Viola Davis fala sobre salários de atores negros e de quando atuou com Boseman

Em 'A Voz Suprema do Blues', atriz quer mostrar que personagem conhece o seu valor

David Marchese
The New York Times

Viola Davis tem um momento em “A Voz Suprema do Blues”, adaptação para o cinema da peça de August Wilson estreada em 1984, no qual, sem dizer uma palavra, ela cria toda uma vida.

Sua personagem, Ma Rainey, uma cantora de blues pioneira da década de 1920, está discutindo com Irvin, seu empresário, branco, quanto a um pagamento devido ao seu sobrinho pelo trabalho em uma de suas gravações. Ela está tentando ser razoável, apelando à lógica. Isso não funciona. Por isso, com um gesto abrupto, ela decreta “vá logo pegar o dinheiro do menino”.

Irvin sai correndo em busca do dono do estúdio de gravação, Sturdyvant. A porta se fecha por trás dele. E naquele momento a luz parece se apagar nos olhos de Rainey. Sua respiração fica pesada. Todo o seu ser, seu espírito, parece se encolher, e fica claro o preço que ela paga por ter de brigar, tanto e de maneira tão intensa, por aquilo a que tem direito.

De repente Sturdyvant entra zangado na sala, e a fachada combativa de Rainey ressurge. Aqueles poucos segundos de resignação silenciosa são como que uma sequência rápida de “blue notes”, e Davis, de 55 anos, os interpreta como um virtuose.

“Em ‘A Voz Suprema do Blues’, todos estão lutando por seu valor”, diz a atriz, “e aquilo que nos impede de avançar é sermos negros". "Era o que eu queria mostrar. Não, ‘mostrar’ não é um bom termo para um ator. Queria que aquilo fosse parte de Ma Rainey. Queria que as pessoas vissem o que existe no cerne de seu ser. E essa qualidade é, ‘conheço meu valor’.”

*

Muitas das questões que 'A Voz Suprema do Blues' desperta sobre a indústria do entretenimento na década de 1920 continuam válidas. Quem realmente controla a arte negra? Que grau de independência é possível para os artistas negros num setor branco? E essas questões conduzem a outra –qual foi o progresso conquistado? Bem, o que está acontecendo agora em nosso setor é que se vê mais conteúdo negro porque há 500 séries de TV em cartaz. O que falta é autonomia. O que falta é agência. Se a pessoa quer trabalhar, e só, existe trabalho disponível. Mas se ela quer jogar de igual para igual com os colegas brancos, existe um problema, porque ela tem de depender de estruturas de poder brancas para aprovar filmes, para liberar verbas, para aceitar roteiros. Há grandes mentes negras espalhadas por aí que descobriram que passos precisam ser dados a fim de conquistar o controle, mas as pessoas que têm essa capacidade não são muitas, e não a exercem o tempo todo.

Isso me faz recordar um vídeo seu que foi sucesso viral alguns meses atrás, que a mostra falando, cerca de dois anos atrás, de pessoas que a definem como 'a Meryl Streep negra', e dizem que 'você é incomparável'. No entanto, isso não quer dizer que você seja paga de maneira incomparável. A situação melhorou? Eu me sinto conflitada quando começo a falar de dinheiro, especialmente durante a Covid-19, quando tanta gente está em dificuldade. Mas, não. Com certeza não. É preciso considerar as pessoas que são supostamente seus pares em termos de idade, de formação, de faixa salarial. Muitas vezes o que acontece é uma falta de oportunidade. Se existem 200 roteiros flutuando em um estúdio, à espera de produção, os papéis principais em muitos desses filmes não serão destinados a mulheres negras.

Assim, para encarar a coisa pelo lado técnico, se você não teve papel principal num filme que tenha faturado US$ 1 bilhão no mercado internacional, e não puder usar isso para ser escalado para um filme de David Fincher que fatura US$ 500 milhões, e não puder usar aquilo para ser escalado para um filme de Christopher Nolan que fatura US$ 600 milhões, o valor da sua pedida não poderá subir.

