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Chris Fuscaldo

Filho de Renato Russo dá a impressão de só divulgar o que interessa a ele

A revanche de Giuliano Manfredini, que não mostra as provas de suas acusações, ainda pode se virar contra ele

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Chris Fuscaldo

Um mês e meio atrás escrevi nesta Folha algo no intuito de abrir o baú de “verdades inconvenientes e tramas secretas” que ronda a novela em torno da busca do herdeiro de Renato Russo por algo que ele não está nos dizendo.

Tirei as palavras entre aspas da resposta assinada por Giuliano Manfredini ao meu artigo, também publicada neste jornal. Aquele foi o primeiro posicionamento dele desde que, em 2019, seu primeiro alvo foi atacado, Josivaldo Bezerra da Cruz Junior, em uma operação de busca e apreensão em que a polícia buscava material inédito do cantor.

Foi também uma amostra de que segue obcecado por temas já esclarecidos e que vem mudando sua narrativa a cada susto que a polícia prega em fãs, pesquisadores e artistas.

​Em seu texto, Giuliano se vitimiza e faz uma série de acusações a Josivaldo, fã de seu pai que teria entrado em contato com ele para negociar inéditas de Renato Russo sob o pseudônimo de Ana Paula Ulrich. Advogados que consultei e eu achamos o posicionamento de Giuliano no jornal bem ousado, visto que o inquérito está em curso e o caso, em segredo de Justiça. Logo após a publicação de suas lamúrias, a investigação ganhou novos contornos e mostrou uma ocorrência mais absurda: a entrega ao herdeiro de fitas recolhidas no depósito da Universal Music.

No Jornal Nacional, o filho de Renato Russo se emocionou após o delegado cravar que o “material estava fora do domínio do verdadeiro dono, o senhor Giuliano Manfredini”, e o repórter assinar embaixo: “é ele quem vai decidir o que vai ser feito com todo esse acervo”. O mundo da música se alvoroçou: como, se o herdeiro é só um dos que detêm os direitos autorais das canções da Legião Urbana e se é da gravadora a propriedade dos fonogramas e fitas bancadas por ela?

A reportagem disse ainda que um inventário do material da banda foi feito pelo jornalista Marcelo Froes e que acabou nunca entregue à família Manfredini. No dia seguinte, Dado Villa-Lobos afirmou que ele, Marcelo Bonfá e os Manfredinis receberam o documento.

Por que o herdeiro não pediu o material à avó, que cuidou do legado de Renato até ele assumir? Por que não pediu à gravadora? Ele preferiu acionar a Justiça criminal para descobrir algo que muita gente já sabia: que há restos de gravações da Legião Urbana.

Dado declarou que a versão que as reportagens celebraram de “Faroeste Caboclo” em reggae são trechos das gravações originais. E lembrou que, quando o álbum “Dois” completou 30 anos, Giuliano não liberou o lançamento de “O Grande Inverno na Rússia”, “Juízo Final” e “Fábrica”.

Com os legionários cobrando respeito à obra da banda nas redes, Giuliano começou a dizer que faz isso pelos fãs. Se faz, por que negou projetos que a gravadora tentou lançar? O herdeiro parece querer tudo só para ele, achar que só ele pode lançar algo da Legião Urbana. É como se, por ser dono da marca, achasse que é dono de tudo. Vai ver nem lembra que seu pai nunca gravou uma música autoral para um lançamento sem estar acompanhado de Dado e Bonfá (seus trabalhos solo são de intérprete).

A polícia está fazendo seu papel, assim como o juiz —que não prolongou uma conversa comigo porque o caso está em segredo de Justiça, mas afirmou que “nada foi decidido em definitivo nesse processo”. Diferentemente do que se disse na Globo, não é Giuliano "quem vai decidir o que vai ser feito com todo esse acervo”.

Em abstrato, uma liminar é sempre uma medida que visa preservar um quadro e evitar uma lesão, explicou-me uma das diversas fontes que entrevistei. Ou seja: Giuliano virou o fiel depositário das fitas até uma nova decisão judicial.

