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'Minari' é novo filme coreano que pode roubar os holofotes na temporada de prêmios

Longa dirigido por filho de imigrantes causa polêmica ao ganhar Globo de Ouro de produção estrangeira mesmo sendo dos EUA

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Los Angeles

Os coreanos voltaram a brilhar em Hollywood. Quer dizer, coreanos e americanos-coreanos. No lugar de um asiático da gema como “Parasita”, vencedor dos principais prêmios da temporada do ano passado, agora é a saga de uma família coreana nos Estados Unidos que está roubando os holofotes das cerimônias.

“Minari”, do diretor americano filho de imigrantes Lee Isaac Chung, ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro do Globo de Ouro e do Critics Choice Awards, derrotando o favorito “Druk - Mais uma Rodada”, do prestigiado dinamarquês Thomas Vinterberg.

O longa disputa a mesma categoria no Bafta, a premiação da academia britânica anunciada nesta semana, além de outras cinco, incluindo direção e atriz coadjuvante para uma veterana de 73 anos conhecida como a “Meryl Streep da Coreia”.

“Minari” é uma produção americana, rodada no estado americano de Arkansas, sobre a essência do sonho americano. Mas o fato de ser falado em coreano o desclassificou do prêmio principal do Globo de Ouro, causando indignação na comunidade asiática nos EUA, que já vem sofrendo ataques racistas nos últimos meses por conta da pandemia.

Cena do longa 'Minari', que ganhou a categoria filme estrangeiro do Globo de Ouro - AFP

“Não vi nenhum filme mais americano do que ‘Minari’ neste ano”, disse a diretora Lulu Wang, que passou pelo mesmo mal-estar no ano anterior com seu “A Despedida”, rodado boa parte na China, sobre uma jovem americana filha de imigrantes. “Nós realmente precisamos mudar essas regras antiquadas que caracterizam os americanos como apenas falantes de inglês.”

O ator Daniel Dae Kim, de “Lost” e “Hawaii Five-0”, também reclamou. “É o equivalente cinematográfico de receber ordens para voltar ao seu país quando seu país é na verdade os Estados Unidos”, escreveu.

“Minari”, nome de uma erva coreana, segue a trajetória do casal Jacob, papel de Steven Yeun, de “Walking Dead”, e Monica, vivida por Han Yeri, ao tentar recomeçar a vida montando uma fazenda de vegetais coreanos nos campos de Arkansas, nos anos 1980.

Eles têm dois filhos pequenos que nasceram nos Estados Unidos e falam em inglês entre si. O mais novo é um menino de oito anos que brilha nas cenas mais graciosas, um contraponto à realidade dura e às brigas constantes dos pais. Ele é interpretado por Alan S. Kim, americano filho de coreanos, destaque da cerimônia do Critics Choice Awards ao cair no choro no meio do seu discurso de agradecimento ao receber o troféu de melhor jovem ator.

“É um sonho? Espero que não seja”, disse o pequeno em meio a soluços.

O diretor Chung explicou que “Minari” é sobre uma família “tentando aprender a falar uma língua própria”. “É mais profundo do que qualquer língua americana e estrangeira. É uma língua do coração”, disse o diretor ao ganhar o Globo de Ouro.

Lee Isaac Chung, diretor de 'Minari', é abraçado pela filha de 7 anos após ganhar o Globo de Ouro - Reuters

“Espero que todos nós possamos aprender a falar essa língua do amor uns com os outros, especialmente neste ano."

Este é o terceiro longa de Chung. Sua estreia foi “Munyurangabo”, de 2007, exibido em Cannes e Berlim, sobre a amizade de dois jovens de etnias diferentes na Ruanda dividida entre tutsis e hutus.

No filme, o ator mirim Alan S. Kim tem suas melhores cenas ao lado da atriz Yuh-jung Youn, tão popular na Coreia do Sul que nos EUA ganhou o apelido de “Meryl Streep coreana”. Ela faz Soonja, a avó que chega da Coreia para ajudar a cuidar das crianças, enquanto os pais trabalham numa fazenda separando pintinhos pelo sexo.

É Soonja quem traz as sementes de minari e muitas outras comidinhas locais. Ela desenvolve uma relação curiosa com o neto, que não entende essa mulher mais velha que não sabe fazer cookies, gosta de ver luta livre na TV e fala palavrões.

Aos 73 anos, Youn acumula tantos prêmios por “Minari” que há quem veja como certa uma indicação ao Oscar de coadjuvante, o que seria algo inédito para um ator coreano. Ela foi indicada ao Critics Choice Award, um dos termômetros mais precisos da corrida ao Oscar, além do Bafta, Spirit Awards e muitos outros.

“Meu pai estava muito preocupado comigo, com meu futuro e meu sucesso com diretor. Mas quando falei que Yuh-jung Youn estaria no meu próximo filme, ele relaxou. Para meu pai, estou feito”, disse Chung num encontro virtual da American Cinematheque.

“Ela sempre esteve em nossa sala quando assistíamos à TV coreana. Meu pai costuma dizer que ela é uma das poucas pessoas na Coreia que pode falar palavrão.”

Em entrevista ao Los Angeles Times, Youn comentou que a imprensa coreana está vibrando com a perspectiva de outro Oscar histórico. A culpa é de Bong Joon-ho, diretor de “Parasita”, que levou quatro estatuetas em no ano passado –melhor filme, direção, filme internacional e roteiro. “Se Bong Joon-ho não tivesse vencido, o povo coreano não estaria tão interessado”, ela disse.

“Minari” foi pré-selecionado ao Oscar nas categorias melhor trilha e música. A temporada de prêmios foi modificada por causa da pandemia e está apenas começando. Os indicados da Academia serão conhecidos no dia 15 de março, e a entrega será no dia 25 de abril.

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