Descrição de chapéu

Alanis Morissette supera fracassos em disco cheio de sua velha angústia

'Such Pretty Forks in the Road', nono álbum da cantora canadense, é seu primeiro lançamento em oito anos

Such Pretty Forks in the Road

  • Onde Nas plataformas digitais
  • Autor Alanis Morissette
  • Gravadora Thirty Tigers

Alanis Morissette participou na semana passada do popular programa de Jimmy Fallon, na televisão americana. Com a filha de quatro anos no colo, ela cantou “Ablaze”, uma das faixas de seu novo álbum. Dedicou a canção à menina — que em determinado momento tapou a boca de Morissette com a sua mãozinha.

Foi um momento terno para promover seu novo álbum, “Such Pretty Forks in the Road”, ou encruzilhadas lindas no caminho, que acaba de sair. É o nono disco da cantora canadense de 46 anos. É também o seu primeiro lançamento em oito anos.

A cantora canadense Alanis Morissette em retrato que estampa a capa de seu novo disco, ‘Such Pretty Forks in the Road’
A cantora canadense Alanis Morissette em retrato que estampa a capa de seu novo disco, ‘Such Pretty Forks in the Road’ - Reprodução

Não é o melhor álbum de Morissette. Difícil mesmo que fosse. As canções de seu disco “Jagged Little Pill”, que ela lançou em 1995, aos 21 anos, seguem sendo suas mais pedidas. É o caso da faixa “You Oughta Know”, em que ela desce o sarrafo no seu ex. Estão ali também “Hand in My Pocket”, “Head Over Feet”, e “Ironic”. A cantora ainda vive da fama daquele álbum, que vendeu 33 milhões de cópias e ganhou há pouco um musical e uma edição celebrando seu quarto de século de estrada.

Dito isso, “Such Pretty Forks” é um bom disco. Surpreendentemente bom, inclusive, em comparação com tudo o que ela gravou nos últimos 20 anos. Os álbuns “So-Called Chaos”, de 2004, “Flavors of Entanglement”, de 2008, e “Havoc and Bright Lights”, de 2012, foram todos mornos, do tipo de que não lembramos nenhuma faixa.

O novo trabalho, no entanto, deve deixar boas recordações. A canção “Ablaze”, por exemplo, é uma simpática mensagem para os filhos de Morissette. “Esse ninho nunca vai sair daqui”, a cantora diz —na recente performance do talk show, a menina pergunta por que ela disse ninho. “Minha missão é manter a luz de seus olhos acesa”, a canadense repete no refrão olhando para a garotinha, que se chama Onyx.

Já “Reasons I Drink”, a melhor do álbum, até se parece com as músicas antigonas de Morissette, cheias de ansiedade, afogadas pela sensação de ser diferente de todo o resto do mundo. A cantora explica, verso por verso, as razões pelas quais bebeu e comeu demais. Diz que foi para aliviar a tortura pela qual passa todos os dias da vida.

O disco é tão pessoal, uma ferida tão exposta, que fica difícil entender que belas encruzilhadas são essas que ela menciona no nome do álbum. Em “Losing the Plot”, Morissette fala de insônia. Em “Diagnosis”, de depressão pós-parto. O álbum tem até uma suposta alfinetada no ator canadense Ryan Reynolds, segundo os sites de celebridades — eles namoraram em um passado distante e, na faixa “Pedestal”, ela critica um certo ex que a usou para subir na carreira antes de ser tão famoso.

A voz de Morissette segue inconfundível em “Such Pretty Forks in the Road”, daquelas que você reconheceria se tocasse no rádio baixinho, enquanto dirige. Os arranjos de piano fazem você bater o pé e antecipar os refrões. Mas fica faltando alguma coisa para ser uma obra-prima, como seu “Jagged Little Pill” foi. Pode até ser que faltem os solos de gaita de que ela tanto gostava quando era mais jovem. Talvez faltem canções mais narrativas, contando histórias, como “I Was Hoping” ou “Ironic”.

É injusto, sim, comparar os dois álbuns. Mas acaba sendo inevitável. Para os fãs de Morissette, fica essa sensação de que nada vai repetir a magia de 1995. De que não existe nada que machuque como machucavam as músicas ouvidas na adolescência.

Só entende quem estava lá, 25 anos atrás, trancado no quarto, escutando Morissette no discman e vociferando a letra de “You Oughta Know” para superar uma fossa brava —“e toda vez em que você falar o nome dela/ ela sabe como você me disse/ que você me abraçaria até morrer? até morrer/ mas você está vivo”.

Entende também quem se apaixonou por outro fã, na imensa comunidade de admiradores no Brasil, e enfrentou de tudo para comprar um ingresso para o show da cantora —inclusive uma enchente em São Paulo, caminhando com água até o joelho. Coisas que poucas pessoas vão fazer para ouvir “Such Pretty Forks”, alguém imaginaria.

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