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Louise Glück conta segredos e mentiras no fio tenso do poema

Laureada com o Nobel, americana exibe alta precisão e tom austero, com versos que avançam sem recorrer muito às rimas

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Louise Glück Nobel Literatura

A poeta americana Louise Glück Katherine Wolkoff/Divulgação

Laura Erber

Escritora e professora visitante da Universidade de Copenhague

Quem tentou adivinhar o resultado do Nobel de Literatura deste ano dificilmente apostou que o prêmio seria dado à poeta americana Louise Glück, que disputava com nomes fortes como o japonês Haruki Murakami e a canadense Margaret Atwood.

Glück é a 16ª mulher escolhida desde que o prêmio começou a ser entregue, em 1901, e a primeira poeta do seu gênero a receber o Nobel desde que a polonesa Wislawa Szymborska foi premiada em 1996.

Os leitores brasileiros ou não conhecem ou conhecem muito pouco a poesia de Glück, figura dominante na cena americana há anos, tendo recebido o National Book Award por "Faithful and Virtuous Night", seu último livro.

Glück é poeta e ensaísta, nasceu em Nova York, escreve numa língua hegemônica, é estudada nas universidades americanas e já foi muito premiada bem antes do Nobel.

Nenhum dos seus livros foi publicado em português, seja em Portugal ou no Brasil. Esse desconhecimento diz mais sobre as restrições impostas pelo nosso meio editorial à atualização do repertório de poesia estrangeira do que sobre a autora e sua trajetória.

Em Portugal, "O Poder de Circe", poema que alude ao episódio da Odisseia em que Ulisses e seus tripulantes são transformados em porcos, foi incluído na antologia "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro" da editora Assírio e Alvim. No Brasil, sua obra circula sobretudo entre poetas, por meio de vários blogs e sites.

Lembrada com frequência como poeta lírica, de alta precisão e tom austero, seus versos avançam sem recorrer muito às rimas, mas extraindo da repetição e das quebras de verso um ritmo singular de exposição e pensamento.

Cada um dos seus livros constitui também, segundo ela própria, uma negação do anterior. Tudo começou em 1968 com "Firstborn", aos 25 anos. De lá para cá são 14 volumes de poesia, quase todos publicados pela Ecco Press, incorporada à HarperCollins. Segundo Glück, hoje com 77 anos, escrever poesia é se aventurar, por isso cada livro é experimentado como algo desconhecido e novo. "Não me interessa ficar polindo um monumento", afirma, sobre o seu processo criativo.

Seus poemas investigam circuitos pessoais, mas num sentido pós-confessional, estruturados como microficções autobiográficas. Viúvas, cemitérios, feiticeiras, crianças e hospitais povoam seus livros, há fome e trauma, alusões à anorexia que determinou os rumos da vida de Glück e seu encontro com a poesia.

Há também felicidade quando um homem e uma mulher, deitados numa cama branca, são observados de pertinho em estado de contemplação mútua, entre "rodas de fogo" e calma extrema. Em seus livros, há espaço para o triunfo e a morte de Aquiles, a dor de Pátroclo e a de alguém que poderia se chamar Louise.

Sem medo de retornar aos lugares clássicos da poesia, a autora conduz os leitores até o velho jardim e "seria um erro pensar/ que por nunca sairmos do jardim/ o que sentimos era reduzido ou parcial".

Narrar histórias mínimas e cenas aparentemente triviais, porém densas de sentido, no fio tenso do poema, é uma das qualidades que tornam a obra de Glück exemplar da poesia deste século. Nesse sentido, é uma autora que poderá tranquilamente influenciar poetas bem mais jovens.

Seus poemas são lidos num sentido além da confissão, em que a poeta inventa a si mesma, elege uma constelação de imagens que traduzem fatos determinantes de uma vida, persegue verdades de um "eu" sempre posto à prova.

Há também quem prefira ler Glück pelo viés das alianças entre poesia moderna e contemporânea. Mais especificamente, talvez, entre a impessoalidade moderna e o poema rente à vida, ao trivial. A narrativização da lírica, flertando com a ficção e com a história curta, ganha o caráter de notação e comentário, fazendo do poema também uma espécie de estratégia de leitura da vida e da literatura. Mas não há as obrigações cronológicas e os pactos temporais do romance, e sim o acesso direto e imediato aos passados, e não só o individual. Glück é capaz de ir a Virgílio e Homero como se visitasse os poetas da geração imediatamente anterior à sua.

Seus manuscritos e correspondência estão sob os cuidados da Beinecke Rare Book and Manuscript Library, na Universidade Yale, onde podem ser consultados. Além da vasta produção poética, Glück publicou dois livros de ensaios sobre poesia, chamados "Proofs and Theories" e "American Originality".

Este último investiga a construção do lugar americano de onde a poesia fala para o mundo e sobre ele, observando tensões e contradições de vozes que oscilam entre o brio da invenção de si e o travo amargo da mentira.

Glück conhece os fantasmas que assombram as expectativas de sucesso no contexto da literatura dos Estados Unidos, país em que a arte é um truque e truques são muitas vezes artísticos. Talvez daí a fascinante lucidez com que constrói seus versos, afinal, como diz Circe ao se despedir de sua vítima, "toda feiticeira é/ no fundo pragmática".

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