Em 'Brás Cubas', morto narra substância da vida, escreve Milton Hatoum

Escritor amazonense faz posfácio inédito para nova edição do clássico de Machado de Assis

Milton Hatoum

[RESUMO] Texto adaptado do posfácio escrito especialmente para a edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis (1839-1908), que será lançada pela editora Carambaia.

Desde a primeira página das "Memórias", uma das rabugices do narrador é provocar e desafiar o leitor, como se, para este, não bastasse ler um romance escrito por um defunto. A impertinência não para por aí, pois "o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor".

Desafiado, provocado e, enfim, acusado de ser o maior defeito do romance, o leitor do século 19, ou a maioria deles, dificilmente entenderia essa "obra de finado", escrita "com a pena da galhofa e a tinta da melancolia". Machado de Assis conhecia o narrador e as personagens das "Memórias". O fato de o primeiro ser um morto não impede que ele narre a "substância da vida". 

Mas quem é Brás Cubas? Na infância, um menino mimado, que faz diabruras, humilha com palavras e atos os escravos da casa. A mãe "era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração (...); temente às trovoadas e ao marido. O marido era na terra o seu deus". Esse deus, que adorava e protegia o filho, era um mitômano boçal, capaz de inventar uma origem nobre da família.

No prólogo da edição de 1899, Machado comentou algumas influências de autores europeus nas "Memórias": "Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida [...] Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho."

Não é difícil perceber na composição das "Memórias" "a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre", como escreve Brás Cubas. Muito mais desafiador é saber qual vinho leva essa taça, tarefa crítica das mais difíceis1.

À primeira vista, prevalece nessa viagem a grande aventura da subjetividade, que se traduz na atitude e na relação de um narrador volúvel consigo mesmo e com os outros, com um "humor que oscila entre a móvel jocosidade e um sombrio negativismo no cerne dos juízos"2

Para o leitor contemporâneo de Machado, foi difícil entender disparates, ambivalências, dúvidas e reticências de um narrador que afirma e depois nega, ou ri e ensombrece em seu silêncio ou tagarelice, deleitando-se com morbidez, escárnio ou humor sutil numa encenação teatral em que é "espectador de si mesmo"3

De onde vem esse demônio do escárnio e da melancolia, que funde e confunde tudo, que estende as mãos para o leitor-náufrago, e depois as solta, para o afogar cruelmente? É possível conjeturar que o comportamento moral do narrador tenha alguma relação com o ambiente familiar: "Vulgaridade de caracteres, amor das aparências rutilantes, do arruído, frouxidão da vontade, domínio do capricho, e o mais". Tudo isso o leitor percebe ou reconhece no modo de ser de Brás. "E o mais" é que são elas. 

Na juventude, Brás é atraído pela "linda Marcela", uma espanhola "luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes". Essa paixão custa caro ao jovem, que rouba dinheiro ao pai para dar joias à amante. Marcela diz a Brás Cubas: "Você é das arábias". Essa frase antecipa a menção a "O Livro das Mil e Uma Noites", que aparece quando Brás sai da casa de Marcela e tem uma alucinação: o nariz dele se confunde com o do barbeiro Bakbarah ("O pobre namorado das 'Mil e Uma Noites'!"), e na sequência do delírio aparece Bagdá4

Sherazade será citada mais adiante, quando Brás e Virgília já são amantes clandestinos; ambos sabem que o marido dela havia cancelado a viagem de mudança da família, o que forçaria a separação dos amantes; essa ameaça intensifica o amor de Brás. "E assim reatamos o fio da aventura, como a sultana Sherazade o dos seus contos."

O leitor de "As Mil e Uma Noites" sabe que Sherazade inventa histórias para seduzir o rei e não morrer. Brás reata o fio da aventura com Virgília e diz que este é "o ponto máximo do nosso amor". Mas o ponto mais alto é também o da descida, pois no capítulo seguinte Virgília faz "um gesto de enfado, de mal-estar, de fadiga". O título do capítulo é "O mistério": um ponto de interrogação e reflexão para o leitor. 

