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Livro de Chigozie Obioma, nigeriano na Flip, lembra horror do caso Beto Freitas

Autor de 'Uma Orquestra de Minorias' escalado para festa literária chama episódio de surreal e terrível

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Ilustração de Chigozie Obioma feita por Jairo Malta, para ilustrada

Ilustração inspirada em retrato do autor Chigozie Obioma Jairo Malta

Buenos Aires

Como escrever um romance que fuja dos formatos tradicionais de narrativa? Que não seja em primeira, segunda ou terceira pessoa e que transcenda a voz do principal personagem, tendo narrado acontecimentos antes e depois da vida dele na trama?

Segundo o nigeriano Chigozie Obioma, de 34 anos, isso foi possível ao contar a história de “Uma Orquestra de Minorias” a partir do “chi” de seu protagonista. Convidado da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorre neste ano de maneira virtual por causa da pandemia do coronavírus, Obioma conta o que é o “chi” e como surgiu sua ideia de contar uma história a partir de seu ponto de vista.

“O ‘chi’ é o centro da cosmologia igbo [grupo étnico africano do qual faz parte]. É um espírito que está em cada indivíduo, mas que existia desde antes de sua existência física e que o ultrapassa depois que esse indivíduo morre”, ele diz.

“Ao mesmo tempo em que é uma espécie de guardião espiritual de um indivíduo e, por isso, tem a habilidade de pôr pensamentos em sua cabeça, nem sempre é respeitado. Eu sempre quis escrever um romance cosmológico, para com isso explorar a ideia de um narrador que transcende o tempo e que tem uma sabedoria acumulada que venha de muitas existências anteriores, além de, ao mesmo tempo, viver uma experiência única em cada indivíduo.”

Obioma conta que a existência do “chi” estimulou a sua curiosidade desde cedo, porque sua mãe conversava com amigos e parentes com naturalidade, comentando a essência do “chi” das pessoas.
“Isso tem um impacto na vida em sociedade na África distinta do que vemos na Europa ou na América, porque toda a cosmologia ocidental está baseada num sistema mais hierárquico que se reflete na estrutura política”, diz Obioma.

“Na Europa havia monarcas, havia a ideia de que algumas pessoas eram tocadas pela divindade e outras, não —é o caso de reis, rainhas e plebeus. Na nossa cosmologia, isso é diferente e se reflete na realidade de como nos estruturamos como sociedade antes do contato com os europeus.”

Da mesma forma, ele diz, “há vários conceitos ocidentais que são herdeiros de uma cosmologia própria do mundo judaico-cristão, de mitos como o jardim do Éden, Adão e Eva, o nascimento do pecado, conceitos de livre arbítrio”. “Na África temos uma mitologia distinta que se reflete em conceitos políticos e sociais.”

O livro que Obioma apresenta nesta Flip, “Uma Orquestra de Minorias” conta a história de um fazendeiro nigeriano que, por estar apaixonado por uma mulher, quer enriquecer e provar que merece seu amor. Por causa disso, vai a Chipre do Norte —a parte turca da ilha—, mas, vítima de uma máfia que explora os imigrantes, sofre com o racismo e perde dinheiro numa fraude.

A história é parcialmente baseada na de uma pessoa que Obioma conheceu, quando ele mesmo esteve morando na ilha, como estudante.

Seu amigo Jay, também nigeriano, que havia sido vítima desse tipo de fraude tão comum que é aplicada a estrangeiros, perde muito dinheiro, vive uma grande desilusão e acaba morrendo numa circunstância misteriosa.

“Disseram que foi suicídio, mas eu não acredito nessa versão. Ele havia sido enganado, estava longe da mulher que amava, ficou bêbado e subiu no telhado do edifício onde vivíamos, mas ao tentar descer, caiu. De todo modo, é uma tragédia que resume os dramas de muitos imigrantes.”

Obioma nasceu em Akure, na Nigéria, de uma família com 12 irmãos, e desde cedo se interessou pela mitologia grega e pela literatura britânica.

“Passava os dias lendo, a leitura sempre foi para mim um refúgio”. Ao ter um visto negado para estudar no Reino Unido, foi para o Chipre. Não muito contente ali, aplicou para uma bolsa na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde terminou realizando seu mestrado. Hoje dá aulas na Universidade do Nebraska, no mesmo país.

Com seu primeiro livro, “Os Pescadores”, ele foi finalista do Man Booker Prize, o maior troféu da literatura em língua inglesa, há cinco anos. O mesmo ocorreu com o romance mais recente, finalista da mesma honraria no ano passado.

“São essas curiosidades da vida. O Reino Unido me causou uma grande frustração quando eu era ainda um adolescente, ao me negar um visto de estudante. Eu tinha muita ilusão de ir viver lá, na terra de autores a quem admiro muito, como Shakespeare. Depois disso, tive de passar por muitas coisas, e agora me convidam todo o tempo para ir a palestras, porque fui indicado a prêmios. É uma ironia”, conta o escritor.

Obioma lamenta não poder ir ao Brasil para a Flip por causa da pandemia. Ele esteve no país há dois anos, para um evento literário em Brasília.

“Gostei muito de ver um país tão diverso, mas sei que ainda há muitos problemas relacionados ao racismo. Li sobre o homem que foi morto a pancadas no supermercado, achei algo terrível e surreal, vindo de pessoas que nem sequer tinham a autoridade de serem policiais. É algo criminoso e significativo de uma sociedade que precisa de mudanças. Eu me alegro que as vozes negras da literatura e das artes estejam sendo ouvidas agora.”

Uma Orquestra de Minorias

  • Preço R$ 59,90 (456 págs.)
  • Autor Chogozie Obioma
  • Editora Globo Livros
  • Tradução Claudio Carina
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