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'Flee', animação indicada ao Oscar, mostra jornada turbulenta de refugiado gay

Documentário que fez história na premiação nasceu a partir da amizade de cineasta e um expatriado do Afeganistão

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São Paulo

Em três corridas do Oscar deste ano, a presença de um mesmo indicado chamava a atenção por destoar dos outros concorrentes. Em melhor documentário e filme internacional, isso acontecia porque o filme em questão era um desenho. Já em melhor animação, era por estar muito distante da fantasia e leveza de "Encanto" ou "Luca".

Foi assim, com certa surpresa, que o documentário animado dinamarquês "Flee: Nenhum Lugar para Chamar de Lar" se tornou a primeira obra na história do Oscar a ser indicada a essas três estatuetas. Acabou não levando nenhuma, mas colheu elogios e um público imenso durante a temporada, e agora chega aos cinemas brasileiros.

Cena do filme "Flee: Nenhum Lugar para Chamar de Lar", de Jonas Poher Rasmussen
Cena do filme "Flee: Nenhum Lugar para Chamar de Lar", de Jonas Poher Rasmussen - Divulgação

O longa narra a história real de Amin, um homem afegão que mora na Dinamarca e está prestes a se casar. Ao ser confrontado com o fato de seu noivo não conhecer seu passado, ele decide se abrir com o amigo Jonas Poher Rasmussen, que recriou as conversas por meio de desenhos e agora assina a direção de "Flee".

Em chamada por vídeo, já na ressaca pós-campanha pelo Oscar, o cineasta diz que "nem em meus sonhos mais loucos" imaginava receber tanta atenção. Ele entende que era difícil vencer o homenzinho dourado com a competição mais americanizada e menos nichada que tinha, mas celebra o fato de as indicações terem levado a mensagem de "Flee" adiante.

Afinal, esse é um filme urgente, especialmente em meio à nova onda de refugiados causada pela guerra na Ucrânia e pela retomada do Afeganistão pelo radicalismo do Talibã nos últimos meses.

Amin é, ele próprio, um refugiado afegão. Ele deixou seu país pelas mãos de contrabandistas nos anos 1990, primeiro em direção à Rússia soviética, onde foi hostilizado e chantageado pela polícia enquanto sua família juntava dinheiro para mandá-lo à Europa Ocidental. Depois, conseguiu, enfim, chegar à Dinamarca, onde decidiu suprimir essa parte de sua vida.

"Eu conheci o Amin quando nós tínhamos 15 anos e ele se mudou para a minha cidadezinha dinamarquesa. Nós nos víamos todas as manhãs no ponto de ônibus para a escola e fomos nos tornando bons amigos", diz Rasmussen. "Eu sempre fiquei curioso para saber sua história, mas ele não queria falar sobre isso, o que criou alguns espaços em branco na nossa amizade."

Foram anos para que Amin se sentisse à vontade e para que "Flee" fosse lançado, hoje com a dupla aos 40 anos. A ideia do cineasta dinamarquês não era fazer um filme sobre um refugiado qualquer, mas criar uma trama pessoal, uma homenagem à amizade dos dois, embora não pudesse revelar a identidade do protagonista para o público.

Foi então que surgiu a ideia de fazer "Flee" como uma animação, o que resolveu outro problema –nenhum dos dois tinha acesso a fotos e outros arquivos sobre a infância e a fuga de Amin, então toda essa parte precisou ser recriada por meio de registros históricos, técnicas de animação e influências de artistas visuais.

Nas cenas, vemos a versão animada do próprio Rasmussem sentada à frente de Amin, portando uma câmera e fazendo perguntas, numa dinâmica padrão do cinema documental.

Quando o protagonista começa a falar, o público é mergulhado em desenhos que tratam de sua infância no Afeganistão –ouvindo música pop num walkman rosa–, a adolescência na Rússia –onde foi pego por policiais enquanto via a inauguração do primeiro McDonald’s do país– ou em sua perigosa travessia marítima rumo à Escandinávia.

Essas lembranças se alternam com cenas do presente, em que Amin procura uma casa para morar com o futuro marido ou fala de seu trabalho.

"Eu queria que essa história fosse sobre uma amizade, acima de tudo, sobre a dinâmica desses dois amigos. Foi a forma que encontrei para dar mais nuances à trajetória do Amin, mostrar outros aspectos mais humanos dele", explica Rasmussen. "O Amin não é definido por seu status de refugiado, isso é seu passado. Ele é também um homem gay, um acadêmico brilhante, um dono de casa, um amante de gatos e várias outras coisas."

Numa das cenas mais doces e humanas do filme, Amin conta aos irmãos que é gay. O mais velho, então, diz apenas para que ele pegue seu casaco e o siga até o carro. Ele dirige num silêncio desesperador, até uma fachada com um letreiro em luzes neon. Ele dá um pouco de dinheiro ao protagonista e diz a ele que se divirta.

A maneira como a cena se desenrola, e o histórico homofóbico compartilhado por tantos homens gays, nos faz pensar que aquilo se trata de uma demonstração de virilidade, uma "correção". Mas quando passa pela porta, Amin encontra um mundo cor-de-rosa, povoado por homens diversos, alguns descamisados, dançando.

Naquele momento, ele finalmente estava livre para viver sua homossexualidade. Agora, com "Flee", também está livre para se abrir ao mundo e superar seus traumas, diz Rasmussen.

Flee: Nenhum Lugar para Chamar de Lar

  • Quando Estreia nesta quinta (21), nos cinemas
  • Classificação 14 anos
  • Produção Dinamarca, 2021
  • Direção Jonas Poher Rasmussen
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