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'A Origem da Espécie' inspira ao buscar origem do mito do fogo roubado

Alberto Mussa retoma antiga ambição dos antropólogos e folcloristas, mas é inevitável que algumas pontas fiquem soltas

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A Origem da Espécie: O Roubo do Fogo e a Noção de Humanidade

  • Preço R$ 36,96 (ebook, 353 págs.)
  • Autor Alberto Mussa
  • Editora Record

Entre as incontáveis histórias narradas por seres humanos hoje, pelo menos uma remonta à própria origem da nossa espécie.

É a narrativa mítica do roubo do fogo primordial —um mesmo enredo básico presente em tantos locais e momentos diferentes que a única explicação razoável é atribuir aos ancestrais comuns de toda a humanidade.

Se a hipótese aventada aqui estiver correta, essa “mãe de todas as histórias” teria uma idade entre 300 mil anos e 150 mil anos, argumenta o escritor carioca Alberto Mussa em seu novo livro, “A Origem da Espécie: O Roubo do Fogo e a Noção de Humanidade”.

capa de livro
Capa de 'A Origem da Espécie', do escritor carioca Alberto Mussa - Reprodução

No ensaio, que inclui ainda um pequeno compêndio de centenas de narrativas tradicionais sobre o tema, o autor retoma uma antiga ambição dos antropólogos e folcloristas –desvendar a origem dos mitos e da própria capacidade simbólica da mente humana, cuja principal manifestação é a linguagem.

Mussa já tinha demonstrado seu pendor para o estudo comparativo das mitologias ao escrever “Meu Destino É Ser Onça”, livro de 2011 em que usa os relatos de cronistas do Brasil colonial para reconstruir a feição original das narrativas cosmogônicas das tribos tupis, antes da chegada dos europeus.

Na nova obra, ele emprega métodos semelhantes numa escala muito maior, que leva em conta todos os principais grupos linguísticos e culturais do mundo moderno.

homem branco e careca, de óculos, diante de estante de livros
O escritor carioca Alberto Mussa, autor dos livros 'A Origem da Espécie' e 'Meu Destino É Ser Onça' - Paula Johas/Divulgação

Com efeito, foi por meio de tais métodos comparativos que especialistas do século 19 conseguiram demonstrar, por exemplo, que existem grandes famílias linguísticas em vastas regiões do mundo, resultado de expansões culturais —e, em alguns casos, também populacionais— muito anteriores ao advento da história escrita.

É o caso dos chamados idiomas indo-europeus, um grupo amplo o suficiente para abarcar o português, o inglês, o grego e o hindi, uma das línguas oficiais da Índia. Tudo indica que as mais de 400 línguas indo-europeias, hoje faladas por quase metade da humanidade, descendem, digamos, de um único ancestral comum, talvez espalhado por cavaleiros das estepes do mar Negro há 5.000 anos.

A forma original dessa língua-mãe, o protoindo-europeu, chegou a ser reconstruída hipoteticamente pelos linguistas, com base nas transformações dos sons e da gramática que poderiam ter dado origem à diversidade atual do grupo. E esse mesmo trabalho de recriação também tem sido feito com os mitos indo-europeus, buscando as formas possivelmente originais do panteão, isto é, o conjunto de deuses, e de certas narrativas semelhantes na mitologia dos gregos, antigos hindus e escandinavos pagãos, entre outros grupos.

Os estudiosos já perderam a esperança de reconstruir o equivalente do protoindo-europeu para a humanidade inteira —tudo indica que as mutações na estrutura das línguas acontecem num ritmo tão rápido que, após cerca de 10 mil anos de separação, qualquer sinal de parentesco é apagado. Mas a comparação entre mitos ainda é possível, independentemente da diferença de idioma, e é nela que Mussa deposita parte de suas esperanças.

Usando uma base de dados que abrange todas as principais famílias linguísticas do planeta, o autor constata que mitos sobre o roubo do fogo primordial estão presentes em quase todas essas culturas e, na maioria dos casos, são muito mais comuns do que outros tipos de narrativa sobre o mesmo tema —aquelas em os seres humanos recebem o fogo de graça ou o inventam por conta própria.

mapa
Mapa indicando os países em que foram identificadas narrativas míticas sobre o roubo do fogo primordial reproduzido no livro 'A Origem da Espécie', do escritor carioca Alberto Mussa - Reprodução

Ainda seguindo esse método comparativo, com base nas formas mais frequentes do mito, o escritor reconstrói o esqueleto do que seria a versão original do mito —próxima do mito grego do titã Prometeu, mas não idêntica a ela.

Nesse “protomito”, o fogo seria imaginado como posse de um ser sobrenatural. Um ladrão, que misturaria traços humanos com o de uma criatura alada, surrupia o fogo e o entrega de graça à humanidade, o que desencadeia uma punição. No caso de Prometeu, por exemplo, o fogo é roubado dos deuses do Olimpo e dado aos seres humanos, e o ladrão benfazejo é punido por Zeus, o rei das divindades, com a prisão num rochedo e o envio de uma águia que come seu fígado todos os dias.

Mussa tenta integrar suas conclusões na área da mitologia comparativa com o que a arqueologia e a genômica descobriram sobre as origens do Homo sapiens. De fato, diversos estudos indicam que todos os seres humanos vivos hoje descendem quase exclusivamente de um pequeno grupo de imigrantes africanos que se espalhou pelo globo a partir de cerca de 100 mil anos atrás, o que poderia fortalecer a ideia de uma mitologia comum no passado profundo.

Além disso, a produção e o controle do fogo, que parecem ter sido descobertos por etapas ao longo de centenas de milhares de anos, e certamente já tinham alcançado sua plenitude entre a população africana ancestral, foram cruciais para a dieta e a cultura dos primeiros seres humanos. Cozer os alimentos permite uma absorção muito mais eficiente de calorias e nutrientes, sustentando cérebros volumosos e sedentos de energia.

É inevitável que, numa empreitada tão ambiciosa quanto a proposta pelo livro, algumas pontas fiquem soltas. E não há como separar a coleta e comparação de dados dos saltos criativos quanto grande parte das evidências sobre os mitos do passado remoto não pode ser obtida diretamente. Mesmo assim, há algo de inspirador em tentar uma aliança tão próxima entre ciência e mito. Prometeu abriria um sorriso, mesmo sendo bicado pela águia de Zeus.

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