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Como uma artista ficou obcecada e decidiu pintar o ladrão que roubou suas telas

Filme 'A Artista e o Ladrão' retrata inusitada relação entre uma pintora e um homem que luta contra o vício em drogas

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São Paulo

É 2015, e a artista tcheca Barbora Kysilkova, mais conhecida como Barbar, inaugura uma exposição numa galeria em Oslo. Suas telas, hiper-realistas, são sombrias, alegóricas. Duas delas, as maiores, ocupam a vitrine do lugar, viradas para a rua. Numa delas, duas menininhas posam para uma fotografia. Noutra, um cisne dá o último suspiro em meio à relva.

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'The Swan Song', pintura de Barbar Kysilkova de 2014 cujo roubo guia o documentário 'A Artista e o Ladrão' - Reprodução

Dias depois, ambas as obras são roubados à luz do dia. Os ladrões, filmados por câmeras de segurança, foram cuidadosos a ponto de tirar um a um os pregos que prendiam as telas —eram cem em cada uma delas.

Os criminosos são logo identificados pela polícia. O paradeiro das pinturas, não. É assim, com uma pintora em busca da sua obra, que começa o documentário "A Artista e o Ladrão", que estreia no streaming agora. E assim ele poderia seguir —não fosse um dos bandidos, Karl-Bertil Nordland, entrar em cena e na vida de Kysilkova.

Isso porque a pintora, em vez de deixar o caso de lado, decidiu se aproximar do criminoso durante o julgamento do roubo. "Ficava me questionando o que, enquanto artista, poderia fazer com o fato de que conheceria o ladrão da minha pintura. A conclusão óbvia foi que o transformaria em uma obra de arte", diz ela, por videoconferência, de um chalé na Suécia onde passou os últimos meses de pandemia. "Desde o instante em que o vi no tribunal, minha curiosidade em relação a ele só cresceu."

Na época, o documentário ainda estava a meses de começar a ser filmado. Por isso, a cena é reproduzida no filme com a ajuda de ilustrações da artista e de uma gravação de áudio improvisada, feita por Kysilkova para que ela pudesse traduzir o julgamento do norueguês depois, já que não falava a língua. "Não sabia que estava infringindo a lei fazendo isso", diz.

É a essa altura que, descobrimos, Nordland passou oito anos na prisão. A tatuagem de fora a fora no peitoral que diz "dedos-duros são uma espécie em extinção" pareceria ameaçadora não fosse o perfil magricela do ladrão, consequência do vício em heroína. Ao vivo, ele mais parece um animalzinho indefeso, ou no mínimo alguém bastante fora do ar.

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'Decent Criminal (Snitchers Are a Dying Breed)', pintura de Barbar Kysilkova de 2016 em que retrata Karl-Bertil Nordland, que roubou uma tela sua; o documentário 'A Artista e o Ladrão' conta a história - Reprodução

Mais importante, é alguém que não consegue lembrar de jeito nenhum do que fez com as telas que roubou, a despeito das sucessivas tentativas de Kysilkova. As inquisições da pintora sobre o destino das obras começam bem-humoradas e terminam impacientes, beirando o desespero.

A relação entre os dois vai se aprofundando diante da câmera do diretor Benjamin Ree, que acompanhou artista e ladrão ao longo de três anos de recaídas, hospitalizações, crises financeiras e conjugais, além de uma estada na cadeia. "Ele praticamente estava morando comigo por esse período", diz Kysilkova sobre o cineasta.

Mas também nas pinturas da artista. Kysilkova conta que, a princípio, tinha planejado reproduzir a cena do crime tal qual captada pelas câmeras de segurança. Mas os encontros com Nordland logo culminam em retratos dele sozinho, remexendo o vinho tinto na taça, encarando o próprio reflexo no espelho. Até que fica claro que o ladrão tinha se tornado a musa inspiradora da artista.

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'The Pussy in You', pintura de Barbar Kysilkova de 2017 cujo roubo guia o documentário 'A Artista e o Ladrão' - Reprodução

Críticas do filme em jornais e revistas internacionais, aliás, destacaram essa inversão de expectativas de gênero como uma das grandes sacadas do longa —na história da arte, mulheres, nuas principalmente, foram retratadas à exaustão, enquanto os homens eram mais reconhecidos pelo manejo dos pincéis.

Mas Kysilkova recusa essa leitura. "Entendo que no nosso tempo, e no tipo de sociedade em que vivemos, questões de gênero estão aparecendo. Mas quero dizer, antes de tudo, que não me vejo como uma pintora mulher. Sou uma pintora. E se minha musa é um homem, tudo bem. Poderia muito bem ser uma mulher. E tenho mais musas, não é só o Karl-Bertil", diz. "Minha musa é basicamente a humanidade toda."

Mesmo assim, sua relação com o ladrão é, sim, única, prossegue ela. "O filme é uma ligação muito especial que temos. E vendo agora as reações a ele de todo o mundo, temos uma responsabilidade de cuidar um do outro."

Ela conta que o filme, que ganhou o prêmio especial do júri no festival Sundance e chegou à lista prévia de indicados ao Oscar de documentário deste ano, também teve um tremendo impacto na sua carreira. "Numa cena, não tenho dinheiro nem para comprar café e uvas. Digamos que agora eu tenho."

Agora, ela diz esperar reencontrar Nordland, de quem está distante por causa do coronavírus —ela diz ter voltado à cidade natal, Praga, assim que irrompeu a pandemia. "Vou tentar entrar clandestimente para a Noruega pela fronteira, diz. São tantas pinturas na minha cabeça, e preciso o ver para fazer alguns esboços."

A Artista e o Ladrão

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  • Direção Benjamin Ree
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