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Paulo Rónai foi pioneiro ao entender o horizonte de Guimarães Rosa

Leitura intensa e apaixonada feita pelo crítico compõe dos mais importantes lançamentos do ano

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João Cezar de Castro Rocha

Ensaísta e professor titular de literatura comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É autor de "Guerra Cultural e Retórica do Ódio (Crônicas de um Brasil Pós-Político)"

Rosa & Rónai: O Universo de Guimarães Rosa por Paulo Rónai, Seu Maior Decifrador

  • Preço R$ 65 (304 págs.)
  • Autor Paulo Rónai (org. Ana Cecilia Impellizieri Martins e Zsuzsanna Spiry)
  • Editora Bazar do Tempo

Paulo Rónai aportou no Rio de Janeiro em 1941, aos 33 anos, fugindo do avanço nazista na Europa. Só cinco anos depois publicou no Diário de Notícias o artigo “A Arte de Contar em Sagarana”.

Lido hoje o artigo impressiona —e muito. De imediato, pela elegância da escrita. O que afirma sobre a obra de Guimarães Rosa também vale para a sua prosa crítica –“o aspecto da expressão verbal, que nela é de excepcional importância”.

João Guimarães Rosa
O escritor João Guimarães Rosa - Folhapress

Em segundo lugar, destaca a agudeza da leitura. Rónai foi um dos pioneiros na compreensão do exato horizonte da escrita rosiana. “Para os autores que trazem uma mensagem humana e o talento necessário para exprimi-la, o regionalismo envolve antes um obstáculo e uma limitação do que um recurso.”

No calor da hora, Rónai tudo entendeu. A novidade rosiana consistia em atar as pontas. De um lado, “a grande tradição da arte de narrar”. Isto é, as novelas de "Sagarana" tanto encantavam pela invenção linguística quanto prendiam pela engenhosidade da trama. De outro lado, e por isso mesmo, o propósito dessa combinação tinha alvo preciso. “Trata-se apenas de mais um meio para criar atmosfera.”

Palavra-chave –atmosfera; usada três vezes no artigo. Na notável síntese da literatura do brasileiro, “Trajetória de uma Obra”, prefácio da "Seleta" de Guimarães Rosa lançada em 1973, o vocábulo retorna, e também três vezes, numa simetria que chamaria a atenção do supersticioso Rosa.

Rónai identificou a forma mesma da complexidade rosiana. “Um humorismo ao mesmo tempo crítico e cúmplice, cruel e terno, e surpreendentemente compatível com uma atmosfera mágica”. Daí, e se assinale a potência dessa leitura, “o sinal – : – entre os dois elementos do título teria valor adversativo”. E, no entanto, elementos contíguos.

“Ao mesmo tempo” —eis a essência da nota. A literatura de Rosa, de fato, cria uma atmosfera particular por meio da mescla de contrários, da simultaneidade de opostos. No mesmo prefácio, lembrando os prodigiosos dois volumes de "Corpo de Baile", o motivo retorna. “Uma mistura personalíssima e inimitável de artifício e espontaneidade.”

Voltemos ao artigo de 1946. A agudeza de Rónai não deixou de ser premonitória. “Vocação épica de excepcional fôlego, o autor dar-nos-á decerto algum romance em que seu dote de criar e movimentar personagens e vidas se manifeste ainda mais à vontade.”

Foi necessário aguardar uma década, mas a espera foi plenamente recompensada. No Diário de Notícias, no dia 16 de dezembro de 1956, Rónai publicou suas impressões da obra-prima de Rosa, “Três Motivos em 'Grande Sertão: Veredas'”.

A fórmula justa vem à tona. “A linguagem condensada, elíptica, regional e individual ao mesmo tempo.” Simultaneidade que levou longe. “Um conjunto único e inconfundível, algo de real e de mágico, sem precedentes em nossas letras e, provavelmente, em qualquer literatura.”

Há muito mais neste notável livro, um dos mais importantes lançamentos do ano, com uma impecável organização. Em "Grande Sertão: Veredas", Rónai viu “a relação de uma vida de quem, contando-a, quer ver claro em si mesmo”.

Não terá intuído também sua própria vida no Brasil? Experiência, aliás, inseparável da leitura intensa e apaixonada da obra do amigo João Guimarães Rosa.

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