Temporada online de dança em SP desperta saudades até mesmo de sofrer por amor

Ensaio de dançarinos tem uso de máscara, distanciamento e reinvenção de coreografias

Quatro mulheres dançam balé no palco

Espetáculo “Só Tinha de Ser com Você”, de Henrique Rodovalho para a SPCD (São Paulo Companhia de Dança) Wilian Aguiar

Iara Biderman
São Paulo

Dançarinos mascarados aquecem os músculos, dão piruetas ou dançam em grupo mantendo uns dois metros de distância entre um e outro. O baile de máscaras parece uma performance sobre a pandemia, mas é o ensaio dos bailarinos da São Paulo Companhia de Dança, a SPCD. Depois de quase quatro meses trancados em casa, eles voltam à sede do grupo no Bom Retiro, bairro do centro paulistano, para finalizar as coreografias da temporada deste ano.

Marcada desde o final do ano passado, com cerca de 600 assinaturas compradas, a temporada vai ser, como sempre, no Teatro Sérgio Cardoso. Pela primeira vez, sem plateia.

No Plano São Paulo, de reabertura das atividades, os teatros continuam fechados ao público, e os espetáculos serão transmitidos ao vivo, por streaming. Serão três programas, um por semana. As transmissões serão sempre às quintas, a partir do dia 10 de setembro.

A possibilidade de ressarcimento da assinatura foi oferecida aos assinantes. Segundo Inês Bogéa, diretora da SPCD, só três pediram o dinheiro de volta.

Estreias foram mantidas, mas algumas obras pensadas anteriormente tiveram de ser substituídas. “O Lago dos Cisnes”, que abriria a temporada em junho, deve ficar para depois da esperada vacina da Covid-19. Com cerca de 30 bailarinos em cena, não dá para evitar aglomerações no balé musicado por Tchaikovsky.

Mas o compositor russo vai estar presente numa estreia na primeira noite. “Rococó Variations”, de Stephen Shropshire, foi criado a partir de “Variations on a Rococco Theme”, de Tchaikovsky.

Shropshire, que mora na Holanda e é o coreógrafo residente da SPCD pelos próximos três anos, viria ao Brasil para criar a obra. Por causa da pandemia e dos aeroportos fechados, mudou os planos e a coreografia foi montada em reuniões no Zoom.

Em sua primeira experiência de criação a distância, Shropshire repensou o conceito inicial da obra. “Antes da pandemia, concebi a coreografia como uma conversa entre a dança contemporânea e o balé clássico. Mas, com tudo o que aconteceu, pensei ‘por que perder tempo com tanta racionalização em vez de simplesmente dançar, ter prazer?’”, diz o coreógrafo.

Ele imagina a obra como uma expressão de alegria e entusiasmo. “Podemos dançar, e isso já é maravilhoso.”

As adaptações foram além do papel de emoção e razão na criação. Ao montar o espetáculo com os bailarinos em encontros online, Shropshire diz ter conseguido ser mais objetivo, específico e rápido.

Os perrengues são aqueles de todos trabalhos a distância. A conexão cai e há delay no som —dificuldade extra quando o ofício é dançar. “A coreografia é toda construída em cima das variações do balé e da música, os movimentos totalmente integrados à estrutura musical”, diz ele.

Em compensação, ele diz ter criado com os bailarinos liberdade para experiências, novas interpretações e trocas de afeto. “São essas coisas que nos levam ao teatro. Fiquei muito feliz com a experiência, mas vou ficar mais ainda quando puder voltar ao espaço físico de trabalho.”

Bailarinos da companhia também estavam ansiosos para voltar à sede, encontrar os colegas e a equipe. As aulas e ensaios foram retomadas no fim de julho.

Renata Peraso estava na França em abril, durante a temporada europeia da companhia, quando soube que os espetáculos tinham sido cancelados e era preciso voltar para casa —e não sair dela por um bom tempo.

No isolamento, além de seguir as aulas e reuniões online, Renata trabalhou no ensaio e criação de obras, algumas com seu “parceiro de quarentena”, Vinícius Vieira. Os dois vão apresentar o “Grand Pas de Deux de Giselle” na abertura da temporada.

Segundo Yoshi Suzuki, a quarentena mostrou a importância da dança em sua vida. “A solidão me deixou mal, tive início de depressão, perdi cabelos, emagreci demais”, conta.

O bailarino deu uma pirueta no baixo astral se engajando em projetos, tanto os pessoais quanto os realizados a distância com a equipe da companhia. Nesta temporada, Suzuki participa do elenco de duas estreias, “Rococó Variations” e “Só Tinha de Ser com Você”, de Henrique Rodovalho para a SPCD.

Quando começou o "dance-home-office", a diretora da companhia conversou com bailarinos e equipe para viabilizar a continuidade do trabalho em casa. Foram então iniciados projetos de criações ou remontagens feitos pelos próprios intérpretes durante o isolamento. Algumas dessas obras, solos e duos, estreiam nesta temporada online.

“São tempos desafiadores, estamos 'nos reinventado' dentro das possibilidades artísticas”, diz Bogéa.

Mas há também continuidade. Segundo a diretora da companhia, o tema escolhido no final do ano passado para nortear o trabalho agora é quase premonitório –permanência e inovação.

Reatualização do trabalho em meio à pandemia é um dos resultados que Henrique Rodovalho percebe na montagem de “Só Tinha de Ser com Você”. Também coreógrafo residente na SPCD, Rodovalho já iria recriar a obra, feita para sua companhia, a Quasar, em 2005.

Pós-coronavírus, repensou a recriação. Trechos com muito contato físico foram retirados e outros entraram. O melhor, diz Rodovalho, foi ter visto a própria obra de uma forma diferente. Ele se sentiu quase um espectador das danças sobre amor, solidão e encontros inspiradas no álbum “Elis & Tom”, de 1974.

“São bem interessantes para pensarmos como ficam os relacionamentos no isolamento”, diz ele. Com uma trilha que faz parte da memória afetiva de grande parte do público, a coreografia vai lembrar as dores e delícias do encontro físico, mesmo mantendo as distâncias protocolares, e deve despertar saudades de namorar e até sofrer por amor.

Diferentes estados da montanha-russa emocional dos apaixonados estão representados, da sofrência de “Triste”, canção que abre o espetáculo, ao alto-astral de “Roseira”, na coreografia com o maior elenco da temporada –12 bailarinos.

“Rococó Variations”, a estreia da primeira semana, terá oito em cena. E “Aparições”, de Ana Catarina Vieira, é a obra em conjunto da terceira semana, com dez bailarinos. A primeira versão do espetáculo foi apresentada no Theatro São Pedro, pouco antes das medidas de isolamento serem decretadas em São Paulo, no início de março.

TEMPORADA 2020 SPCD

  • Quando Transmissão ao vivo nos dias 10, 17 e 24 de setembro, às 20h
  • Onde ver Nas redes sociais da São Paulo Companhia de Dança e na plataforma online Cultura Em Casa
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