Descrição de chapéu

Última obra de Paulo Mendes da Rocha é ato de reparação histórica

Numa metrópole que se afastou de suas águas, arquiteto nos ofertou a praia no Sesc 24 de Maio

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Francesco Perrotta-Bosch

Critico de arquitetura e autor de “Lina: Uma Biografia”

A mais etérea arquitetura entre os que flertaram com brutalismo. A bem da verdade, brutalista é uma categoria inferior (quiçá, medíocre) se comparada à monumental obra de Paulo Mendes da Rocha, que morreu neste domingo, aos 92 anos.

Junto a seu mestre João Vilanova Artigas, ele foi representante maior da Escola Paulista de arquitetura. Mendes da Rocha seguiu todo o receituário e o subverteu. Entre alunos e colaboradores de projetos, teve muitos aprendizes, mas o que fazia numa prancheta é praticamente impossível de ser reproduzido por outros. Até mesmo de decifrar.

Num fundamental artigo sobre o Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, o MuBE, publicado em 1992 na revista AU, a crítica Sophia Telles desvendou um dos aspectos mais importantes do raciocínio de Mendes da Rocha. “É o corte, portanto, que nos induz a um percurso ininterrupto do interior ao exterior, e vice-versa, numa clara demonstração da ideia moderna do espaço contínuo, constando na sequência das elevações.”

Corte é o desenho de um eixo vertical que passa por dentro da edificação. No caso de Mendes da Rocha, o corte operava como gênese ou síntese de seus projetos. No MuBE, por exemplo, um desenho em planta não ajudará muito a compreensão da obra. Nem uma foto aérea. Tampouco uma foto da fachada. Aliás, há fachadas naquela edificação?

Qual é o térreo do museu? O chão junto ao Museu da Imagem e do Som na altura da calçada da avenida Europa? O piso contíguo à rua Alemanha, no qual está o laguinho com peixes? Os patamares intermediários? Não há resposta. O MuBE não tem térreo. Não há aquilo que arquitetos e engenheiros convencionam como cota zero.

Porque não é só com a vizinhança do Jardim Europa que o museu se correlaciona. A ligação está com a América como um todo. Ela se encontra em seu discurso sobre a grande escala das cidades e das paisagens no continente. Ali se engendrava uma amarração entre os povos pré-colombianos e nossa sociedade atual. Sonhava em ligar a bacia amazônica com o rio da Prata. Assim, o MuBE transborda em muito seu exíguo lote.

A filosofia e a técnica entravam em comunhão em tudo que expressava. Estão enganados aqueles que consideravam isso tudo se tratar de sedutores discursos públicos. Nas últimas décadas, Mendes da Rocha projetava falando.

Colaboradores como os arquitetos dos escritórios MMBB, Metro, Eduardo Colonelli e seu filho Pedro Mendes da Rocha contam como o mestre elaborava astuciosas narrativas orais que orientavam cada concepção arquitetônica. Falava, falava, falava, antes de pegar o giz e desenhar na lousa, ou antes de pegar o lápis e traçar no papel, mostrando como o projeto se formalizava antes na sua cabeça para depois ser traduzido pelas mãos.

O resultado continha o peso do concreto em estruturas de grandes dimensões, permeado por detalhes delicados, como corrimões e guarda corpos feitos de linhas metálicas cuidadosamente desenhadas e dobradas para serem praticamente invisíveis ao primeiro passar de olhos.

A grande obra final, seu canto do cisne, foi o Sesc 24 de Maio. A última subversão –o que é do solo se fez aéreo. A grande e pesada piscina está na cobertura, 13 andares acima chão do centro de São Paulo. É, sobretudo, um ato de reparação histórica. Numa metrópole que se afastou de suas águas, escondeu seus córregos sob o asfalto, poluiu seus rios, Paulo Mendes da Rocha nos ofertou a praia.

Não é à toa que ele ganhou todos os principais prêmios internacionais que um arquiteto vivo poderia receber –o Pritzker, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, a medalha de ouro do Real Instituto de Arquitetos Britânicos, o Riba, o Prêmio Imperial do Japão. Todas as celebrações foram justas. Sem dúvida é o arquiteto brasileiro mais laureado. E com justiça.

Paulo Mendes da Rocha morre e adentra o seleto panteão dos principais arquitetos brasileiros, ao lado de Artigas, Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy e Lina Bo Bardi. Felizardo é o país que teve arquitetos desse quilate.

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