Descrição de chapéu racismo

Morte de George Floyd ecoou mais que qualquer poema, diz artista da Bienal de SP

Malinês Manthia Diawara opõe visões sobre a identidade negra em obra que planeja para a mostra

São Paulo

Não é preciso ser nenhum especialista para notar que o diálogo está em falta nestes anos de redes sociais.

Artista mais recente a ser anunciado pela 34ª Bienal de São Paulo, Manthia Diawara vai contra essa corrente na obra inédita que exibe na mostra, adiada para o ano que vem por causa da pandemia.

Realizado a convite da Bienal, o trabalho justapõe trechos de entrevistas com pensadores que cunharam os termos dos debates sobre racismo, colonialismo e identidade negra, hoje tão em voga. "Poderíamos chamar a obra provisoriamente de 'parlamento dos autores'", diz o artista de 66 anos, nascido no Mali.

Em sequência nas telas, estarão, assim, gente como o escritor queniano Ngugi Wa Thiong'o, a autora Maryse Condé, nascida na ilha de Guadalupe, o cineasta senegalês Ousmane Sembène, o artista americano David Hammons e o teórico martinicano Édouard Glissant.

Alguns deles, diz Diawara, defendem o resgate de uma identidade africana "fixa, enraizada", há muito apagada pelos colonizadores europeus. Outros pregam uma reinvenção constante da própria identidade a partir do contato com o outro.

"Todos falam sobre identidade e identificação", resume o artista. "Mas não estou tentando afirmar que uns são mais inteligentes que outros. Queria usar a diferença de forma produtiva. Ela é necessária para tornar o mundo belo."

Diawara é o 34º artista da próxima Bienal a ser revelado –os cerca de dois terços restantes da lista devem ser anunciados entre janeiro e abril.

Mesmo pouco lembrado nas rodinhas de arte contemporânea, ele é considerado um dos maiores pesquisadores de cinema negro hoje, assunto que ele ensina na Universidade de Nova York e que acompanha de perto em viagens ao continente africano.

No próximo dia 22, o cineasta e professor participa, ao vivo, do primeiro da série de encontros virtuais "As Vozes dos Artistas". As inscrições para o evento abrem nesta semana, no site da 34ª Bienal.

Por ora, os debates com os outros artistas não devem ser tão acalorados, já que os demais participantes da live, Carmela Gross, Edurne Rubio e Zina Saro-Wiwa, farão aparições gravadas.

Mas Diawara se diz ansioso para ver como os seus trabalhos dialogarão com as outras obras da mostra física.

Em especial com aqueles de nomes que, como ele, põem a identidade negra no coração de suas práticas, caso da fotógrafa americana Deanna Lawson, da nigeriana-norueguesa Frida Orupabo e do músico sul-africano Neo Muyanga, entre outros.

"Esses jovens estão ligados à diáspora africana. São africanos morando no exterior ou têm ascendência africana. E a questão da identidade é central para eles", diz Diawara.

Homem negro vestido com boina e camisa florida
O documentarista e pesquisador Manthia Diawara, nascido no Mali e radicado nos Estados Unidos - Daman Diawara/Divulgação

"Acho que essa opção é importante como forma de luta. Mas acredito que a identidade é relacional. Tenho essas brigas com meus alunos sobre apropriação cultural. Eles dizem que certa ideia é negra, que foi roubada. Respondo que, se sua ideia é muito boa, ela não pertence mais a você", acrescenta o artista. "É uma diferença geracional, acho."

Seja como for, são discussões que passaram a dominar não só espaços como a Bienal como as manchetes recentes.

Ainda mais durante a pandemia, com a comoção em torno da morte do ator Chadwick Boseman, protagonista de "Pantera Negra", e os protestos contra a morte de George Floyd que tomaram as ruas dos Estados Unidos.

Mas o que explica por que só agora essas questões passaram a dominar as pautas culturais, quando os autores que Diawara junta no seu "parlamento" já as defendiam desde o século passado?

Questionado, o artista lembra que há muito a cultura jovem é dominada pelos negros, do jazz ao R&B, da moda às gírias. "Os negros sempre representaram a vanguarda da modernidade. Só não era muito sexy dar crédito a eles."

O que mudou de lá para cá foi a percepção do racismo, diz Diawara. E o que guiou essa mudança, ele acrescenta, foram as mesmas redes sociais. A ênfase que elas dão ao meio audiovisual fez com que passasse a ser impossível ignorar a existência do preconceito contra os negros.

"Rodney King, Eric Garner [vítimas de violência policial cujas agressões foram filmadas e viralizaram] fizeram a humanidade ver o racismo, e ela não gosta de ver coisas que a incomodam", afirma Diawara.

"E, com George Floyd, isso chegou à Índia, ao Japão, à América Latina. O eco daquele sofrimento, 'não consigo respirar', é um poema mais potente do que tudo o que já escrevi, ou que qualquer um tenha escrito. Porque as pessoas podiam ver e ouvir aquilo."

Mesmo assim, diz Diawara, agora "não é hora de sossegar". Ele lembra uma conversa que teve na época dos protestos deste ano, com a filósofa e ativista feminista negra Angela Davis.

Três anos atrás, quando os dois participavam de uma série de palestras na Europa, a pergunta que invariavelmente encerrava os seus debates era sobre o lema Black Lives Matter, vidas negras importam —o público vivia indagando se ele significava que vidas brancas não importavam. Ao que Davis respondia que, ao contrário, ele queria dizer que a vida de todos valia a pena.

"Quando vi nas ruas mais brancos do que negros gritando 'Black Lives Matter', liguei para a Angela e lembrei dessas conversas. E ela respondeu que, agora que isso chegou, vai em busca de uma outra ideia radical", conta o artista. "Precisamos ir em busca de áreas mais radicais. Devemos continuar a lutar."

Encontro 'As vozes dos artistas #1 – O verso Faz escuro mas eu canto'

  • Quando 22/10
  • Preço Grátis
  • Incrições A partir de quinta (15)
  • Link http://34.bienal.org.br/
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