Por que a bossa nova, com show hoje no Carnegie Hall, ainda encanta o mundo todo

Apesar de eco em canção de Luísa Sonza, samples e fascínio nos instrumentistas impulsionam gênero sinônimo de Brasil

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Carlos Lyra, Tom Jobim, João Gilberto, Milton Banana e Normando Santos no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962

Carlos Lyra, Tom Jobim, João Gilberto, Milton Banana e Normando Santos no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962 Acervo pessoal

São Paulo

Há pouco mais de 60 anos, Roberto Menescal desembarcava no Brasil acreditando que seria celebrado pelo show que havia feito, ao lado de nomes como João Gilberto, Tom Jobim, Sérgio Mendes e Carlos Lyra, no Carnegie Hall, uma das principais salas de espetáculos de Nova York. "O mercado abriu, então todo mundo ficou —uns em Los Angeles, outros no México", diz ele. "Cheguei sozinho, crente de que ia abafar."

Mas Menescal foi recebido por jornalistas que perguntavam por que a apresentação havia sido uma decepção. Era o resultado de uma reportagem publicada pela revista O Cruzeiro, que afirmava que a bossa nova havia desafinado nos Estados Unidos, no que seria "o maior fracasso da música popular do Brasil".

Ainda que a revista tenha sido substancialmente mais crítica que a imprensa americana, o show realizado em 1962 sofreu com algumas questões técnicas e não foi tratado como um sucesso absoluto. Passadas seis décadas, a apresentação é tida como um clássico, um marco da internalização da bossa nova.

João Gilberto durante show no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962
João Gilberto durante show no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962 - David Drew Zingg/Divulgação

Tanto é que, no próximo domingo (8), o estilo musical volta ao Carnegie Hall para uma celebração daquela noite, que um ano depois foi registrada no álbum "Bossa Nova At Carnegie Hall".

Além de Menescal, remanescente do show original, a apresentação terá Seu Jorge, Daniel Jobim, neto de Tom, Carlinhos Brown, Carol Biazin e a cantora britânica Celeste. No repertório, serão retomados clássicos como "Chega de Saudade", "Corcovado", "Garota de Ipanema", "Wave" e "Samba de Uma Nota Só".

Se no fim dos anos 1950 o gênero começava a despontar, hoje ele está incrustado na música ao redor do mundo. Além da influência conceitual em artistas que vieram depois —a tropicália é o maior exemplo—, há bossa nova no som ambiente de hotéis e cafeterias, em samples de rap e música eletrônica, trilha sonora de filmes e na maneira que gerações de instrumentistas de todos os cantos tocam.

"A bossa nova é referência de algo muito bem-sucedido, que é reconhecido e agrada à maioria das pessoas", diz Seu Jorge, para quem Tom Jobim é sinônimo de excelência. "Existe um ganho estético com a bossa nova que, fora do Brasil, quase nenhum outro gênero brasileiro permite —especialmente em ambientes de poder, mais elitizados e sofisticados."

Ele afirma que, nos últimos 15 anos, nomes muito influenciados pela bossa nova, como Arthur Verocai e Azymuth, foram redescobertos fora do país. "Os samples de música brasileira cresceram absurdamente no universo do hip-hop e da música urbana americana", diz. "Verocai não para de fazer show fora do país. A boa música brasileira sempre foi contemplada. A gente é que parece ter esquecido dela."

Ultimamente, a bossa nova também tem frequentado a música pop –ainda que não em sua forma mais reconhecível. Há dois anos, a estrela jovem do pop americano Billie Eilish lançou uma faixa chamada "Billie Bossa Nova", em que dá sua interpretação particular ao gênero. Há dois anos, Anitta sampleou "Garota de Ipanema" em sua "Girl from Rio".

O caso mais recente é "Chico", faixa de Luísa Sonza com trejeitos bossanovistas que chegou ao posto de mais ouvida do Brasil no streaming, impulsionada por páginas de fofoca. Isso porque a canção retrata sua relação com o streamer Chico Moedas –caso que fascinou o brasileiro pela forma efêmera com que chegou ao fim, após a revelação de traição do protagonista da letra ao vivo na Globo.

