Faz dez anos que Caetano estacionou no Leblon, e com ele a carreira dos paparazzi

Não notícia chega a uma década numa era em que celebridades dão de graça seus flagras, arruinando essa indústria

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Colagem com Caetano Veloso e paparazzi

Colagem com Caetano Veloso e paparazzi Márcio Sampaio/Folhapress

Rio de Janeiro

Há dez anos, Caetano Veloso protagonizou um momento inesquecível em sua trajetória. Estacionou um carro no Leblon para ir à terapia. A cena virou notícia no portal Terra no dia 10 de março de 2011, depois de ser capturada por Fausto Candelária, fotógrafo que tem no currículo outros flagrantes de famosos sendo gente como a gente –"Dvajan vai à doceria no Rio", "Ivete se emociona ao assistir a musical".

O retrato escancarou as vísceras de um jornalismo de celebridades disposto a caçar cliques com o mais banal dos atos, e por isso entrou na história da internet brasileira. A cada aniversário que faz, as redes sociais lançam tiradas como "feliz dia do carro estacionado no Leblon pelo Caetano!" e "vaga que Caetano estacionou no Leblon há quatro anos se diz abandonada, 'ele me usou e me esqueceu'".

Meme satiriza a notícia do portal Terra sobre Caetano estacionando no Leblon
Meme satiriza a notícia do portal Terra sobre Caetano estacionando no Leblon - Reprodução/Facebook

O que estacionou, nesta última década, foram carreiras de paparazzi como Candelária. Da Contigo! à Quem, várias publicações do ramo fecharam ou mantiveram só uma enxuta versão digital. O site Ego, investida do Grupo Globo nesse filão, acabou em 2017. "Isto foi, gente", brinca um ex-colaborador da Isto É Gente, encerrada em 2015.

A fome da audiência por esse tipo de conteúdo não esmoreceu, nem ele deixou de ser replicado pela internet. A diferença é que não faz mais sentido pagar centenas, até milhares de reais por uma imagem que as próprias personalidades ofertam de graça em seus perfis virtuais.

"Antes, existia uma demanda do público de ver celebrities e tal. Hoje, muita gente se posta. Acho que enfraqueceu a função", diz Paula Lavigne, a companheira de Caetano. É ela quem toma a dianteira de compartilhar a intimidade do casal, tal qual uma paparazzo autorizada do baiano.

Quando saiu, a ação leblonina do artista causou espanto por ser um "não acontecimento" numa época em que ainda era moda noticiar, pasme, fatos relevantes, afirma a pesquisadora Ivana Bentes, ex-diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Podemos dizer que a manchete era visionária, risos irônicos, pois com as redes sociais queremos não só ver o Caetano estacionando, mas Caetano de pijama, tomando Kombucha, comendo paçoca, fazendo festinha com o neto, cortando o cabelo, em momentos de intimidade e no cotidiano, tudo postado nas redes com 40 mil, 200 mil curtidas, no Instagram da Paula Lavigne."

A razão de ser dos paparazzi é retratar os famosos sem pedir autorização. "Mas, hoje, são as próprias celebridades, os influenciadores, os artistas e as pessoas comuns que postam sua intimidade como valor de notícia", afirma Bentes. "É como se a notícia tivesse mudado seu critério de relevância, para incluir o cotidiano e a privacidade."

O stories do Instagram, rede social que era um bebê de cinco meses quando Caetano passou pelo bairro da zona sul carioca, é "lugar para o instantâneo e o 'irrelevante', feito para desaparecer em 24 horas". "Caetano poderia estacionar o carro no stories sem nenhum escândalo. Ao contrário, a estacionada causaria mais engajamento, identificação, a gente até sofreria junto se ele tivesse dificuldade para achar uma vaga."

Agora é a celebridade que vira curadora da própria vida íntima. Se decoramos a coleção de pijamas (o branco com friso, o listradinho e o quadriculado) que o músico usa enquanto, sob um edredom branco, discorre sobre Chaves e Nietzsche, é porque ele —ou Lavigne— quis mostrar.

"O famoso se expõe até muito mais do que nós conseguíamos dele no passado. Uma foto do cara na piscina vendia para caramba quando não tinha Instagram. Nós éramos o Instagram", diz Marcelo Liso, de 46 anos, fotojornalista que ascendeu na Quem. Hoje, ganha a vida com uma produtora audiovisual no interior de São Paulo —está produzindo, aliás, o documentário "Aventuras de um Paparazzo Brasileiro" (ele, no caso).

Os paparazzi, claro, podem correr atrás de situações que um artista preferia manter secretas, como um namoro ainda não público. Mas, sem o financiamento de redações atropeladas pela concorrência das empresas de tecnologia, muitos desses profissionais se viram sem opção. "A grande maioria migrou [de negócio]. Não tem mais o que mostrar de diferente para o fã do Bruno Gagliasso", ironiza Liso.

