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James Wood é melhor ao criticar a literatura alheia do que ao escrever

'Upstate', primeiro romance do crítico a sair no Brasil, é um drama em tom menor, quase desprovido de ação

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Upstate

  • Preço R$ 69,90 (248 págs.)
  • Autor James Wood
  • Editora Sesi-SP
  • Tradução Leonardo Fróes

“Upstate” é o segundo romance publicado pelo crítico literário inglês James Wood e o primeiro a sair no Brasil. Na época de seu lançamento internacional, em 2018, não faltaram resenhas comparando os dois lados da obra do autor, o analítico e o imaginativo, com desvantagem para o segundo.

Considerando-se a autonomia dos gêneros, pode parecer injusto afirmar que o renomado crítico da revista New Yorker e autor de “Como Funciona a Ficção” se sai melhor falando da literatura alheia do que escrevendo a sua. No entanto, é praticamente inevitável, além de verdadeiro.

Homem branco calvo
James Wood, crítico literário e ex-professor de prática de crítica literária da Universidade Harvard - Hans Glave/ The American Academy Berlin

“Upstate”, que conservou o título original na tradução —trata-se do nome informal do estado de Nova York acima da região metropolitana—, é um drama em tom menor, passado em poucos dias e quase desprovido de ação. Acompanha Alan Querry, um "self-made man" viúvo do norte da Inglaterra na casa dos 60 anos, em sua visita aos Estados Unidos para tratar de um delicado assunto de família.

Além de acossado por problemas financeiros e aflito com a chegada da velhice, Querry está preocupado com a saúde mental de sua filha mais nova, a instável e retraída professora de filosofia Vanessa, que mora com o namorado americano em Saratoga Springs, no tal Upstate.

O encontro de família tem certa grandiosidade: com Alan vai Helen, sua filha mais velha, despachada executiva londrina de uma grande gravadora, também preocupada com a irmã —com a qual, no entanto, tem pouco em comum. A expectativa de grandes revelações e lavação de roupa suja é frustrada. Wood está mais interessado na mecânica dos desencontros.

Em meio à neve que dá a Saratoga Springs um metafórico ar desolado, os três personagens se veem por dias seguidos, quase sempre em torno de alguma refeição. Falam bastante, mas calam mais ainda. A maior parte do que sabemos sobre eles vem de seus pensamentos, dos monólogos interiores que o narrador capta —os de Alan com frequência maior, os de Helen e Vanessa em incursões providenciais quando necessário.

Como se vê, o campo está aberto para o exercício do discurso indireto livre que Wood, o crítico, exalta como uma espécie de oxigênio da ficção moderna. Alguma coisa, porém, desanda: a subjetividade não torna nenhum dos três um personagem sedutor.

Outra das preferências do crítico, o apuro de linguagem de estilistas como Flaubert e Nabokov, também se faz presente, pelo menos como intenção. Há momentos felizes nesse sentido. Em seu quarto de hotel americano, Alan encontra uma “gigantesca e imponente TV, pendurada como uma mesa vertical”.

Outras imagens são no mínimo intrigantes, como a dos executivos que fecham negócios “com o fone amorosamente aconchegado no ombro como um lêmure de estimação”.

Nessas horas, quase podemos ver o autor sorrindo satisfeito com a lição aprendida com os mestres: o cultivo meticuloso do detalhe, da imagem inusitada e reveladora, como a “coisa pernuda” ("leggy thing") em que Nabokov transforma um quebra-nozes no romance “Pnin” —uma sacada que leva Wood ao êxtase em “Como Funciona a Ficção”.

O problema é que, quando o autor perde a mão, o mesmo impulso pode dar em frases preciosistas que pesam mais do que valem. “A luz do sol de inverno jogou uma trêmula adaga de claridade que atravessou sua mão esquerda, pondo as veias de adulta e a adulta aliança de mulher casada em destaque, atravessou o New York Times do pai e por fim descorou ligeiramente o jogo virtual de paciência por ela aberto no laptop.”

O conservadorismo estético do crítico James Wood, severo mas apaixonado, tem um lado revigorante. Em seus melhores momentos, expõe o que pode haver de mistificador, trivial ou simplesmente aborrecido na prosa de ficção do último meio século, do chamado pós-modernismo em diante.

Quando ele põe em prática seu credo passadista, porém, a baixa voltagem artística do resultado funciona como um lembrete de por que, afinal, aqueles pós-modernos e “realistas histéricos” —para usar uma expressão woodiana— decidiram um dia que seguir os passos de Flaubert já não seria suficiente.

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