Casa de Rui Barbosa faz anti-intelectualismo, diz ex-pesquisadora da instituição

Flora Süssekind critica gestão do governo Bolsonaro ao deixar a instituição cultural após 39 anos

São Paulo

A crítica literária e pesquisadora Flora Süssekind decidiu se aposentar e deixar a Fundação Casa de Rui Barbosa, após 39 anos de atuação na instituição federal. A saída de Süssekind foi publicada no Diário Oficial da União desta sexta-feira (31), em meio a polêmicas envolvendo crises no órgão.

"Trabalhar ali sempre foi a maior alegria. A questão é que estamos vivendo o luto de assistir a um desmonte", disse Süssekind à Folha, explicando os motivos de sua decisão. "E o luto não é propriamente por nós, que tivemos a oportunidade de trabalhar lá em outras gestões, mas sim pela contribuição e pelo potencial de intervenção crítica que a Casa poderia continuar a exercer na esfera pública."

Após a nomeação de Letícia Dornelles para o cargo de presidente da Fundação, em outubro do ano passado, o órgão enfrenta uma crescente crise interna.

Indicada pelo governo Bolsonaro, Dornelles exonerou cinco funcionários dos cargos de chefe de pesquisa, no início de janeiro, e os nomeou como pesquisadores comuns. Além de Süssekind, os exonerados desta chefia foram a jornalista Joelle Rouchou, o professor Charles Gomes e os sociólogos José Almino de Alencar e Antonio Herculano Lopes.

A instituição, que é um centro cultural de estudos fundado há 90 anos e arquiva documentos de alguns dos maiores escritores brasileiros, está agora sob uma gestão que promove o anti-intelectualismo, segundo a ex-pesquisadora da instituição.

"Desde que houve a nomeação de alguém sem experiência em gestão pública ou qualificação em pesquisa para a presidência da Casa, o destino institucional ficou claramente em risco", afirmou Süssekind. "Acrescendo-se a isso a militância digital explícita —como em canais de Allan dos Santos— e o compadrio da base ideológica de apoio do governo atual. Não há como duvidar do significado dessa nomeação para uma instituição de pesquisa, sobretudo para a independência crítica que tem pautado estudos, seminários e projetos sediados na Casa."

"Se a sra. Flora solicitou aposentadoria, o que eu posso fazer? Assinar a autorização. Sou obrigada por lei", disse Letícia Dornelles à Folha. "Todos os demais pesquisadores seguem na Casa, fazendo seus trabalhos normalmente apresentando seus projetos."

A presidente da Fundação também comentou as exonerações de janeiro argumentando que a alteração da equipe foi uma medida saudável.

"A sra. Flora, segundo dados abertos do Transparência Brasil, recebeu em maio quase R$ 27 mil", afirmou Dornelles. "[Ela] vai ter uma aposentadoria melhor do que milhões de brasileiros." O valor comentado pela presidente, no entanto, é a soma do salário bruto (R$ 15 mil), férias e décimo terceiro da então funcionária.

Uma proposta de extinguir a Fundação Casa de Rui Barbosa e transformá-la num museu vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) foi revelada em maio deste ano. Dois meses depois, no entanto, uma nota publicada no site do Ibram falou em arquivamento da proposta, sob o argumento de que os trâmites burocráticos desta medida provisória "impedem a celeridade" da decisão. Contudo, a data do arquivamento ainda não foi divulgada.

Crítica literária, professora e escritora Flora Sussekind posa no jardim da Fundação Casa Rui de Barbosa, no Rio de Janeiro, em 31.jan.1990.
Crítica literária, professora e escritora Flora Sussekind posa no jardim da Fundação Casa Rui de Barbosa, no Rio de Janeiro, em 31.jan.1990. - Luciana Whitaker/Folhapress

Süssekind criticou também a nota técnica nº 1.556/2020, da Controladoria-Geral da União (CGU), decretata no início de julho, que permite processos de apuração disciplinar a servidores públicos que emitam opinião "acerca de conflitos ou assuntos internos, ou de manifestações críticas ao órgão ao qual pertença, em veículos de comunicação virtuais". Para ela, a nota é um cerceamento a esses profissionais.

A CGU, no entanto, nega qualquer tipo de censura. "É importante observar que o posicionamento contido na nota é semelhante ao que vigora na própria iniciativa privada, com amparo em julgados do Tribunal Superior do Trabalho. A título de exemplo, nada impede que um empregado de algum veículo de comunicação possa externar posicionamento divergente do seu empregador de maneira respeitosa e decorosa. Críticas agressivas, contudo, obviamente, podem vir a ser objeto de questionamentos", diz um comunicado da CGU, publicado em 30 de julho.

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