Descrição de chapéu
Cinema

'Fuga', que abre É Tudo Verdade, não deixa público escapar ileso

Documentário usa animação para obrigar olhos viciados do espectador de hoje a ver situação lancinante dos refugiados

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Fuga

  • Quando Quinta (8), às 21h
  • Onde Aluguel no Looke (limite de 2.000 acessos)
  • Preço Grátis
  • Classificação 13 anos
  • Produção Dinamarca, França, Suécia e Noruega, 2021
  • Direção Jonas Poher Rasmussen
  • Link: https://etudoverdade.com.br/

É estranha a animação contemporânea. Em lugar de nos atirar num mundo fantástico, como os antigos desenhos animados, nos aproxima de situações reais de que as imagens reais parecem ter perdido a capacidade de dar conta.

Quem primeiro percebeu essa nova situação, até onde lembro, foi Ari Folman, com seu “Valsa de Bashir”, em que criava um personagem —ele mesmo—, ex-soldado israelense, em busca de suas memórias do massacre de Sabra e Shatila praticado por seu exército.

Em “Fuga”, que abre o festival É Tudo Verdade nesta quinta, Jonas Poher Rasmussen retoma, em linhas gerais, o procedimento. Talvez sua originalidade consista não em fazer um filme autobiográfico, como Folman, mas em buscar um objeto externo, no caso o afegão Amin Nawabi.

A história que Nawabi narra, como se estivesse diante de um psicanalista segundo a posição de câmera, é quase insuportável –a de um jovem afegão forçado a fugir de seu país quando o Talibã toma o poder, viajando para uma Rússia recém-convertida ao capitalismo. Sem documentos, ele e família tentam migrar para um país nórdico.

As experiências por que passarão são atrozes. Dito isso, é melhor parar por aqui em termos do que é narrado. Basta saber que Nawabi escapou com vida de sua Odisseia —claro, é ele que está contando sua história ao cineasta— e se tornou um intelectual respeitado, estabelecido na Dinamarca e com pós-doutorado em Princeton.

O essencial vem da maneira como essa história é disposta. Tivesse Rasmussen decidido simplesmente filmar o depoimento, ilustrar com personalidades próximas dele et cetera, o resultado seria comum. Incomum pela história, talvez, mas comum pelo efeito capaz de despertar no espectador.

Se tivesse optado por um filme ficcional, do tipo “baseado em fatos reais”, introduziria a ficção no centro dos acontecimentos. A narrativa poderia ser verdadeira, mas atravessada pela abstração —o personagem na tela seria digno de despertar nosso interesse e mesmo compaixão, mas não deixaria de ser um personagem.

“Fuga” consegue, portanto, juntar certas pontas soltas da cinematografia ao recorrer à animação. Nem nos preserva no terreno da observação distante —destino reservado tradicionalmente ao espectador de documentários—, nem nos atira na ciranda catártica da ficção de aventura, desenvolvida sobretudo pelo cinema americano, mas não só.

A animação suprime o registro do real, digamos, do acontecido. Apenas introduz, de tempos em tempos, cenas documentais de guerra, de atualidade, que, por surgirem de maneira inesperada, nos jogam por instantes no universo de violência e horror em que se deu a aventura de Nawabi.

Ao mesmo tempo, a animação permite reconstituir situações narradas pelo personagem. Por exemplo, as relações com os “traficantes de gente”, como o filme chama os profissionais que se encarregam de levar emigrantes clandestinamente a outros países. Sendo que a palavra “profissionais”, no caso, designa uma sub-humanidade não raro desprovida de qualquer escrúpulo.

Seja pelas cenas realistas, sejas nos momentos em que Rasmussen opta por imagens expressionistas, “Fuga” nos dá a ver não apenas um personagem, mas uma situação lancinante —a de pessoas, os refugiados, que perdem de maneira absoluta o controle de suas vidas, em favor de traficantes, policiais corruptos, navios que podem naufragar etc.

Com isso, ao acompanhar a trajetória afinal bem-sucedida (mas traumática, muito) de Amin Nawabi, não pensamos em sua aventura pessoal ou familiar apenas. De imediato, o distanciamento provocado pela animação, em vez de nos lançar na fantasia, nos remete, digamos, aos sofrimentos dos refugiados da Síria, para ficar num exemplo recente.

Perto deles, o trajeto de Nawabi talvez pareça um passeio de primeira classe, é verdade. Mas é ele que nos ajuda a partilhar a desumanidade de situações criadas por guerras imperialistas, fanatismos religiosos e ambições econômicas que marcam tão intensamente a era contemporânea.

O que narra “Fuga” é importantíssimo. Mas o que faz dele um acontecimento, e não apenas cinematográfico, é a maneira que ele escolhe para tornar essa história real aos olhos viciados do espectador, nos privar, pela animação, da possibilidade de ver os acontecimentos.

Ao fazer isso, não é o visível que nos escapa, mas o voyeurismo —e, com ele, o sentimentalismo, isso que surge ali onde inexiste sentimento, como disse o escritor Bioy Casares. “Fuga” não deixa seu público fugir –é impossível ficar indiferente tanto ao que revela como àquilo que, ao não mostrar, nos faz ver.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.