Mostra da dupla Osgêmeos na Pinacoteca quebra o jejum da pandemia com uma festa

Exposição tira do baú desde pesquisas dos primeiros trabalhos dos irmãos até uma obra em parceria com o britânico Banksy

São Paulo

Foi na Pinacoteca, aos oito anos de idade, que os irmãos da dupla Osgêmeos tiveram o primeiro contato com uma lata de spray — e tomaram uma das primeiras broncas ao estrearem a novidade no muro do museu.

“A gente nunca tinha pegado numa lata, só tinha visto no nosso bairro os caras fazendo grafite”, lembram Gustavo e Otávio Pandolfo, de 46 anos, que cresceram no Cambuci, na zona sul de São Paulo.

Eles nunca deixaram de desenhar e, aos 18 anos, largaram o emprego num banco, anunciaram aos pais que seriam artistas.

De lá para cá, os irmãos se tornaram verdadeiras celebridades do mundinho da arte e, de certa forma, voltam para onde tudo começou com a mostra “Osgêmeos: Segredos”, que abre as portas nesta quinta-feira e tira do baú desde pesquisas dos primeiros trabalhos da dupla até uma obra em parceria com o –também megafamoso– artista de rua britânico Banksy.

Segundo Jochen Volz, à frente da exposição e diretor do museu, as obras dos irmãos fazem parte da imaginação das pessoas, mas poucos sabem da origem deles ou de onde vêm os amarelos que eles sempre representam. Ele atribui o sucesso da dupla ao fato de eles sempre terem mantido um pé na rua e outro no ateliê, o que teria facilitado o caminho para a arte convencional sem perder as raízes.

Os artistas são enfáticos ao dizer que, uma vez que suas obras estão em galerias e museus, elas deixam de ser grafites. “No museu, temos um cubo branco para transformar. Na rua, está tudo pronto, não se trata só da pintura, mas de tudo o que acontece em volta dela que faz o grafite ser tão especial para a gente.”

A mostra marca a retomada das exposições depois de sete meses de fechamento dos museus de São Paulo em meio à pandemia —inicialmente, a abertura estava prevista para março, mas foi suspensa às vésperas da inauguração.

Agora, para visitar a exposição, é preciso seguir uma série de medidas, como o agendamento prévio. Nesse sentido, o cenário é bem diferente do da última mostra deles na capital paulista, há seis anos, na galeria Fortes Vilaça, que gerou grandes filas nas portas.

O novo coronavírus também afetou a rotina deles, antes acostumados a colorir muros da cidade, como andavam fazendo até fevereiro, mês em que conversaram com esta repórter. “A gente sai por aí meio que sem rumo”, disseram na ocasião.

Em meio às recomendações de distanciamento social, os dois deixaram de grafitar na rua, mas reclamaram que a prefeitura paulistana tem apagado cada vez mais as suas obras e as de outros colegas.

“Valorizam nosso trabalho no mundo inteiro e, quando chega aqui, apagam”, lamentam os irmãos que, durante os meses da quarentena, tiveram os seus seres fantásticos estampados em exposições em Seul e Nova York, mas, devido ao cancelamento dos voos dos últimos meses, não puderam viajar até os eventos, como sempre fazem.

Eles afirmam que o apagamento de suas obras é algo que acontece desde o início da carreira. “Era comum pintar uma parede inteira cheia de história e de detalhes durante um mês e, pronta, não durava nem uma semana.”

A dupla diz que aproveitou o confinamento para estudar, escrever, realizar projetos sociais —eles afirmam ter doado mais de 100 mil máscaras a comunidades em diferentes partes do Brasil, principalmente do Norte e Nordeste— além de incrementar algumas obras expostas na Pinacoteca e pintar murais que não estavam previstos. Os mais de mil itens expostos se dividem entre pinturas, instalações, animações, estudos, roupas e fotografias.

Na entrada, o tradicional letreiro com o nome do museu foi substituído temporariamente por um luminoso criado pela dupla, com tipologia que remete ao grafite.

O universo do Tritêz, como são chamados os famosos homenzinhos amarelos da dupla, dá as boas-vindas já no lobby do museu. Quem recebe o público é o rosto de uma mulher que integra a instalação “Fermata”, composta de uma espécie de carro alegórico, com instrumentos e utensílios domésticos que fazem movimentos e tocam sons.

A música, aliás, teve uma forte influência na vida e obra dos irmãos —com o avô lituano, eles ouviam ópera, com o irmão mais velho, Arnaldo, rock e, na rua, era o hip-hop.

No Cambuci, a cena do estilo que surgiu em Nova York era muito forte nos anos 1980, e os meninos logo se viram fascinados por esse mundo.

Eles contam que, na época, tentavam aprender uns passos de Michael Jackson, mas, assim que descobriram o break, deixaram o pop de lado e em pouco tempo estavam frequentando a São Bento, o berço do gênero em São Paulo.

Em diferentes momentos da exposição, o gênero é evocado, como na instalação “Piano”, do ano passado, que foi apresentada na instituição alemã Hamburger Bahnhof e foi construída a partir do instrumento musical que traz em seu tampo um boneco que executa um passo da dança.

Pelas quatro paredes de outra sala, a infância e a adolescência dos artistas são relembradas por meio de fotos deles discotecando com correntes de ouro no pescoço, além de roupas estampadas por eles para manter o estilo nas rodas de dança. “Não tinha como comprar um agasalho da Nike ou da Puma, a gente produzia as roupas ou recortava os logos e colava”, lembram.

A energia do hip-hop trouxe um sentimento de identificação, dizem. Isso porque o universo lúdico que sempre os fascinou fez ainda mais sentido para os irmãos. “Quando vimos uma pessoa girando de cabeça, notamos que aquilo era de outro planeta e nos identificamos na hora.”

Osgêmeos
Pinacoteca, pça. da Luz, 2, tel. (11) 3324-1000. A partir desta quinta-feira (15). R$ 25 (nos primeiros oito dias, a entrada é gratuita)

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