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Edith Elek publica em livro lembranças que 'empurrou para as pontas dos dedos'

Escritora lança seu primeiro volume de poemas aos 75 anos, boa parte deles produtos da recuperação da dor

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São Paulo

Foram precisos não menos que 75 anos para que Edith Elek publicasse seu primeiro livro de poesia, “Pedaço de Mim”, mesmo que já tenham se passado décadas desde que ela começou a empurrar “as lembranças para as pontas dos dedos”, como escreve num de seus textos.

A escritora põe suas impressões no papel desde a adolescência, mas sua fase mais prolífica foi na casa dos 30 anos, quando elas “vinham com tamanha intensidade que eu simplesmente tinha que escrever”, conforme ela conta ao repórter. “Às vezes eu estava guiando na rua, me vinha um poema na cabeça, eu encostava o carro e escrevia.”

edith elek em preto e branco
A escritora Edith Elek, que publica o livro "Pedaço de Mim" - Mariana Vieira Elek/Divulgação

Não era um período fácil para a escritora, que lutou contra uma grave doença e sofreu o peso de outras dificuldades —que prefere não detalhar porque, afirma, não deseja que o livro recém-lançado "fique parecendo com autoajuda".

Mas sublinha que escrever sempre funcionou como o melhor dos processos terapêuticos, comparável para ela apenas com a pintura de aquarela —uma obra da própria autora, aliás, ilustra a capa da coletânea.

Elek afirma que atividades artísticas como essas, que mexem com o inconsciente, "com o material da alma", são fundamentais para a recuperação de tempos duros. Num epílogo de "Pedaço de Mim", ela comenta que "nessas ocasiões os poemas brotavam de dentro de mim como cogumelos e escrever representava um enorme alívio".

Não só de poemas escritos na aridez vive o livro. Se a solidão e a tristeza aparecem aqui e ali, também há espantos com o amor, a arte e o sexo.

O humor tampouco se faz ausente. Ao final de um poema especialmente apimentado, ela arremata com a seguinte estrofe. “É meu massagista japonês/ que uma vez por semana/ me leva ao Nirvana/ pela módica quantia/ de dezesseis mil por mês.”

A poesia de Elek, aliás, observa com atenção cada parte do seu corpo, como destaca o escritor Rodrigo Petronio no posfácio.

Foi ele o responsável por incentivar, em cursos de escrita criativa, que a poeta finalmente tirasse sua obra da gaveta e a vendesse a editoras —três aceitaram, segundo a autora, e a publicação acabou saindo pela 7Letras.

O contato não foi difícil, já que Elek, jornalista de formação, construiu boa entrada no mercado editorial ao longo de décadas trabalhando como editora e como tradutora.

Ela traduz, aliás, de uma língua de raro domínio por aqui, o húngaro. Foi herança de pais que imigraram do país europeu para cá, a custo de muitas perdas pessoais, esse idioma que Elek aprendeu a falar bem antes do português.

Empolgada com os bons retornos que tem obtido por “Pedaço de Mim”, ela prepara uma nova obra que cola memórias ligadas a essa ascendência, que incide de maneira tão forte a ponto de a escritora hesitar em se definir entre húngara e brasileira.

Mas não quer dizer que Elek tenha parado de escrever poesia, afinal, não cessaram as emoções. Abalada
pela morte do marido, Raul Wassermann, há quatro meses, a autora se voltou mais uma vez para o papel.

“Parece que é isso que me move. Quando não consigo dar uma forma para a dor, sai em palavras.”

Pedaço de Mim

  • Preço R$ 38 (80 págs.)
  • Autor Edith Elek
  • Editora 7Letras
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