Antonio Carlos Jobim em apresentação no Carnegie Hall, em Nova York (EUA), em novembro de 1962
Antonio Carlos Jobim em apresentação no Carnegie Hall, em Nova York (EUA), em novembro de 1962 - Reprodução

Da segunda geração da bossa nova, e também bastante conhecido fora do Brasil, Marcos Valle crê que outra música de Anitta, "Will I See You", é "totalmente bossa nova". Já no caso de Sonza, ele teve que ouvir "Chico" duas vezes para se convencer de que o hit, classificado como bossa nova nos serviços de streaming, se encaixa no gênero.

"Da primeira vez, não achei que era muito a batida da bossa nova. Da segunda, com mais cuidado, já achei que a batida do violão é", diz. "Não vou dizer que a música é uma bossa nova, mas a batida é. Para além disso, tem artistas que trazem características da bossa nova. Vejo isso na Liniker e no Bala Desejo, para citar alguns exemplos."

Valle, que nunca fez uma bossa nova "pura", mas a fundiu com ritmos como o baião e estilos da música negra americana, acredita que os públicos se renovaram. "Existe uma conexão muito grande, aqui e como aconteceu comigo e com a Joyce na Europa, nos anos 1990, com esse público jovem que sabe tudo, através da internet. Mas é também dessa bossa nova misturada, não só a original."

Se hoje frequenta as paradas como trilha da vida pessoal de uma celebridade, há 60 anos a bossa nova ganhou o mundo por seus atributos musicais. Menescal lembra que seus ídolos do jazz estavam no aeroporto para receber a delegação brasileira nos Estados Unidos.

"Quando passo no ponto do passaporte, vejo cinco daqueles músicos que a gente amava —Gerry Mulligan, Cannonball Adderley, The Modern Jazz Quartet— e penso, ‘que sorte, eles devem estar indo para algum lugar!’", diz. "Aí o cara que nos recepcionou disse ‘eles estão aqui para ver vocês’. Eu fiquei ‘mas eles conhecem a gente?’ E ele falou ‘claro, passa lá para você ver!’"

Menescal não sabia, mas a bossa nova já era ouvida e admirada nos Estados Unidos, especialmente pelos músicos, em canções como "Desafinado", com Tom Jobim. Não à toa, entre os 3.000 presentes no show de 1962 no Carnegie Hall, estava gente como Dizzy Gillespie, Miles Davis, Mulligan e Tony Bennett.

Esse fascínio, diz Menescal, tem a ver tanto com as melodias únicas de Tom Jobim quanto com a batida que mimetizava o tamborim do samba no violão de João Gilberto. Isso tudo somado ao canto sussurrado que depois conquistou estrelas do quilate de Frank Sinatra.

"Os bateristas de jazz eram muito bons, mas a batida era muito simples", ele diz. "E eles adoravam o ritmo da bossa nova. Pediam o tempo todo para a gente fazer, cada um com um papel de música na mão. E tem o violão. Ninguém sabia fazer aquela batida do samba. Eles ficaram loucos, porque dava muito mais liberdade."

Aquela música era também o retrato de um país cheio de esperança, que acabara de ser bicampeão mundial de futebol nos pés de Pelé e Garrincha e era tido como o país do futuro. No dia 8 de outubro, quando Seu Jorge e companhia levarem novamente a bossa nova ao Carnegie Hall, tanto os Estados Unidos quanto o Brasil mudaram, mas há uma semelhança, diz ele.

"Acredito que exista uma demanda reprimida por restaurar o contato com essa beleza, essa poesia, e ressignificar as coisas neste Brasil de hoje, que abre o encontro da Organização das Nações Unidas e chama a atenção pelo conteúdo, e não pelo esvaziamento do discurso."

"Nesse processo de reconstrução da imagem do Brasil no mundo, a bossa nova tem bastante a contribuir. Por tanta coisa que ela produziu de positivo, a expressão que ela levou ao mundo, e por tanto reconhecimento desse mesmo mundo não só para gênero, mas para o Brasil, seu povo e suas possibilidades."

A Grande Noite – Bossa Nova

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