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Quero contar uma história radicalmente diferente dos EUA, diz Ta-Nehisi Coates

Escritor lança romance sobre homem que foge da escravidão e discute maior interesse por livros de autores negros

São Paulo

“Eu me perguntava quem poderia preencher o vazio intelectual que me atormentava depois da morte de James Baldwin”, escreveu Toni Morrison, a primeira negra a ganhar o Nobel de Literatura, em 2015. “Claramente é Ta-Nehisi Coates.”

Ela comentava o lançamento de “Entre o Mundo e Eu”, livro brutal que o autor escreveu em forma de carta dirigida ao filho, para explicar como era crescer como um homem negro nos Estados Unidos. “Sua linguagem, assim como a jornada de Coates, é visceral, eloquente e lindamente redentora”, continuou Morrison.

Nas últimas semanas, a obra voltou a ganhar espaço na lista dos mais vendidos do New York Times, num impulso que também elevou vários outros trabalhos de autores negros depois da nova ebulição do Black Lives Matter.

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O escritor americano Ta-Nehisi Coates - Gabriella Demczuk - 16.jul.2015/The New York Times

Coates afirma, por telefone, que percebeu mesmo que o movimento gerou “um interesse tremendo no que as pessoas consideram, entre aspas, obras antirracistas”. “Preciso ser honesto com você, fico só feliz de as pessoas estarem lendo mais autores negros. Que estejam comprando de mais livrarias de negros.”

O repórter pergunta se ele acha que essa tendência, de caráter mais cultural, pode provocar avanços sociais mais profundos —ou se isso é esperar demais. A resposta é entusiasmada. “Acho, acho que sim. Faz diferença quais histórias você conta, faz diferença como você vê a sua história. Nós queremos contar uma história radicalmente diferente dos Estados Unidos.”

Mesmo que não seja abertamente política, a ficção feita por afro-americanos, ele diz, tem poder de corrigir deformações históricas, “a mais perigosa delas sendo a de que pessoas negras não são humanas”.

Ele próprio está lançando agora seu primeiro romance, “A Dança da Água”, que chega ao Brasil pela Intrínseca —o livro foi distribuído este mês aos assinantes do clube de leitura Intrínsecos e vai ganhar as lojas mais amplamente em setembro.

Coerente com a obra de não ficção e o jornalismo que consagraram o escritor de 44 anos, o romance avança seu estudo sobre a formação da negritude americana ao entrar nos pensamentos de Hiram Walker, um homem que se liberta da escravidão no decadente estado sulista da Virginia, .

Isso ocorre não pela força de salvadores da pátria ou de revelações, mas por um longo e acidentado processo de desconstrução da lógica perversa do sistema escravista.

“Não é só que você foi capturado pela escravidão, mas por uma espécie de fraude que pinta seus executores como guardiões do portal que barra a selvageria africana, quando eles mesmos é que são selvagens”, diz o protagonista de “A Dança na Água”, também narrador.

Quando se chega à compreensão de quem é o verdadeiro bárbaro, conta o jovem Hiram, “fugir não é uma ideia, nem mesmo um sonho, mas uma necessidade, como a de fugir de uma casa em chamas”.

“Os Estados Unidos contam uma história sobre si mesmos com uma série de pais fundadores, pessoas que movem a história, e eu sempre fui mais compelido pelas histórias de baixo”, diz o autor. “Há tantas histórias tão ricas no épico da escravidão, quando visto pelas pessoas escravizadas.”

Hiram Walker é um adolescente cativo que se destaca pela inteligência e pela memória avassaladora. Um ponto que o livro enfatiza, aliás, é como as pessoas escravizadas sempre conheceram mais sobre a vida do que aqueles que supostamente os dominavam, cuja ambição sempre foi a preguiça.

“É a natureza da opressão e de ser oprimido”, argumenta Coates. “Quem é oprimido precisa saber mais, suas vidas dependem disso. É o paradoxo do poder. As mulheres conhecem o mundo dos homens de um jeito que homens nunca precisam aprender sobre o mundo das mulheres. O escravizador não precisa viver no mundo do escravizado. E o escravizado, por estar muito mais perto do perigo e da morte, precisa saber certas verdades sobre o mundo.”

Não demora para que Hiram se envolva com a Clandestinidade, organização que resgata homens e mulheres do cativeiro por meio da “underground railroad” --um esquema que realmente existiu, já romanceado por Colson Whitehead no livro que lhe rendeu um prêmio Pulitzer, de rotas e lugares seguros usados para a fuga de pessoas escravizadas.

Os caminhos de Hiram, contudo, são facilitados por um poder sobrenatural chamado Condução —e a referência não é por acaso, já que “railroad” significa estrada de ferro. Ao recorrer a lembranças antigas de sua família, ele consegue se transportar num instante por distâncias que levaria eras para percorrer.

Coates afirma que esse lado fantástico do livro foi menos uma escolha que algo natural ao escrever sobre esse período histórico. “Não sinto que foi algo que eu coloquei, sinto que já estava lá. O místico está muito presente nas histórias dos escravizados, as orais e escritas. Para as pessoas daquele tempo, Harriet Tubman era uma figura mística, eles a chamavam de Moisés.”

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A abolicionista Harriet Tubman em imagem da Biblioteca do Congresso dos EUA, feita ao redor de 1860 - Reuters

Tubman, abolicionista ex-escravizada a quem se atribui o resgate de centenas de pessoas, está presente ela mesma em “A Dança da Água”. Também ali é conhecida pelo apelido bíblico da figura que abriu o mar Vermelho e permitiu a travessia de uma multidão.

A Condução é uma técnica firmemente fundada na capacidade de lembrar, e uma das cenas mais poderosas do livro traz Harriet revelando aos gritos passagens tenebrosas de sua biografia, para conseguir liberar a passagem de um grupo de escravizados.

Essa ligação entre memória e emancipação, segundo o autor, buscava comentar “como é difícil lembrar de certas coisas profundamente dolorosas e como fazer isso pode ser libertador. Isso é verdade para indivíduos, mas também para países e sociedades.”

E seu conceito de liberdade é mais nuançado do que se pode imaginar à primeira vista. Numa passagem inspirada, um personagem que escapa da escravidão comenta: “Tive que aprender que no fim, estamos todos presos de algum jeito. Só que aqui dá para escolher por quem e por quê.”

“Há uma ideia americana muito tradicional de liberdade, que diz ‘eu posso fazer a porcaria que quiser’”, comenta Coates. “E tem uma ideia diferente, segundo a qual eu estou comprometido com uma comunidade e uma causa maior, e liberdade não é a minha habilidade individual de fazer o que eu quero, mas de escolher com quem estou conectado.”

“Você vê isso agora, aliás”, ele lembra. “Há essa ideia de que liberdade é o meu direito de não usar máscara. E tem aqueles de nós, muitos dos quais negros ou latinos, que sentem que a melhor expressão da liberdade é cuidar do meu vizinho, da minha mãe, do meu pai. É aí que está a minha liberdade. Em assegurar que você é livre também.”

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