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Cinema festival de cannes

'Top Gun: Maverick' tem Tom Cruise machão com aviões que evocam pênis

Nova versão do filme destaca o astro de Hollywood em ode nostálgica à testosterona digna dos velhos blockbusters

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Logo no início de "Top Gun: Maverick", continuação do clássico dos anos 1980, um militar de alta patente vivido por Ed Harris vai empilhando todas as mil conquistas e credenciais do piloto de caças Pete "Maverick" Mitchell, interpretado por Tom Cruise. "Gente como você está em vias de extinção", diz.

A fala do personagem de Harris é tanto uma tirada bem-humorada em relação ao incansável Cruise, que às vésperas de completar 60 anos nem cogita deixar de lado o eterno papel de mocinho na tela grande, quanto um dos muitos apelos aos nostálgicos que esperam caçar no novo filme referências à obra original.

E o novo "Top Gun" entrega tudo aquilo que promete. Estão ali os tais ases indomáveis do título original com suas competições de macheza a bordo de caças supersônicos, e as piruetas aéreas, agora retratadas com agilidade de videogame, além da trilha sonora à base de sintetizadores saídos direto dos anos 1980.

cena de filme
Tom Cruise em cena do filme 'Top Gun: Maverick', exibido no Festival de Cannes de 2022 - Divulgaçao

Analisado como um blockbuster que ele é, temos aqui um título bem acima da média da pasmaceira dos super-heróis da Marvel e suas tiradas infantilizadas. Vale pela nostalgia despudorada. Até o ator Val Kilmer, que participou do longa original, retorna e, debilitado pelo câncer de garganta, faz uma participação que chega a ser tocante.

"Top Gun: Maverick" é uma clara elegia aos arrasa-quarteirões de antigamente, como foi o primeiro. Não tem a menor preocupação em disfarçar a sua ode à testosterona e ignorar qualquer aceno ao feminismo. Tudo bem, agora temos uma mulher piloto no time, mas no fundo, quem prevalece mesmo são aqueles rapazes pilotando aviões como se fossem suas extensões fálicas e disputando quem é o melhor.

Estão ali os roncos dos motores, os óculos de aviador, as jaquetas verde-musgo e as motocicletas rodando em estradas vazias sob luzes crepusculares. Mais sinais óbvios de exaltação à potência masculina, impossível.

O longa até repete a famosa cena do jogo de vôlei de praia do primeiro filme, que despertou suspiros por gerações de homens e mulheres. Agora, há uma partida de futebol americano na areia e quem exibe o torso nu são os novos garotões enquanto Cruise tira a sua blusa só por um pedacinho, exibindo um peitoral que já viu dias melhores, e logo se retira, humilde.

Na trama, o ator retoma o papel do filme de 1986, o piloto intrépido e não muito afeito a seguir as regras. Agora, mais de 30 anos se passaram dos eventos do filme original e o encontramos ainda no mesmo lugar de sempre, o cockpit de um caça.

Maverick é então convocado a treinar um time de jovens pilotos para que possam executar uma missão secreta num país inimigo. O lugar não é revelado, muito provavelmente para evitar melindres geopolíticos ou oportunidades comerciais, mas as paisagens nevadas denunciam uma possível Sibéria.

Entre os rapazes que ele precisa treinar está Rooster, interpretado por Miles Teller, o filho crescido do seu antigo companheiro de asas, Goose, morto no primeiro filme num acidente com o caça pilotado por Maverick. Fica então estabelecido desde logo o conflito entre instrutor e aluno que vai permear o longa.

Cruise, que produz o filme, é bem esperto. Ao contrário de Harrison Ford e Sylvester Stallone —que nos últimos anos também reprisaram papéis famosos em suas versões envelhecidas, mas legaram o protagonismo a gente mais nova, como Ryan Gosling e Michael B. Jordan—, ele escolheu Teller, de "Whiplash", para ser seu sucessor mais novo. Ou seja, convocou um ator competente, mas que não tem nem brilho nem carisma que pudessem ofuscar os seus em cena.

Vai ser impossível fazer com que o novo "Top Gun" ocupe o mesmo lugar central na mitologia hollywoodiana do que o primeiro, feito no auge da era Reagan, com suas enormes bandeiras americanas tremulando, sua ode ao heroísmo individual e todas as suas frases de efeito que fizeram dele um dos filmes mais simbólicos dos anos 1980.

O novo é mais um tributo, nostálgico e honesto, a um tempo que se foi, quando os filmes só estreavam na tela grande do cinema. Seu maior poder para tentar atrair multidões é mesmo o carisma de Tom Cruise, talvez o único superastro que ainda não aderiu às séries do streaming e só quer saber da tela grande.

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