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Como o incêndio em Notre-Dame obrigou a França a se confrontar com sua história

Jornalista discute por que a ameaça ao monumento abalou o país e inflamou os debates sobre sua reconstrução

Notre Dame destruída, em vermelho

Intervenção sobre imagem da nave da catedral de Notre-Dame após o incêndio de abril de 2019 Reprodução do livro 'Notre-Dame: A Alma da França'

São Paulo

O historiador de arte Adrien Goetz, assim como tantos franceses, dificilmente esquecerá a noite de 15 de abril de 2019. “No futuro, vou ter sobrevivido a isso. Terei visto com meus próprios olhos o pináculo de Notre-Dame cair”, disse ter pensado. Ao seu lado, um homem idoso chorava copiosamente, olhando o fogo. Não era o único.

O relato integra “Notre-Dame: A Alma da França”, obra em que a jornalista Agnès Poirier se aprofunda nas razões pelas quais a ameaça de destruição da catedral, que afinal não se consumou de todo, tocou tão fundo em seus conterrâneos.

“Parisienses jovens e não tão jovens estão de joelhos. Alguns rezam em silêncio”, prossegue o relato. “Essas imagens, transmitidas pela TV, chocam esse país que se orgulha de ser tão secular e abalam profundamente esse povo que encara tudo com um violento ceticismo. Perplexa, a França percebe que sua história é muitíssimo cristã, mesmo que esteja soterrada sob cem anos ou mais de secularismo.”

“Eu não sou católica praticante”, conta a autora, que colabora com veículos como BBC e o jornal The Guardian, em entrevista por vídeo. “Mas na noite do fogo várias pessoas que não eram religiosas, mesmo ateus, os líderes da extrema esquerda, estavam todos em lágrimas. Eu queria entender por que a catedral significava tanto para todos.”

A estratégia foi voltar ao instante em que a primeira pedra foi firmada no edifício, nos idos de 1160, e traçar dez momentos cruciais de Notre-Dame pela história, passando por episódios em que pisaram lá Robespierre, Napoleão, Victor Hugo, Charles de Gaulle e outras figuras que construíram a história europeia.

Mas se engana quem pensa que lerá naquelas páginas um tratado histórico tedioso. O livro abre como um thriller, cortando entre cenas de diferentes especialistas —o comandante dos Bombeiros, a curadora responsável pela arte religiosa da França, um arquiteto que cuida do patrimônio histórico— descobrindo que a catedral estava em chamas.

Muitos deles disparam em meio ao fogo para proteger artefatos de valor histórico, e o leitor os acompanha aflito —uma das historiadoras tem um ataque de choro horas depois do ocorrido, ao perceber que salvara nos braços uma relíquia inestimável— enquanto vai sendo educado sobre o porquê de todos aqueles itens estarem reunidos ali.

Se é uma trama que precisa estar informada pelo passado, há um olho constantemente aberto para o futuro. Poirier se preocupa tanto com o que Notre-Dame se tornou quanto com o que ela se tornará.

O debate sobre a reconstrução do monumento começou antes mesmo de o incêndio ser controlado, quando o presidente Emmanuel Macron prometeu na TV que os franceses o reergueriam juntos.

Então se seguiu, nas palavras de Poirier, “uma coqueluche de ideias sem sentido” que ela enxerga como “uma reação catártica à tragédia”. O primeiro-ministro na época, Édouard Philippe, chegou a abrir um concurso internacional para premiar o melhor projeto para o novo pináculo.

“A histeria era tão óbvia nos dias seguintes que tínhamos desenhos incríveis e completamente malucos para o novo teto”, diz ela. “Era como se todos os arquitetos do mundo tivessem enviado fotomontagens, um fez uma piscina no topo da catedral, outro colocou lá uma floresta com espécies ameaçadas de extinção.”

A jornalista conta que, ao ouvir sugestões como um moderníssimo pináculo de vidro, ela se atraía pela ideia por 30 segundos. “Mas conversei com um monte de arquitetos e historiadores de arte, gente que entende bem mais do que eu sobre o assunto, e nenhum deles disse que uma nova estrutura deveria ser construída.”

Defesas assim não vieram nem de quem mais se esperaria. Poirier ouviu do arquiteto holandês Rem Koolhaas, longe de ser um tradicionalista, que não, tudo deveria ser reconstruído da forma que Viollet-le-Duc havia feito na sua revitalização do século 19.

Nos meses seguintes ao incêndio, passado o frenesi, especialistas se debruçaram sobre o assunto com mais ponderação. No último mês de julho, Philippe Villeneuve, o arquiteto responsável, fez uma apresentação de quatro horas para Macron e um conselho de notáveis, e a decisão de reconstruir a catedral do modo como era antes foi unânime.

Mas a reinvenção arquitetônica não é a única com que a autora se preocupa.

Pela primeira vez em mais de 800 anos, a catedral vai fechar por um bom tempo, o que abre oportunidade para repensar seus propósitos. Ela sugere reorganizar o imenso acervo artístico, realocando obras para lugares mais adequados, e reequilibrar a recepção dos numerosos turistas com a atenção a devotos e necessitados.

Para bancar uma reforma que não seria exagero definir como “a reconstrução do século”, uma quantidade astronômica de dinheiro foi mobilizada. Bilionários franceses, na madrugada do incêndio, já se apressaram em anunciar doações pessoais que alcançavam até 200 milhões de euros —movimento que misturava generosidade e vontade de holofote.

Naquele calor histérico da hora, as críticas também não demoraram a chegar. Será que aqueles ricaços não queriam aproveitar a renúncia fiscal das doações? E por que esse dinheiro todo não vai para os pobres de Paris, em vez de reconstruir um prédio velho?

Todo debate é válido naquele país em que a polêmica é esporte nacional, mas no caso da última pergunta, uma anedota pode mostrar como a questão não é assim simples.

Dois meses após o fogo, 80 milhões de euros —mais de 520 milhões de reais, atualizados— vieram de doações pequenas, sem burocracias. O vigário-geral de Paris, monsenhor Benoist de Sinety, disse à autora que essas contribuições foram as que mais o emocionaram.

Contou, por exemplo, que recebeu um envelope de uma idosa com dez euros dentro. Ela escrevia: “Minha família não é rica, mas isto aqui é para Notre-Dame. No dia 15 de abril fiz aniversário, mas passei o dia chorando por Nossa Senhora”.

Notre Dame: A Alma da França

  • Quando Lançamento nesta semana
  • Preço R$ 79,90 (240 págs.); R$ 39,90 (ebook)
  • Autor Agnès Poirier
  • Editora DBA Literatura
  • Tradução Ana Guadalupe

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