O herdeiro pode, assim, ter iniciado conflitos com a Universal, maior gravadora do mundo, e com os parceiros de seu pai. A revanche contra um fã que tentou convencê-lo a lançar material inédito acabou virando um caso que pode se voltar contra ele: é provável que a gravadora e os parceiros de Renato Russo reajam.

“Sou um homem com canais de fácil acesso de comunicação”, diz ele no artigo. Tenho emails para provar que, em 2013, tentei convencê-lo a se juntar num projeto de songbook, que incluiria versões dos textos que escrevi na ocasião da reedição dos álbuns da Legião Urbana pela EMI Music, de 2010, e partituras das músicas dos discos.

Dado havia gostado da ideia. Tentei falar com Giuliano. Ele sempre mandava os funcionários de sua produtora me responder, e estes sempre sumiam. Fiquei dois anos —depois fui saber— sendo chamada de “amiga de Dado e Bonfá”.

Quando vi que ele não tinha interesse em dar o presente aos fãs —suas intenções não são tão altruístas assim—, lancei meu “Discobiografia Legionária”, arrebatando centenas de fãs ávidos por novidades sobre sua banda favorita. As partituras nunca puderam ser vistas por eles, já que, para serem divulgadas, precisam da autorização de todos da banda, inclusive do único que se negou a dá-la.

Ainda me intriga a motivação de Giuliano, já que sua narrativa muda o tempo todo. Após perceber que as acusações de crime de violação de direitos autorais feitas contra Josivaldo Bezerra não estavam sendo comprovadas nas investigações, ele mudou o foco para justificar toda a mobilização do aparato policial e judicial —passou a divulgar que o fã cometeu outro crime, o de falsidade ideológica.

Giuliano afirma, em seu artigo, que Ana Paula Ulrich —personagem criada por Josivaldo para interagir nas redes sociais — tinha um email com domínio da agência internacional de notícias Thomson Reuters. Estranho alguém que não trabalha lá ter um email como esse.

Em minha apuração, vi uma troca de mensagens entre Giuliano e o perfil de Ana Paula no Facebook. Apesar de Ana Paula soar chata e insistente, Giuliano chega a agradecer pela compreensão da fã.

Hoje, Giuliano afirma que Josivaldo tentava constrangê-lo a fazer algo para a obtenção de vantagens econômicas. Pela vida que ele, um aposentado por invalidez, leva, parece que sua única vantagem era interagir com a comunidade de fãs da banda.

Quando falo em obsessão, entre outras coisas, ressalto a fala repetitiva do herdeiro sobre uma fita retirada do apartamento de Renato Russo quando ele era menor de idade. Josivaldo já disse que nunca havia ido a Ipanema e já foi provado que tal fita foi divulgada a princípio pela revista Bizz, em 2000.

Já que vem falando publicamente do conteúdo de um processo que corre em segredo de Justiça, por que Giuliano não mostra provas de suas acusações? Difícil entender o motivo. A impressão é de que está mantido em sigilo o que ele quer proteger, mas ele pode tornar público o que lhe interessa.

Para começar a escrever uma novela policial sobre o assunto —a história da Legião Urbana infelizmente já saiu das prateleiras artísticas—, só falta eu entrevistar o próprio Giuliano e seu parceiro Luiz Fernando Artigas, aquele que o auxilia na articulação de suas estratégias.

Adoraria que eles abrissem o baú de verdades inconvenientes para esta fã, jornalista e escritora curiosa com o curso que essa história vai seguir. Como imagino que esse imbróglio não será resolvido cedo, meu pedido na virada do ano vai ser para que não sejam abertos precedentes perigosos para nós que trabalhamos com a memória da música. O título do artigo de Giuliano vira pergunta: afinal, “quem tenta chantagear Renato Russo e a Legião Urbana com mentiras”?

Chris Fuscaldo é jornalista e autora do livro "Discobiografia Legionária" (ed. Leya)

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