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Cinema

Roteiro de Tom Hanks em 'Greyhound: Na Mira do Inimigo' é frustrante

Filme adaptado pelo ator traz ação em alto mar, personagens superficiais e diversão leve

Greyhound: Na Mira do Inimigo

  • Onde Apple TV+
  • Elenco Tom Hanks e Stephen Graham
  • Produção EUA, 2020
  • Direção Aaron Schneider
  • Duração 1h31min

Como ensina o adágio, não há pizza ruim, apenas ordinária ou malfeita. Uma série de vetores pode ser usada com propriedade na mesma frase, inclusive “filme de guerra com Tom Hanks”.

O ator ajudou a redefinir o gênero em Hollywood desde que capitaneou grandes projetos, como o filme “O Resgate do Soldado Ryan” (Steven Spielberg, 1998) e as minisséries “Band of Brothers” (2001) e “The Pacific” (2010).

Houve ônus e bônus nisso. As produções tinham em comum a absorção de uma visão idílica do combatente americano, o “soldado cidadão” cunhado pelo historiador Stephen Ambrose (1936-2002).
Além de ser questionável como realidade, o princípio edulcorava de forma desnecessária os trabalhos, de resto impecáveis na técnica e na reconstituição de época.

Assim, é com um misto de alívio e decepção que se assiste a “Greyhound: Na Mira do Inimigo”, filme que estreou diretamente no streaming da Apple TV+.

A forma de lançamento desagradou inicialmente Hanks, que depois, à luz da pandemia e da interdição do mercado de cinemas, mudou de ideia. Não se perde muito, pois o filme tem um aspecto de produção para TV, com efeitos especiais bastante duvidosos.

“Greyhound” traz a história do primeiro comando de Ernest Krause (Hanks), o navio que leva o código epônimo, na missão de liderar quatro embarcações de guerra escoltando 37 mercantes dos Estados Unidos ao Reino Unido.

A ação se passa em 1942, durante a Batalha do Atlântico, quando submarinos alemães atacavam impiedosamente tais comboios, visando asfixiar a economia britânica.

O nó da travessia são os cinco dias passados no “poço negro”, a região em que não havia cobertura aérea possível, tornando-os presas mais fáceis aos “U-Boote” da Alemanha.

O embate no Atlântico Norte já rendeu no passado uma obra-prima, “O Barco” (Wolfgang Petersen, 1981), vista sob o ponto de vista dos nazistas.

A nota positiva é que desta vez, com o diretor Aaron Schneider, Hanks evita politizar a ação com o bom-mocismo típico de seus personagens.

Krause é, claro, um herói, mas do tipo bastante reticente. A disciplina naval impera, mas seus homens traem a pouca confiança no capitão com olhares indisfarçáveis.

Estreante no comando, Krause é inseguro e comete erros. É muito religioso e compassivo, repreendendo tacitamente um subordinado que celebra a destruição de um submarino lembrando que nele havia “50 almas”.

Esses vislumbres, assim como o racismo estrutural a bordo na figura dos dois únicos negros presentes, cozinheiros, dariam matéria-prima para uma obra menos descartável.

A cena em que Krause chama um pelo nome do outro é uma pequena pérola sutil no roteiro, que o próprio Hanks escreveu ao adaptar um romance de 1955.

A opção de Schneider é outra, a de jogar o espectador diretamente no combate. Nenhuma profundidade é vista nos personagens, e Hanks parece cumprir tabela com a eficiência usual, mas nada mais.

Uma rápida cena com Elizabeth Shue no papel do interesse romântico do militar insinua a densidade que poderia ter sido alcançada.

Não seria grande problema se a ação fosse de primeira linha. Mas ela não é, a começar pelo aspecto de videogame que predomina nas batalhas.

A guerra no mar é notoriamente difícil de acompanhar, daí o subgênero “filme de submarino” ser bem mais rico do que o de “filme de navio”: o ambiente claustrofóbico privilegia interpretações.

Uma exceção à regra é “Mestre dos Mares” (Peter Weir, 2003), talvez o melhor filme embarcado já realizado.

Apesar do rigor histórico, há liberdades: as ameaças feitas por rádio a partir dos submarinos não ocorriam na guerra.

A enxuta hora e meia de filme serve como diversão leve, mas, como a proverbial pizza, esquecível assim que acaba.

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