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Biografia mostra as cicatrizes de Bishop sem reduzir a escritora a elas

Thomas Travisano recapitula a vida da americana no Brasil e esclarece sua postura diante do golpe de 1964

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Em “Elizabeth Bishop: Uma Biografia”, Thomas Travisano escreve que a poeta norte-americana era uma “arqueóloga da sua própria história”.

A afirmação sintetiza a proposta do biógrafo, para quem “muitos dos seus poemas mais esquivos e enigmáticos podem começar a parecer quase transparentes quando se empregam ‘insights’ biográficos de maneira sensível”.

Há dois pontos a se destacar aí. Em primeiro lugar, o fato de que a vida de Bishop teve vários traumas pessoais, mas nenhum acontecimento espetacular que torne sua vida por si só romanesca. O natural interesse despertado pela biografia se deve, antes, à importância de sua obra.

Com o acréscimo, para os leitores brasileiros, de recapitular a vivência que Bishop teve neste país e esclarecer a sua postura diante do golpe militar de 1964 —motivo de polêmica quando a poeta foi escolhida para uma homenagem que acabou não acontecendo na Flip deste ano.

Em segundo lugar, Travisano consegue ampliar a significação da poesia de Bishop, mostrando-a como resposta a cicatrizes biográficas, sem reduzir seus traços “esquivos e enigmáticos” ao reflexo de situações existenciais.

Bishop era uma mulher perturbada, às voltas com crises de depressão, com o alcoolismo e com sua homossexualidade, mas Travisano jamais atribui a objetividade elíptica de sua poesia —límpida e descritiva, mas de difícil decifração— a algum ponto cego para si mesma. Ele mostra, ao contrário, uma artista com plena consciência dos seus processos poéticos, expressa em ensaios e cartas.

Dito isso, Travisano é especialmente sensível aos acontecimentos que marcaram a infância de Bishop —como a morte do pai e a posterior internação de sua mãe, após um colapso mental.

Bishop viu a mãe pela última vez aos cinco anos, mas ela só morreria quando a poeta completava 21 anos. Nesse meio tempo, viveu com os avós no Canadá e em sua Worcester natal —período no qual sofria “carícias inadequadas” de um tio repulsivo e simpatizante da Ku Klux Klan.

Numa anotação de seus cadernos, ela chegaria a afirmar que “as famílias (...) parecem ‘campos de concentração’ —nos quais as pessoas realmente dão vazão a sua natureza sádica”. E no conto “Na Aldeia” Bishop expressa seu sentimento de desolação numa narrativa em que o eco dos gritos da mãe materializa o terror familiar e o temor de seguir o desvario materno.

O fato de a autora ter escrito esse conto em 1953, quando já estava no Brasil, indica a persistência de seus fantasmas.

Bishop veio de navio para cá com a intenção de circunavegar a América do Sul, mas reencontrou a arquiteta Lota de Macedo Soares, que conhecera em Nova York, e resolveu permanecer no Rio de Janeiro, onde conviveu com personagens como o ex-governador Carlos Lacerda —que convidou Lota a realizar o projeto do Aterro do Flamengo— e Vinicius de Moraes, com quem teve um breve caso amoroso.

Duas passagens sintetizam sua percepção do Brasil e, de quebra, da política local. Numa carta ao poeta e amigo Robert Lowell, ela afirma: “A sociedade do Rio de Janeiro é inacreditável. Proust nos trópicos com um samba em vez da frasezinha de Vinteuil”.

E, em outro trecho, Travisano afirma que Bishop “estava preocupada tanto com a retórica esquerdista geralmente violenta do presidente Goulart quanto com a retórica anticomunista de Lacerda, para ela muito parecida com a do macarthismo”.

Contudo, mesmo estando farta de política, Bishop declarou que “gostava cada vez mais” daquilo que ela chamava de “o outro lado de baixo” do Brasil, como o humor do povo e sua cultura autóctone. A arqueóloga de si mesma foi, afinal, uma boa antropóloga das contradições brasileiras.

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