Se a publicação com Caetano virou meme, a culpa não é dos paparazzi, porque o ofício é "jornalismo investigativo que exige investimento", ele diz. Quando revistas e sites passaram a "só comprar 'fotinho' de agência", aí que descambou de vez. "Você publica e dá qualquer coisa na legenda."

Em 2006, o fotojornalista conversou com este jornal num panorama mais amigável a seu trabalho. Ele se apresentava, com certa bazófia, como o cara que foi alvo de garrafadas de um Murilo Benício irritado com o assédio, aquele que clicou Paris Hilton após um pit-stop no banheiro de um posto de gasolina. Uma celebridade no jornalismo de celebridades.

Fazia coisa de cinco anos que revistas tinham começado a escalar fotógrafos para cuidar exclusivamente de flagras de estrelas. Uma boa história rendia cerca de R$ 8 mil. Liso conta que chegou a tirar cinco vezes isso, com uma reportagem sobre Alex, o filho que o ex-jogador Ronaldo ainda não havia reconhecido.

Em 2021, não há quem tenha "budget", ou orçamento, para investir nas estripulias que fazia para garantir uma foto, diz. Quando a modelo Naomi Campbell se internou no Sírio Libânes em 2008, para tratar um cisto no ovário, ele arrumou um prédio ainda não habitado e ficou três dias no topo dele, "como um sniper", conta.

"O motorista me colocava pelo subsolo do prédio, onde alugamos vagas de garagem. Uma fonte havia me dito que, se tivesse fotógrafos nas saídas, a top só iria embora de helicóptero. Avisei o fotógrafo mais boca mole da concorrência, que espalhou que ela ia sair por uma das entradas laterais. Pronto! Eu tinha ela saindo do heliponto com exclusividade."

Decolar na profissão não era fácil. Paparazzo na ativa desde 1987, Luiz Paulino da Silva, de 64 anos, conquistou entre colegas o apelido de Coruja, a ave com visão excepcional no escuro.

Seus fotografados vão de Roberto Carlos —viajou com o cantor para Acapulco e ficou amigo dos filhos dele— a Fernanda Souza —fez o aniversário de 15 anos da atriz na Disney, para a Chiques e Famosos. Ensaio predileto —"uma sequência que fiz da Mara Maravilha pelada numa banheira de espuma, principalmente porque ela havia posado para a Playboy ganhando uma boa grana, e a Contigo! não pagou nada e deu fotos [seminuas] dela antes".

Coruja não gosta desse papo de crise na área. É verdade que "a pandemia acabou com os eventos, e as revistas fecharam porque as empresas eram mal administradas", afirma. "Mas fotos de paparazzi vendem no mundo todo. O público quer ver bastidores indesejados."

Até porque os desejados, afinal, já são compartilhados pelas celebridades. Tempos estranhos em que as americanas Jessica Simpson e Khloé Kardashian são processadas por direitos autorais ao reproduzir em suas contas uma foto que paparazzi tiraram delas.

As pessoas continuam atentas, só os canais preferenciais que mudaram, diz o consultor de comunicação em mídias digitais Alexandre Inagaki. "O Ego cedeu lugar para perfis de Instagram e canais de YouTube especializados em fazer clipping de redes sociais. Até de gente não tão famosa assim, como o Treta News, beirando os 5 milhões de inscritos. Fala só de influenciadores digitais, os famosos que o seu pai e a sua avó jamais ouviram falar."

Agora, os artistas usam suas vitrines virtuais como uma espécie de autobiografia chapa branca, afirma Inagaki. Exatamente como os fãs fazem em suas microbolhas. "Cada pessoa acaba 'bigbrotherizando' a própria vida. Um selfie fazendo careta no espelho rende likes. Em troca, você ganha 'biscoitos', tem o ego alimentado. A timeline acaba virando um BBB no qual você é o Boninho, selecionando participantes por meio do botão de follow, pay per view 24 horas por dia, e sem precisar pagar assinatura do Globoplay."

Paula Lavigne admite que se incomodava com a cultura paparazzo. "Vou ser sincera com você, quando ia para praia ficava bem grilada. Sempre pegavam aquela horinha em que você anda, a celulite aparece. Poxa."

Agora, quase sempre tem as rédeas da própria imagem e da do parceiro, um dos músicos mais famosos do Brasil —que não liga para os registros que ela faz dele, Lavgine garante. "Caetano não está nem aí, Caetano é Caetano, ele não tem nada a esconder. Às vezes ele reclama quando acha que está feio."

Num 2021 pandêmico, a cena que fez tanto sucesso há dez anos não se repetirá nos mesmos moldes –Caetano continua fazendo análise, mas a terapia é online.

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