A literatura pode dar vida às histórias improváveis, afirma autor de 'Torto Arado'

Itamar Vieira Júnior foi entrevistado pelo escritor Marcelino Freire em painel do 9º Festival Literário no Vale do Ribeira

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São Paulo

Se para alguns a literatura pode ser apenas a manifestação de uma vocação pessoal, para o escritor Itamar Vieira Júnior, que considera esta arte a sua "religião", a escrita é capaz de transmitir uma experiência particular para o leitor.

"Nela, podemos dar vida às coisas e histórias mais improváveis, criando vozes seja para um espírito, para o vento, o oceano... Podemos ser tudo", afirma o autor do romance "Torto Arado", vencedor do prêmio Jabuti.

Vieira Júnior, que também é colunista deste jornal, trouxe suas impressões e processos acerca da literatura em conversa com o escritor Marcelino Freire, de "Contos Negreiros", em um evento online do 9º Festival Literário no Vale do Ribeira nesta segunda (28).

Sua reflexão sobre a capacidade da literatura em dar corpo a narrativas incertas surgiu quando questionado por Freire sobre a origem da Santa Rita Pescadeira, uma entidade espiritual de grande importância no enredo de seu livro premiado.

Além de escritor, Vieira Júnior é geógrafo e servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), trabalhando com situações ligadas a trabalhadores do campo e conflitos agrários. Os dois caminhos se cruzaram quando ele foi realizar um trabalho na Chapada Diamantina.

Nessa experiência, além de encontrar a comunidade quilombola de Iúna, tema do seu doutorado, encontrou também o cenário de uma história inacabada que iniciara na adolescência e cujos originais se perderam. "Quando retomei essa escrita, 20 anos depois, a história migrou de um lugar qualquer para a Chapada Diamantina", contou ele.

Lá, Vieira Júnior teve contato com o jarê, uma crença originária da região que, durante o período de garimpo, no século 19, resultou da união das culturas de trabalhadores negros do Recôncavo Baiano, de Minas Gerais e da população nativa.

"Esse afluxo de trabalhadores criou essa religião que mistura catolicismo rural, xamanismo e a tradição africana e é muito ligada à natureza e à ancestralidade", disse o escritor. Foi nela, enfim, que se deparou com a figura da encantada Santa Rita Pescadeira. Ou melhor, com a sua ausência.

"Eu sempre perguntava sobre ela e ninguém sabia dizer como ela era, quais eram seus gestos", relembrou, citando a presença de outros seres espirituais característicos, como o Mineiro e o Nadador, que conversavam com particularidades locais.

"As pessoas que incorporavam essa entidade já tinha morrido. Não sobrou ninguém que soubesse dar continuidade a sua tradição. Achei essa ausência algo formidável. Fui devolvendo a vida para ela na literatura", declarou o escritor.

Apesar de se tratar de uma figura religiosa, Vieira Júnior contou ter pleno domínio imaginativo da personagem, e foi deduzindo quais seriam seus atributos por meio de uma pesquisa local. A partir do nome, por exemplo, imaginou que seus gestos deveriam remeter às ondas dos rios e que teria a capacidade de pescar as mágoas das pessoas, devolvendo um alívio do corpo e do espírito.

"A literatura está aqui para dar vida e sentido às histórias que não podemos mais tocar, seja pela brutalidade da nossa história, seja pelo tempo que passou", disse ele. "Não há um compromisso com a verdade histórica, mas ela nos permite adentrar subjetividades."

No seu romance protagonizado pelas irmãs Belonisia e Bibiana, de origem quilombola, uma das crianças acaba cortando a própria língua com uma antiga faca da avó. A metáfora clara para a situação de silenciamento dessas vozes repercute a vontade do escritor baiano em tentar preencher as lacunas da tradição negra e indígena na literatura.

Ele pontua, porém, que é fundamental enteder a importância da diversidade nas artes como uma expressão da pluralidade de vozes presentes na sociedade. "Se as pessoas julgarem essa literatura apenas como uma afirmação, elas não conseguiram sair de suas bolhas e entender o mundo que as cerca."

O escritor buscou resgatar algo dessa diversidade também na escolha dos nomes de suas personagens, que, ainda que “não fossem bonitos, são fortes, e espelham a trajetórias delas”. Para ele, o ideal seria encontrar algo que repercutisse a força de uma Blimunda –de “Memorial do Convento”, do português José Saramago–, que, por suas características marcantes, é capaz de sintetizar todas as qualidades do romance que protagoniza.

Figuras negras e, em sua maioria, femininas são as que recebem maior destaque também no recém-lançado "Doramar ou a Odisseia". O livro compila sete contos já publicados em "A Oração do Carrasco", de 2017, e cinco inéditos.

Para uma pessoa cuja formação em casa não acompanhou uma forte presença de livros e revistas, Vieira Júnior destacou que as histórias dos parentes mais velhos abasteciam seu apetite por narrativas. "É uma família de muitas histórias e muitos segredos, que, quando crianças, escutávamos atrás da porta."

Além de referência para o caráter de suas personagens, Vieira Júnior destacou também que aprendeu muitos artifícios das narrativas orais que somente depois pôde comparar com as diferentes vozes e narradores que descobriu no colégio e desenvolveu em sua obra. "A oralidade aproxima a literatura da vida", conclui ele.

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