Eu com certeza ganho mais dinheiro do que ganhava no ano passado. E batalho por isso, certamente. As pessoas ao meu redor batalham por isso. E esse é o motivo para que eu veja uma diferença em minha atual remuneração. Mas não chega ao nível do pagamento dos meus colegas brancos.

August Wilson se via conscientemente como alguém que trabalha na tradição do blues. Você vê seu trabalho também como parte dessa tradição, cultural, de alguma maneira? Acho que posso falar por muitos artistas negros. Todos nós o fazemos. Tenho quase certeza de que a maioria dos atores brancos não tem de responder a grandes perguntas sobre a estratosfera política. “Onde você acha que estamos em termos da situação racial dos Estados Unidos?”

As perguntas que você me fez são grandes perguntas, que se relacionam ao passado, que se relacionam à cultura. São perguntas que nos fazem habitualmente, e portanto compreendemos totalmente nosso papel em um contexto mais amplo. Eu sinto isso. Shonda Rhimes sente isso. Kerry Washington sente isso. Octavia Spencer sente isso. Taraji P. Henson sente isso. Gabrielle Union sente isso. Issa Rae. Michaela Coel. Todas nós. Todos os dias.

Você preferiria que eu não fizesse essas grandes perguntas? Você pode fazer a pergunta que quiser. E eu tenho a opção de responder ou não. Respondi aquela pergunta daquela maneira porque quero ser honesta com você.

Já a ouvi falar sobre 'patologias', ao discutir o trabalho dos atores. Por que essa palavra é útil para você?Patologia é o estudo dos tumores. Será benigno? Será maligno? Você estuda as origens da coisa. E é assim também com um personagem. [O ator e professor de atuação] Sanford Meisner costumava dizer que a pergunta mais poderosa que se pode fazer a um ator é “por quê?”. Por que um personagem é tão sexual? Porque ele gosta de sexo. Por que ele gosta de sexo? Bem, na verdade ele não gosta de sexo. Então por que ele está fazendo sexo? Porque não sabe mais o que fazer. E por que não sabe? Porque se sente ansioso. E qual é o motivo dessa ansiedade? Isso é patologia. É mapear uma trajetória a fim de saber o que faz uma pessoa funcionar. É o que um ator faz. A frustração surge quando as pessoas não querem ver o que faz funcionar um ator ao interpretar um personagem não branco, e o fato de que não querem ver porque não desejam ser indiciadas.

Como assim? Vou inventar um exemplo, porque não quero falar sobre “Histórias Cruzadas”. Digamos que alguém me dê um papel, e que o papel tenha sido escrito nebulosamente. Qualquer pessoa o poderia interpretar. De repente chego eu, para interpretar o papel. Quem sou eu, exatamente? Quem eu amo? O que me propele? Como é que ser uma mulher de pele escura me afeta, em minha passagem pela vida? Nada disso é explorado. Se você pressiona os roteiristas a explorar esse aspecto, eles não vão tratar das partes de sua vida que causam desconforto a eles. Vão tratar daquelas partes de você que julgam já conhecer. Eles querem a fantasia daquilo que acham que já sabem a seu respeito. Não querem verdadeiramente você.

Qual de suas patologias pessoais o trabalho como atriz a ajudou a compreender? Elas me ajudam a explorar aquilo pelo que vivo. Quando você trabalha em um personagem, a primeira coisa em que trabalha é o que move esse pesonagem. O que me move é bem parecido com o que move os personagens de “A Voz Suprema do Blues”, e é o meu valor, me sentir valorosa em tudo aquilo que faço.

Recentemente, minha preocupação maior vem sendo me reconciliar com o passado. Me reconciliar com aquela menininha tão traumatizada e machucada. É minha situação agora. Se você cresceu com um pai alcoólatra, pobreza severa, o que acontece é que, ao longo de seu movimento na vida, certas coisas o arremessam ao passado. Você está de volta lá. É algo que tento curar. Que estou aprendendo a perdoar. E acho que fiz um bom trabalho.

