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The New York Times Livros

Louise Glück, vencedora do Nobel de Literatura, usa versos como navalha

'Há mais Emily Dickinson em Glück do que Sylvia Plath', afirma crítico em resenha de coletânea da poeta em 2012

Dwight Garner
The New York Times

A poeta americana Louise Glück, de 77 anos, vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2020, anunciado nesta quinta (8), surpreendeu muitos daqueles que vinham fazendo apostas para o prêmio. Apesar disso, ela já venceu importantes premiações nos Estados Unidos, como o Pulitzer, o National Book Award e a Medalha Nacional de Humanidades.

Em uma resenha publicada em 2012 pelo jornal The New York Times, Dwight Garner classificou a coletânea de Glück, que cobre seus poemas desde 1962, como o evento literário mais importante daquele ano. Confira o texto a seguir.

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O livro mais brutal e mais pesaroso publicado nos Estados Unidos nos últimos 30 anos é “Ararat”, de Louise Glück, lançado em 1990, em minha opinião. É um trabalho confessional e algo selvagem, mas intelectualmente formidável. É o equivalente ao disco “Blood on the Tracks”, de Bob Dylan.

Um dramaturgo talentoso poderia extrair as observações mais sarcásticas de “Ararat” e dos dois livros que o seguiram, “The Wild Iris”, de 1992, e “Meadowlands”, de 1996, e quase construir uma peça em torno delas. E quem assistisse poderia simplesmente se reclinar e assistir à chacina.

“Você devia tomar um daqueles remédios/ talvez você escrevesse mais” é uma das alfinetadas características. Outra é “suas costas são minha parte favorita de você/ porque ficam mais longe de sua boca”. Assim como: “Eu esperava mais de duas criaturas/ a quem foram dadas mentes”.

“Poems 1962-2012”, coletânea que cobre quase toda a carreira de Glück, é um evento importante na literatura dos Estados Unidos, talvez o livro mais importante de 2012. O livro recolhe toda a produção da poeta desde a estreia, “Firstborn”, de 1968, até “A Village Life”, de 2009: poemas extraídos de 11 livros, que abarcam quatro décadas.

Somados, esses volumes compactos têm a coesão e a intensidade moral agonizante de um grande romance. Exibem uma mente sutil e acusadora interrogando não só sua própria vida mas a natureza sensual e política do mundo que gira em torno dela. Os poemas de Glück trazem com eles uma pressão barométrica perigosamente baixa.

Glück nasceu em Nova York e cresceu em Long Island. O pai dela ajudou a inventar o estilete X-Acto. Esse é um detalhe cosmicamente sublime; nenhum outro poeta apunhala com tamanha precisão ou com intenções tão letais.

A autora estudou no Sarah Lawrence College e na Universidade Columbia, mas não se formou. Nascida em 1943, ela foi a poeta laureada dos Estados Unidos entre 2003 e 2004. Conquistou a maior parte dos grandes prêmios americanos de poesia. E seu trabalho não se parece com o de qualquer outro escritor.

Quando jovem, Glück sofria de anorexia nervosa. É um tema do qual ela raramente trata de forma direta, como faz em um trecho de um poema intitulado “Dedicado à Fome”.

Começa silenciosamente
em certas meninas:
o medo da morte, tomando como forma
a dedicação à fome,
porque o corpo de uma mulher
é um túmulo; aceitará qualquer coisa.

A doença de que ela sofria quando jovem merece ser mencionada porque é representativa da espécie irritadiça de apetite que embasa seu trabalho. Os anseios de Glück são todos cautelosos; são complicados. Curvar-se ao prazer resulta em agonias consequentes. “É um trabalho árduo, esse amor”, ela afirma em um poema tardio. “Não importa o que as pessoas digam.”

Muitos de seus poemas mais poderosos falam de sua família; e isso é claramente amor compreendido como um trabalho árduo. “Somos adultas agora, passamos por análise/ compreendemos nossas expressões”, ela declama, sobre sua irmã. Glück escreve: “Em termos práticos,/ não tive pai”. E ela mesma, como seus trabalhos deixam claro, não era uma pessoa com quem viver fosse só alegria.

O poema “New World”, publicado em “Ararat”, é um retrato cintilante de seu pai como peso morto na psique de sua mãe. É um poema que também indica que um jornal pode servir como um instrumento diário de escape. Começa assim:

Da forma que eu via,
durante toda a vida de minha mãe, meu pai
impediu que ela subisse, como
chumbo amarrado aos tornozelos.
Ela era
flutuante por natureza;
queria viajar,
ir ao teatro, ir a museus.
O que ele queria
era deitar no sofá
com o Times sobre o rosto,
para que a morte, quando chegasse,
não parecesse uma mudança significativa.

É fácil —e até fácil demais, fazer com que Glück pareça "La Femme Nikita" com um laptop e uma linha direta para os editores da revista The New Yorker. Seus versos oferecem abundantes exemplos de sentenças como:

os seres humanos obtêm profunda satisfação
ao causar danos, especialmente
danos não pretendidos:
podemos dar a isso o nome
criação negativa.

Mas seria um erro concentrar atenção demais nos aspectos confessionais de seu trabalho. Eles são apenas parte daquilo que ela é como poeta. Há mais Emily Dickinson em Glück do que Sylvia Plath. Ela povoa seus versos livres rigorosos com alusões clássicas ágeis, comida, natureza, outros seres humanos, e tudo isso de forma abjetamente majestosa. Ou o oposto. “Gosto de pequenas gentilezas”, ela afirma. “Na verdade as prefiro/ a gentilezas substanciais.”

Um poema que ostensivamente trata da guerra de Troia a conduz à seguinte indagação:

e se a guerra fosse
só uma versão masculina de se vestir bem,
um jogo criado para evitar
questões espirituais profundas?

Ela se detém propositadamente em exames do poder, em todas as suas formas, como nessa destrutiva punhalada: “Perdoe-me se eu disser que te amo: os poderosos/ sempre são alvo de mentiras porque os fracos sempre/ são movidos pelo pânico”.

No mundo lúcido de Glück, viver é brigar. “Você demonstra respeito ao brigar”, ela escreve. “Desistir é um insulto ao oponente.”

À medida que seu trabalho avançava, os pensamentos de Glück passaram a se voltar com frequência cada vez maior para as indignidades da velhice. A morte de seu pai, para ela, foi quase alegre; e finalmente lhe deu algo sobre o que falar. (“Quando um homem está morrendo/ ele se torna tema”, escreve Glück. É uma linha que consigo imaginar vinda de Saul Bellow.) Agora os filhos dela estão discutindo sua herança. Ela toma remédios para pressão alta.

Aguardo com ansiedade o que ela escreverá a seguir sobre envelhecer e espero que continue a escrever por ainda muito tempo. Glück é destemida. “Por que amar aquilo que você vai perder?”, ela questiona. E responde sua própria pergunta: “Porque não há outra coisa a amar”.

Tradução de Paulo Migliacci

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