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Europa refugiados

'Eu Não Choro' não é um filme para aquecer os corações nestas férias

Filme polonês sobre jovem que viaja para buscar restos mortais do pai mergulha nas angústias dos emigrantes

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Eu Não Choro

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Zofia Stafiej, Kinga Preis, Arkadiusz Jakubik
  • Produção Polônia e Irlanda, 2022
  • Direção Piotr Domalewski

Sendo polonês, ninguém esperará que "Eu Não Choro" seja um filme otimista. Tanto mais que a família da protagonista, a jovem Olka, não é propriamente realizada —o pai é um operário trabalhando na Irlanda para sustentar a mulher, o filho tem problemas motores e mentais. Na trama se luta com todo tipo de dificuldade, em suma.

Para completar, o pai morre em um acidente de trabalho, e a filha, a quem ele tinha prometido um carro com o dinheiro ganho exterior, é quem fica encarregada de buscar seu corpo.

Digamos que Olka não é uma florzinha. Nunca chora, como bem explicita o título. Em compensação, também nunca ri. Parece disposta a enfrentar um mundo em que a adversidade é o que há de mais frequente em seu cotidiano.

Ainda assim, na Irlanda as provas são duras. Quando vai à agência de empregos, fura uma fila imensa para falar com o encarregado. Não hesita em tentar chantagear o funcionário. É informada na firma em que o pai se acidentou que ele trabalhava fora de horário, portanto ilegalmente, e ela não terá direito a nenhuma indenização. Ela também tentará chantagear a firma. Nada consegue.

Por fim, resta a ela procurar o dinheiro que ele deveria ter economizado, o que supõe uma pequena odisseia. Olka deve encontrar os antigos colegas do pai para saber dos seus hábitos, reencontrar pertences das mais diferentes maneiras, ficar por vezes fora da lei, ou até se embebedar com alguns jovens desconhecidos. Breve, tudo parece se opor a ela. Essa não é uma história para aquecer os corações em tempos de férias.

cena de filme
A atriz Zofia Stafiej em cena do filme 'Eu Não Choro', dirigido pelo cineasta polonês Piotr Domalewski - Divulgaçãi

E, no entanto, contra toda expectativa, "Eu Não Choro" não é um filme arrastado ou enfadonho. O diretor Piotr Domalewski imprime um ritmo intenso o bastante para que possamos partilhar os problemas de Olka —que ocorrem não só na Irlanda, mas também na Polônia, observados nas ligações telefônicas dela para a mãe—, sem que seu gênio um tanto monótono, em que uma tenacidade invulgar convive com um mau humor idem, contamine o conjunto do filme.

Com isso, "Eu Não Choro" consegue dar conta de algumas questões que se apresentam quase como se não quisessem estar lá. A primeira delas diz respeito à angústia do emigrante. Ainda que o pai da protagonista tenha sido recebido legalmente no país onde foi trabalhar, os empregos lá são precários —de preferência, aqueles que os locais se recusam a fazer. As habitações também são econômicas ao extremo, porque o objetivo é ganhar dinheiro para sustentar a família distante.

A segunda diz respeito àqueles que recebem esse dinheiro para sustento. Voltamos então a Olka —ela mal conhece o pai, tudo que espera dele é ganhar um carro. Isso também parece ser tudo o que os liga. Como terá ele vivido a expectativa de presentear a filha? Terá mesmo guardado dinheiro para isso? E onde? Ainda assim, caso o encontre, agora o dinheiro será necessário para repatriar o corpo.

A partir de Olka e de sua determinação conhecemos um pouco desse pacto secreto entre países fornecedores e países receptores de mão de obra. Esses últimos fingem que não querem saber de imigrantes, não raro os deporta —não é o caso aqui, porque tudo se dá no quadro da União Europeia— e sempre os despreza. Já os países fornecedores de mão de obra fingem não querer nada com esses tipos que deixam a sua terra para ganhar a vida no exterior. É como se fossem uns renegados. No entanto, a pátria espera ansiosa pelas divisas que enviam todo mês.

É graças ao mau humor permanente de Olka que entramos nessas questões. Ao mesmo tempo, conhecemos a garota bem pouco —não é uma inconformada, uma rebelde, uma antissistema de qualquer espécie. Talvez não saiba mesmo quem é. Afinal, ela é uma adolescente de 17 anos, tão confusa quanto quase todas as outras. Seu único consolo para as privações da vida parece ser o cigarro que faz companhia a ela em tempo integral. (Sim, companhias de cigarro adoram financiar filmes com tal elemento.)

Pode ser que ela mesma passe a saber um pouco mais de si na cena final, momento em que todas as tensões pelas quais passa vêm à tona.

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