setembro de 2019 - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Mas as curtidas conquistadas pela trama inicial não apaziguaram a força criativa de Monteiro. O autor, sabiamente, foi se afastando do assunto familiar-doméstico e incorporou à mininovela outros personagens cômicos que já existiam de forma autônoma em seu perfil no Instagram.

A periguete Sabrina Saku Xeiu, por exemplo, já tinha conquistado muitos com seu tique de repetição, descarregando um pouco do ódio armazenado contra modas da quarentena. Virou melhor amiga de Leticia. Pipi, o Gato Escroto —um bicho meio asmático que dispara revoltas contra seu dono bolsonarista Rodolfo— já era um dos personagens mais populares do perfil e acabou indo passar uns dias aos cuidados de Ivanildo. Patrick do Heiki, que arrancava risadas com suas vinhetas de práticas holísticas variadas, finalmente encontrou nos personagens da série consumidores para suas técnicas de leitura de gengiva e banho de caldo Knorr.

Muitos desses personagens têm, sim, gênese nítida na comédia. Mas o que impressionou foi a habilidade do autor em incorporar as figuras de forma orgânica à trama da mininovela. Com eles, a narrativa ganhou corpo e maior envolvimento do público, que lá pelo capítulo dez torcia abertamente em comentários para que o casal de protagonistas voltasse a ficar junto.

A mininovela faz rir, mas também comove. Qual coração não derreteu com os olhos sorridentes de Ivanildo cantando o tema da micareta? Quem não vibrou com a mensagem de término de Leticia —ainda que para ser imediatamente surpreendido por uma reviravolta tão típica dos folhetins?

Monteiro conseguiu a proeza de adaptar esse gênero seminal do entretenimento brasileiro ao formato do Instagram, sem cenário nem equipe, e prestar homenagem a interpretações históricas da televisão brasileira. E ele segue surpreendendo, trabalhando sem roteiro e na base do improviso diário nesse período de férias forçadas de seu trabalho habitual, que inclui teatro, o "Fora de Hora", da TV Globo, e a trupe do Buraco da Lacraia.

Tudo já ia bem, mas o salto veio com a personagem Carol Priscila. A cantora estreante meio rouca e toda errada, que já havia aparecido em lives solitárias —onde faltava música e sobravam problemas técnicos— de repente atingiu o público em cheio com o hit "Solidão Galopante", que já ganhou inúmeros clipes, versão multi-instrumental, com violino, harpa e até funk.

Pedroca Monteiro se revela como um dos expoentes da dramaturgia da quarentena. E os seguidores que esperam pelo próximo episódio da sua mininovela são mais numerosos a cada dia.

Muito tem se falado sobre os rumos da indústria audiovisual e o futuro das narrativas pós-pandemia. A resposta talvez seja mais simples do que parece –artistas sempre criarão.

Pedroca Monteiro na comédia 'Simples Assim', sob a direção de Ernesto Piccolo
Pedroca Monteiro na comédia 'Simples Assim', sob a direção de Ernesto Piccolo - Victor Hugo Ceccato/Divulgação
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