Estádio do Pacaembu é invadido por obras de arte às vésperas de reforma

Mais de 50 artistas exibem esculturas e instalações no estádio, entre eles o francês JR, que cola um olho ciclópico no tobogã

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São Paulo

Quem for se despedir do Pacaembu por esses dias, às vésperas da reforma que o interditará pelos próximos dois anos, encontrará um clube um pouco diferente.

A começar pelo tobogã, como é conhecida a arquibancada mais popular do estádio. Ela, que será demolida para dar lugar a um edifício multiuso, foi forrada de cabo a rabo por um lambe-lambe do francês JR —um ciclópico olho em preto e branco, parecido com aqueles que o artista aplicou sobre fachadas e muros do morro da Providência, no Rio de Janeiro, há mais de dez anos.

Mas não só ali. Gramado, quadras de tênis, ginásio poliesportivo e piscina foram ocupados por esculturas e instalações, que podem ser vistas com hora marcada a partir desta quinta, na exposição "Arte em Campo". São obras de mais de 50 artistas emprestadas por 25 galerias nacionais e internacionais.

Na seleção, há desde artistas históricos, como Amilcar de Castro e Franz Weissmann, a nomes da cena contemporânea. Alguns deles, como Paulo Nazareth, Wagner Malta Tavares e a dupla Deyson Gilbert e Erica Ferrari, exibem trabalhos inéditos.

Quem quiser aproveitar para fazer um boquinha no local terá à sua disposição os cachorros-quentes artesanais da dupla de chefs Jefferson e Janaína Rueda, as sobremesas da Sorveteria do Centro, ambos vendidos no interior do complexo.

Presidente do consórcio Allegra Pacaembu, que venceu a concorrência pela administração do estádio pelos próximos 35 anos, Eduardo Barella afirma que a mostra serve a dois objetivos. De um lado, marca a chegada do consórcio ao estádio, já que na prática ele só o administrou por dois meses, antes da pandemia —de abril até junho, o lugar abrigou um hospital de campanha para atender pacientes com o novo coronavírus.

Por outro, a exposição apresenta ao público uma das facetas do projeto de renovação proposto pelo consórcio, de resgate do tripé de esporte, cultura e lazer em que o complexo se baseava ao ser inaugurado, em 1940.

Na visão de Barella, esse tripé foi desvirtuado com a demolição da concha acústica, um grande palco onde eram realizados concertos e apresentações musicais, e a construção do tobogã em 1969, na gestão do prefeito Paulo Maluf.

A ideia do projeto é, dessa forma, trazer não só as artes plásticas, como outras formas de manifestação artística, como música e dança, para dentro do complexo. Barella diz que planos nesse sentido devem ser anunciados em breve.

"Quando nos comparamos a países mais desenvolvidos, vemos que temos pouca arte pública. Acho que podemos fazer com que o Pacaembu exerça esse papel, pois é um lugar público, mas gerido por uma empresa privada, o que resguarda de certa forma essas obras", diz o empresário, que também é colecionador de arte contemporânea.

Com a reforma, o tobogã será substituído por um prédio com lojas, restaurantes, centro de eventos e estacionamento. Barella diz que a construção ajudará a estabelecer uma união maior entre o estádio e o complexo de lazer, na visão dele segregados tanto visualmente quanto em termos de fluxo de pessoas.

Entre as principais críticas do projeto estão aquelas que temem que a demolição do tobogã elitize o estádio, uma vez que ele costuma abrigar torcedores de baixa renda, e as que acusam o projeto de seguir uma lógica de shopping por causa do edifício multiuso.

Numa entrevista a este jornal em outubro do ano passado, Barella respondeu à primeira queixa afirmando que, depois da reforma, o estádio ainda manterá um número de assentos maior do que sua média de frequência atual, o que permitiria continuar recebendo esse público. Em relação à segunda crítica, o empresário disse que "não adiantava" ter um projeto "muito bonito" em que não houvesse equilíbrio financeiro.

Barella diz que o consórcio espera receber da prefeitura o alvará para início das obras nos próximos dias e começar a reforma de fato na segunda quinzena de janeiro.

Então, o Pacaembu será fechado ao público. O consórcio planeja, no entanto, uma espécie de mirante para que a população possa acompanhar, de longe, a reforma. "É um gesto nosso para demonstrar o nosso respeito pelo equipamento, como numa prestação de contas."

Ocupação Arte em Campo

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