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Cinema

Documentário sobre Garoto é envolvente e rico em história da MPB

Vida de violonista é revista em longa impecável que ajuda a entender a evolução da música brasileira do século 20

São Paulo

Garoto - Vivo Sonhando

  • Quando Qui. (10), às 12h, até 20/9
  • Onde in-edit-brasil.com
  • Preço R$ 3
  • Direção Rafael Veríssimo

Além de ser um clichê em textos críticos, dizer que tal filme é “obrigatório” quase sempre é algo um tanto pretensioso. Mas o adjetivo parece indissociável de “Garoto – Vivo Sonhando”, um documentário que ajuda demais a entender a evolução da música brasileira no século 20.

Assim, sua exibição na versão 2020 do In-Edit, festival de documentários musicais brasileiros e estrangeiros, é, sim, uma atração obrigatória. A curta trajetória de 39 anos do paulistano Aníbal Augusto Sardinha foi tão intensa que justifica plenamente o entusiasmo dos idealizadores do documentário, Rafael Veríssimo (diretor), Lucas Nobile e Henrique Gomide. E os depoimentos elencados derramam elogios a Garoto.

Entre esses fãs, Paulinho da Viola (“Garoto foi o melhor de todos”), Luiz Gonzaga, Carlinhos Lyra, Roberto Menescal (“Somos filhos dele!”), Tom Jobim, João Gilberto, João Donato, Raul de Souza, Yamandu Costa, Vinicius de Moraes e outras estrelas unidas na defesa de Garoto como o maior violonista do país em todos os tempos.

O documentário acerta a mão em vários momentos. Como oferecer trechos fartos de gravações do músico, com bastante coisa extraída de transmissões de rádio nos anos 1930 e 1940. Morto em 1955, vítima de infarto fulminante, Garoto foi se afastando cada vez mais das gerações seguintes. Para muita gente, é um nome mais comentado em enciclopédias do que efetivamente ouvido em discos.

Outro ponto forte é o requinte visual. O registro histórico com fotos de arquivo é imenso, e a direção opta por criar imagens simpáticas e nostálgicas para acompanhar as músicas, usando como elementos cenográficos rádios antigos, gramofones e instrumentos de cordas de vários tipos. E exibe os minuciosos diários preenchidos por Garoto em cadernetas durante toda a vida.

Garoto tocava qualquer coisa com cordas para dedilhar. Bandolim, cavaquinho, viola, banjo, violões de vários tipos, violino. Entre as décadas de 1940 e 1950, Garoto valorizou o violão, antes um instrumento “menor”, num reposicionamento que foi fundamental para o posterior desenvolvimento da bossa nova. E a influência do Garoto nesse movimento é talvez o lado mais impactante do documentário.

Uma coisa é você ler críticos afirmando que Garoto foi importante na formatação da bossa nova. Mas ouvir isso em declarações de Menescal, Lyra e Jobim ganha outra dimensão. De maneira informal, a narrativa pode ser dividida em três partes, por décadas. Nos anos 1930, a ascensão do artista, logo reconhecido pelo virtuosismo. Ele vai para os Estados Unidos, levado por Carmen Miranda, e faz apresentações arrebatadoras. Só não aceita ficar por lá porque, ao que parece, não queria ser figurante da estrela. A única imagem colorida de Garoto no filme é justamente tocando ao lado de Carmen.

De volta ao Brasil, ele se consagra nos anos 1940, como destaque na Rádio Nacional. Instrumentista exímio, é também um compositor inovador. Garoto tocou com todo mundo relevante na música da época. É dele o cavaquinho em “Vira e Mexe”, primeira gravação (e primeiro grande sucesso) de Luiz Gonzaga.

Depois, nos anos 1950, o documentário mescla os anos finais da atuação de Garoto com a revolução musical da bossa nova. E Carlos Lyra aparece para narrar seu encontro com o mestre, um momento carinhoso e emocionante no filme.

“Garoto – Vivo Sonhando” é envolvente, impecável. Rico em história da MPB e em casos divertidos. Como, por exemplo, explicar seu nome artístico. Menino prodígio, Aníbal foi se apresentar na rádio. Então, ao vivo, o locutor esqueceu seu nome. Diante daquele violonista de oito anos, o radialista mandou ver: “Vamos ouvir o garoto!”. E o apelido pegou.

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