Descrição de chapéu Artes Cênicas

Eliane Giardini e Marcos Caruso pensam a velhice com humor de 'Avenida Brasil'

'Intimidade Indecente' chega a São Paulo após Portugal e Rio e espanta jovens que temem pelo próprio futuro

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Gustavo Zeitel
Rio de Janeiro

Finda a sessão da peça "Intimidade Indecente", Marcos Caruso, de 70 anos, deixou o camarim, tarde da noite, e se dirigiu à saída do Teatro dos Quatro, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro. Na fila para cumprimentar o ator, estavam algumas senhoras de perfume adocicado e uma jovem de 23 anos.

Já vazia a antessala do teatro, a moça deitou a cabeça entre os braços de Caruso e, chorando, lhe disse baixinho — "eu não sei se no futuro alguém vai me amar assim, a ponto de vir me buscar no fim da vida."

Para Caruso, a frase não só rompeu a mecânica do encontro com a plateia depois do trabalho, como iluminou um aspecto até então oculto no texto de Leilah Assumpção, escrito em 2001. Ao tratar da velhice, a peça encontra apelo imediato no topo da pirâmide etária, hoje responsável por ocupar as salas de teatro do país. Ao mesmo tempo, a anedota, irreplicável em outra arte, era a prova de um elo de comunicação com a juventude.

Eliane Giardini e Marcos Caruso posam para foto no no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro - Lucas Seixas/Folhapress

Aos indícios de senilidade do casal Mariano, interpretado por Caruso, e Roberta, papel de Eliane Giardini, os mais velhos tendem a gargalhar, tamanha identificação. Já os mais novos, entram em pânico, confabulando as mais diversas desgraças que o futuro lhes reserva.

"Intimidade Indecente", que estreia na sexta-feira (17) em São Paulo, se inicia numa cena em que o casal, já na casa dos 60 anos, luta para encaixar braços e pernas, enquanto Mariano sente uma falta de tesão geral pela vida.

Naquela altura, o cotidiano havia se tornado uma mesmice para aquele homem de classe média, com o horizonte a cada dia menor. Quando tudo era só chatice, Mariano admite, numa das brigas com Roberta, ter um caso com a amiga da filha, provocando a separação com a parceira de toda a vida.

O distanciamento, porém, não é tarefa fácil para nenhum dos dois. Entre rolos e desenrolos amorosos, eles seguem se frequentando ao longo do tempo. Admitir a saudade não é uma opção, sobretudo para Mariano, que, mesmo idoso, tenta dar provas de sua virilidade.

Apenas um sofá branco está em cena, simulando a sala de estar do apartamento de Roberta. Desde a separação, a montagem acompanha as quatro décadas seguintes do casal. Os atores não usam maquiagens nem trocam de figurino com a passagem do tempo. A velhice é alcançada pela interpretação da dupla no palco.

"A gente tem uma certeza que não vai morrer amanhã em nenhuma hipótese. Isso é um conceito, não é a realidade. Enxergar a vida assim, percebendo a rapidez da vida, é onde a peça fisga a plateia", diz Giargini, aos 69 anos.

Sendo uma produção portuguesa, a estreia de "Intimidade Indecente" ocorreu além-mar, atraindo 22 mil pessoas, numa temporada que passou por seis cidades em dois meses e meio. Entre as coleções de histórias que a plateia compartilha com os atores, Giardini lembra uma, que ocorreu em Portugal, também na saída do teatro.

Um rapaz de meia-idade a interpelou para dizer que, após o espetáculo, decidiu correr para casa e cobrir sua mulher de beijos. Diante da brevidade da vida, ele percebeu que a briga de duas horas atrás não tinha a menor importância.

Ao que a peça nos apresenta, no entanto, a solidão na velhice pulula com tema central. Se hoje temos uma palavra-etiqueta para definir o preconceito contra os mais velhos, o etarismo ainda é uma forma silenciosa —e não menos perversa— de exclusão.

Caruso justifica sua atuação na montagem por uma frase dita pelo personagem, quando chega à velhice. "Nós não somos mais urgentes para os nossos filhos."

Em dado momento, Roberta repete que filhos e netos têm a visitado muito, surpreendendo Mariano, para quem a ausência familiar é muito sentida. Não se sabe, porém, se Roberta fala a verdade. Ao contrário, tudo parece mais uma competição entre eles, também refletida na vida sexual.

Nesse terreno, Mariano sofre com o peso da gravidade, mas sua empáfia de macho alfa é desnudada com as piadas de sua mulher. Com tanto apelo à sexualidade, a dupla lembra Leleco e Muricy, casal formado por Caruso e Giardini na novela "Avenida Brasil", de 2012.

A intimidade entre os dois artistas, que se conheceram ainda na década de 1970 em teatros de São Paulo, é um fator-chave para a química no palco. Embora acompanhem séries em plataformas de streaming, eles não acham que "Avenida Brasil" será tida, com o tempo, como a última novela que fez o Brasil parar. Mas ainda hoje não há explicações para o sucesso mundial da história de João Emanuel Carneiro.

"É uma hipótese, mas acho que o subúrbio se viu na TV e sentiu orgulho, porque não havia nenhum personagem recriminando as pessoas, dizendo que elas eram cafonas. Acho que o momento político, depois do Lula, com o aumento da classe média, ajudou nessa identificação", afirma Caruso.

De um modo diferente de Roberta e Mariano, os artistas sentem o impacto da idade em suas carreiras. Caruso está em "Travessia", próxima novela das nove de Gloria Perez. Já Giardini, fará parte do elenco de outro folhetim, ainda não anunciado pela Globo, no segundo semestre. Contudo, eles admitem que a tendência é ter menos espaço para os mais velhos na TV.

"A própria televisão propaga que ser jovem é não ter ruga. Hoje, a média de idade dos artistas nas novelas é muito mais baixa", pontua Caruso. Com os novos modelos de negócio na indústria audiovisual, Giardini pensa em sugerir produções, para não ficar à espera de convites.

O caminho mais certo seria o teatro, mas a carência cênica do país os deixa numa encruzilhada. Para Caruso, não há a cultura de encenar autores clássicos, como Molière e Shakespeare, nos centros urbanos do país.

Enquanto isso, há um vácuo de repertório, impedindo a formação de plateia. Depois da primeira infância, raras são as peças que se dirigem aos mais jovens. "O país precisa de autores, que falem com esse público novo. Estamos numa crise de autores no Brasil", ele diz.

Intimidade Indecente

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