É mais difícil para uma atriz acessar traços de personalidade como a sedução e a sexualidade, duas coisas que Ma Rainey exibe em abundância, do que coisas como raiva e frustração? Todos já sentiram esse tipo de emoção, mas —não sei se é o seu caso— nem todo mundo se sente confortável no próprio corpo. Se você é uma pessoa que nunca sentiu esse conforto, é difícil o acessar. O motivo para que seja difícil é que as pessoas pensam que, se você é mulher e está acima do peso, então você não é sexy, e nem deveria se sentir sexy. Mas as pessoas com quem cresci eram grandes e se sentiam confortáveis em seu corpo. Isso é algo que sei e que busco injetar em Ma Rainey. Ela é uma mulher que não esconde a sexualidade, que não esconde seu valor. E como acessar esse aspecto? É difícil articular de que maneira você deve acessar um personagem que funciona em nível diferente do que você faz pessoalmente, mas posso dizer o seguinte –o que quer que você faça e cause desconforto, faça mais. Quando eu estava com os enchimentos de Ma Rainey, eu mexia nos meus seios o tempo todo. Eu rebolava os quadris ao máximo. Se você exagera nisso, a cada dia, chega uma hora em que essas coisas se tornam parte de você.

Você trabalhou com Chadwick Boseman em 'James Brown', de 2014. Voltou a trabalhar com ele em 'A Voz Suprema do Blues'. Quais foram as mudanças no trabalho dele como ator? Ele confiava mais em suas escolhas. Não sentia mais a necessidade de ocultar sua integridade. Sim, Chadwick Boseman tinha se transformado em “Chadwick Boseman de ‘Pantera Negra’”, mas você precisa deixar isso na porta para interpretar Levee. Precisa deixar Chadwick na porta. Você sabe como funciona, a discussão da arte e a discussão do negócio se tornam uma coisa só. Nem todo mundo vê a diferença. Chadwick sabia a diferença. No estúdio, muitas vezes, o que se ouve é “meu trailer está cheirando mal e ninguém limpou”, ou “meu hambúrguer deveria ser vegano”. Atores às vezes se esquecem de que estão tentando criar outro ser humano. Chadwick não era assim. Era um artista total, se doava totalmente ao personagem. Chadwick Boseman era assim aos 42 anos. Não posso nem dizer que felicidade era trabalhar com ele.

Você acha que ele sabia que aquele seria seu último trabalho? O Levee dele parece uma pessoa tão fatídica. Isso é algo que você deveria perguntar ao pessoal dele. Mas a pessoa que vi no estúdio era alguém muito vivo. Quando morre a última pessoa que se recorda de você, é aí que você realmente morre. E portanto não o vejo como tendo partido, eu o vejo vivo, muito vivo, porque seu trabalho está vivo.

Você disse que a conversa sobre arte e a conversa de negócios se tornaram a mesma coisa. O que causa isso? Não acredito que muita gente saiba o que seja atuar. Muita gente que deseja ser ator na verdade deseja ser famoso como ator. Mas não quer sacrificar coisa alguma —numa profissão em que o índice de desemprego é de 95%. E as pessoas acham que conversar sobre atuação é tedioso. Eu poderia falar sobre objetivos e táticas —mas assim você perde a atenção das pessoas. Elas não querem ouvir sobre isso. Não é sexy. E é aí que mora o problema. Quando você está criando um personagem, a coisa mais importante que pode fazer é observar a vida. Toda a podridão e beleza do que significa ser um ser humano. Suas escolhas precisam se basear nisso. E ninguém quer essa verdade.

Para as pessoas que não sabem, você pode definir o que é ser ator? Ser ator é servir o escritor e se transformar em um ser humano pleno e completamente diferente de você. Não só um personagem —um ser humano. É isso que você está criando. É por isso que o Actors Studio recomenda que você estude a vida. Não que estude outros atores —porque isso também acontece. Quando uma pessoa descobre que vai ser escalada para uma série de TV, começa a perder peso, cuidar do cabelo. A última coisa sobre a qual essa pessoa pensa é o maldito personagem que vai interpretar. Mas o que você está criando é um ser humano. É isso que atuar é. Você precisa olhar para a vida!

Tradução de Paulo Migliacci

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