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Fanny Ardant, grande diva do cinema, diz que a quarentena faz os medrosos de vítima

Atriz celebra o fato de estar filmando durante pandemia e afirma que saúde e temor são usados para controlar sociedade

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São Paulo

Fanny Ardant, uma das maiores divas do cinema, não está confinada na segunda onda europeia do coronavírus. Aos 71 anos, a francesa está, "felizmente", filmando. "Eu sou livre. Viva a liberdade."

"Sempre houve quem tem medo e quem não tem", diz ela. "A vida pertence aos que não têm medo e o cinema pertencerá aos que não têm medo."

Ardant não está sozinha. Tem sido comum entre intelectuais franceses se opor a medidas do governo, criticando uma vida de privações, mesmo que temporária, e evocando a coragem e a arte de viver francesa, que estaria sendo ameaçada com bares, teatros e cinemas fechados.

A diva, que se consagrou nos cinemas nos anos 1980 e é viúva de François Truffaut, diz não ter medo. "Vivi minha vida e, se tiver de morrer, inshallah [se Deus quiser, em árabe]". "Viver no medo sempre foi o que permitiu ditar a lei aos seres humanos, e o medo é o maior inimigo do homem."

Segundo ela, no mundo todo há "espíritos que não se curvarão jamais à obediência" e os que "obedecem cegamente às regras do governo".

A atriz está nas salas de cinema do Brasil com dois filmes, "DNA", da também atriz Maïwenn, e "Belle Époque", de Nicolas Bedos, pelo qual recebeu o prêmio César de atriz coadjuvante. O Festival Varilux de Cinema Francês exibe esses e outros 15 longas inéditos em 44 cidades até 3 de dezembro.

No filme de Bedos, Ardant vive uma mulher casada há 40 anos com Daniel Auteuil, um homem que tem ojeriza à tecnologia e reclama de tudo. Depois de uma briga do casal, ele resolve reviver, graças a uma empresa que encena o passado com cenários e atores, os primeiros dias de seu relacionamento amoroso.

Já Ardant, se pudesse viajar no tempo, diz que voltaria ao primeiro dia das férias de verão. "Detestava a escola. Quando começavam as férias era como entrar no paraíso."

Ou então viver a Revolução Russa. Sua predileção por um momento conturbado da história se dá, segundo ela, pelo interesse em viver quando "a vida se torna mais intensa que o normal, quando há perigo e é preciso escolher o seu lado".

Nossa época, porém, interessa a ela porque não há um inimigo declarado. "Cada um é responsável pelo que é e o inimigo é você mesmo", diz, falando por telefone, de Paris.

Ao contrário de sua personagem no filme, que mantém um site de atendimento psicológico remoto e enaltece a realidade virtual, a atriz diz ser uma curiosa quanto às tecnologias, mas não uma entusiasta, e se define como uma "mulher das cavernas". "Amo ler livros de verdade, tocar num piano de verdade, e ouvir discos e CDs", conta.

Em "DNA", ela vive Caroline, a mãe da protagonista, odiada pela filha. A morte do patriarca da família, um argelino que se mudou jovem para a França, provoca brigas entre os herdeiros e detona uma busca de Neige, filha de Caroline, por suas origens.

Educada num meio católico, Ardant diz acreditar em Deus, no bem e no mal, ainda que recuse uma expressão pública de religião. "Orientação religiosa é como orientação sexual, não há necessidade de a pôr em praça pública, é algo entre você e você mesmo", afirma ela.

"As religiões sempre foram uma forma de controle. Agora, para controlar as pessoas, se fala em saúde. Antes era a religião, depois os dogmas políticos e, agora, a saúde."

Em diversas entrevistas, inclusive num Roda Viva, da TV Cultura, há uma década, a atriz diz não ser feminista. E continua assim. "Não quero seguir ditames de um pensamento feminista, quero ter um pensamento livre."

"Nossa época é a do capitalismo selvagem, e tudo está à venda, todas as teorias estão à venda. O movimento MeToo, os movimentos baseados na delação, não combina comigo. É uma moda, e não venha me dizer que não há lucro por trás."

Festival Varilux de Cinema Francês

  • Quando Até 3 de dezembro
  • Onde www.variluxcinefrances.com
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