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Tarcísio Meira foi nosso Marcello Mastroianni, magnético e belo

Paralelos entre o brasileiro e o italiano vão do carisma indiscutível ao reconhecimento tardio por parte da crítica

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Morreu nesta quinta o maior galã da história da TV brasileira. Ao longo de mais de meio século, Tarcísio Meira foi uma estrela, quase no sentido literal da palavra —o astro em torno do qual orbitam outros corpos de menor brilho.

A primeira razão para esse estrelato era a beleza física. Meira tinha o rosto quadrado, que fotografa bem de qualquer ângulo. Compartilhava com Robert Redford e Brad Pitt um traço típico dos homens bonitos –as mandíbulas bem definidas.

O ator Tarcísio Meira caracterizado como João Coragem na novela “Irmãos Coragem"
O ator Tarcísio Meira caracterizado como João Coragem na novela 'Irmãos Coragem', de Janete Clair, exibida entre junho de 1970 e junho de 1971 - Arquivo Nacional/Correio da Manhã

Mas só beleza não basta, é claro. Quantos modelos lindos não fracassam quando tentam fazer TV? Carecem de presença em cena. A Tarcísio Meira, no entanto, nunca faltou carisma. O olhar intenso era realçado por grossas sobrancelhas. A voz, límpida e firme –que ele, no entanto, achava baixa demais para o teatro.

Isso não o impediu de se arriscar no palco algumas vezes. A última foi como o velho ator de “O Camareiro”, texto do britânico Ronald Harwood em vias de se tornar um clássico. A peça estreou em 2015 e teve temporadas até o começo do ano passado, logo antes da pandemia. Meira estava magistral.

Nem sempre foi assim. Nas primeiras décadas de carreira, o ator cumpriu um papel incontornável no showbiz, o do canastrão. Resvalava facilmente para o "overacting", cheio de excessos. É verdade que seus personagens em novelas como “A Gata de Vison” ou “Sangue e Areia”, ambas de 1968, pediam uma atuação intensa, exagerada. E o fato é que ninguém se importava.

Com a modernização da teledramaturgia brasileira a partir de “Beto Rockefeller”, novela exibida pela Tupi em 1969, Tarcísio Meira foi ganhando papéis mais complexos. Sempre como protagonista –fez pouquíssimos coadjuvantes ao longo da vida. E, assim, sua persona dramática foi ganhando nuances.

Os mocinhos puros e duros deram lugar a figuras contraditórias, como o milionário Hugo Leonardo, de “O Semideus”, de 1973, ou o empresário Antonio Dias, de “Escalada”, de 1975, que larga a mulher por um novo amor.

Tarcísio Meira foi aos poucos, e diante dos nossos olhos, se tornando um grande ator. Sua estampa majestosa garantiu personagens em posições de poder, que ele soube, com inteligência e dedicação, tornar bem diferentes uns dos outros.

Quando chega, em 1986, ao Renato Villar de “Roda de Fogo” —um magnata que, sabendo ter pouco tempo de vida, decide acertar contas com o passado—, está em plena posse de suas muitas qualidades.

O ator foi um dos poucos galãs de sua geração que furou a bolha da TV e filmou com alguns dos nossos maiores cineastas, como Glauber Rocha, Walter Hugo Khouri ou Arnaldo Jabor. Na telona, se arriscava ainda mais. Não hesitou em beijar Ney Latorraca na boca em “O Beijo no Asfalto”, de Bruno Barreto, de 1981, numa época em que sua imagem pública era a de um homem viril e “incomível”.

O casamento de seis décadas com Glória Menezes foi um desalento para as colunas de fofocas. O casal simplesmente jamais transpareceu qualquer rusga. Apareciam sempre juntos, sorridentes, a ponto de dispensarem sobrenomes e se tornarem quase que uma única entidade, "Tarcísio e Glória", dito num fôlego só. “Tarcísio e Glória”, aliás, foi uma série que os dois estrelaram em 1988.

No ano passado, em meio à reestruturação interna da Globo, ambos não tiveram seus contratos renovados, depois de mais de 50 anos na emissora. De um ponto de vista financeiro, fazia sentido —os salários altos que ainda recebiam não eram justificados por eventuais participações especiais, cada vez mais raras. Mas foi um desastre de marketing. Parte do público sentiu que seus próprios pais haviam sido despejados, depois de uma vida inteira de serviços prestados. A Globo podia ter passado sem essa.

Tarcísio Meira foi o nosso Marcello Mastroianni. Os paralelos entre o brasileiro e o italiano são vários –a beleza física, a presença magnética, o talento que foi crescendo e aflorando a cada novo trabalho, o reconhecimento algo tardio da crítica, a unanimidade entre os colegas.

O ator Marcello Mastroianni em fotografia sem data - Archive Photos/Jerry Bauer/Reuters

Mas não quero ser chamado de colonizado. Mastroianni é que foi o Tarcísio Meira da Itália.

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