Plácido Domingo nega denúncias de assédio sexual que pesam contra ele

'Nunca abusei de de ninguém', diz tenor espanhol, que criticou repercussão midiática dos casos

Roma | AFP

O tenor espanhol Plácido Domingo, que foi contaminado com o novo coronavírus e já está curado, afirmou que nunca abusou de ninguém, apesar de ter sido acusado de assédio nos Estados Unidos no ano passado.

"Eu mudei, não tenho mais medo. Quando descobri que tinha o coronavírus, prometi a mim mesmo que se saísse vivo lutaria para limpar meu nome", disse ele em entrevista publicada pelo jornal italiano La Repubblica, nesta quinta-feira (5) .

"Eu nunca abusei de ninguém, vou repetir [isso] enquanto viver", frisou ele. "Recuperar minha voz foi um milagre. Há dois ou três meses, eu não tinha certeza se poderia cantar novamente."

"A única coisa que me preocupa agora é deixar meu refúgio em Acapulco, de onde não saio há meses. Nunca passei tanto tempo em casa com minha mulher, meu filho, minha nora e meus dois netos."

"Agora é a hora de voltar ao normal", afirmou Domingo. O músico disse ainda que ainda é difícil para ele enfrentar tais acusações na mídia.

"Desestabilizaram minha família e a mim e me causaram mais danos do que o coronavírus. Resta apenas observar que não poderei cantar em certas partes do mundo, como Estados Unidos ou Espanha, que é meu próprio país. E não exatamente por causa de uma escolha do público, que constantemente me envia mensagens de solidariedade. Mas o que posso fazer? É a vida."

No ano passado, Plácido Domingo foi acusado pela imprensa americana de assediar sexualmente cerca de 20 mulheres nos Estados Unidos. As acusações o obrigaram a abandonar seu cargo de diretor da Ópera de Los Angeles e a cancelar todas as suas apresentações no país. Na prática, isso encerrou sua carreira na América do Norte.

Acostumado a ser ovacionado no mundo inteiro, Placido Domingo é um dos acusados do movimento MeToo, que começou com as denúncias contra o produtor de cinema Harvey Weinstein em outubro de 2017.

Inicialmente, ele rejeitou essas acusações e, depois, acabou pedindo "perdão pelo sofrimento causado" após uma investigação do principal sindicato de cantores líricos dos Estados Unidos. A instituição concluiu que ele teve um "comportamento inadequado".

Domingo então recuou, pedindo desculpas, e fez uma doação de US$ 500 mil para obras de caridade do sindicato, que encerrou as acusações contra ele.

O tenor fará em breve sua primeira aparição pública desde o caso em Salzburgo, na Áustria, onde receberá um prêmio por sua carreira. Depois disso, fará uma série de recitais na Itália na segunda quinzena de agosto.

"Quando olho para trás, não vejo nenhuma situação em que meu comportamento possa ter deixado feridas abertas. Nunca pressionei ou fiz chantagem. Todos que me conhecem sabem que a palavra 'abuso' não faz parte do meu vocabulário", insistiu, denunciando um "julgamento midiático fora de controle" contra ele.

Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual se manteve em silêncio diante das alegações, o tenor disse que foi "por respeito e espírito de cooperação com as duas investigações em andamento".

"Tentei dissipar o mal-entendido com uma declaração dois dias depois, mas minhas palavras caíram no vazio", ele se queixou.

"Sempre declarei que não tenho nada a ver com tudo isso, às vezes com breves declarações que foram mal-interpretadas e consideradas confissões de culpa. É uma situação terrível", acrescentou, afirmando que está com raiva e deprimido.

Agora, seu objetivo é viver "com serenidade", ainda mais no contexto da pandemia de coronavírus. "Sei que chegará um momento em que terei que renunciar ao canto, porque a ópera exige esforços, dedicação, estudo. Mas não vou abandonar a música", concluiu.

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