Marcela, personagem que pode parecer um pouco esquemática, é relevante na intriga do romance. No auge da paixão de adolescente, Brás é forçado pelo pai a se separar dela e embarcar para Coimbra. A viagem e os oito ou nove anos na Europa serão cruciais à formação intelectual do narrador. Mas que tipo de formação?

Em Coimbra o estudante de direito conquistou "uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estroina, superficial, tumultuário e petulante" . Ele regressa ao Rio para rever a mãe; depois da morte dela, Brás passa umas semanas recluso numa casa na Tijuca, onde sente "o cheiro inebriante e sutil" da "flor amarela, solitária e mórbida": a hipocondria.

No começo do livro, ele diz que fora possuído por uma ideia fixa: inventar "um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade". A ideia fixa "trazia duas faces, como as medalhas, uma virada o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória". 

As duas faces da moeda ecoam nas duas propostas que o pai faz ao filho: "Um lugar de deputado e um casamento". Brás, um solteirão rico e ocioso, viverá entre o bulício e a apatia, ou a ambição e o desânimo. É o início de uma intriga mais delineada, que aponta para a relação de Brás com Virgília, a noiva escolhida pelo pai. Mas Machado retarda essa relação: é preciso que Virgília case com outro, para só depois eclodir a paixão adulterina com Brás.

Ao narrar as aventuras amorosas do defunto autor, Machado lança mão de uma prosa realista de altíssimo nível, colocando em cena personagens convincentes da sociedade do Segundo Reinado. Às vezes, diante de desvalidos, Brás sente "repelões da consciência", mas esses solavancos de culpa são efêmeros, ao contrário do escárnio, usado com frequência, e dirigido a todos e a tudo. 

Não são poucas as artimanhas da linguagem machadiana para falar da escravidão, do antagonismo social, do amor, da morte e da loucura. Todos esses temas são evocados "no assombro do presente, na memória do passado". Mas o defunto autor vive mais intensamente "o assombro do presente" enquanto dura a relação passional com Virgília. 

Quando ela e o marido partem finalmente, Brás não sente dor nem prazer, e sim uma mistura de alívio e saudade. A viagem de Virgília sela o fim da grande aventura amorosa de Brás Cubas. A partir daí o defunto autor é possuído por uma melancolia profunda, várias personagens morrem ou caem na desgraça, antes do capítulo final das negativas. Mas nem assim o narrador abre mão da galhofa, do humor ferino, que não poupa nem a si próprio. 

Brás Cubas, o rentista pavão e hipócrita, o herdeiro boa-vida, o político ignóbil e medíocre usufrui do mandonismo, do paternalismo e do privilégio, e assim "imita" a desfaçatez e a futilidade da elite durante o Império até a morte do narrador em 1869.

Mas, por vias também oblíquas e até obscuras, há nas "Memórias" uma sondagem da alma, uma subjetividade expandida e maluca, como se a mente volúvel e delirante não pudesse sair de um redemoinho. 

No capítulo 108, não por acaso intitulado "Que se não entende", um mero bilhete é "um documento de análise". Brás lê e relê várias vezes as palavras de Virgília e diz ao leitor como ele as analisa: 

"Se vos disser a comoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a aceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio; e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga, uma coisa que não podereis entender, como eu não entendi. Suponhamos que não disse nada".

Resta ao leitor de hoje, alma mais que sensível, decifrar essa "combinação assaz complexa e vaga", que, de algum modo, define esse grande romance. 


1 Alfredo Bosi analisou três grandes linhas de interpretação desse romance complexo e desnorteante: "1) segundo uma leitura formalizante, o defunto autor desenvolve o modelo da forma livre de [Laurence] Sterne, que, por sua vez, se inscreveria na tradição da sátira menipéia; 2) a leitura cognitiva e existencial centra-se na figura do humorista melancólico, que se reconhece no discurso do homem subterrâneo e do auto-analista; 3) a leitura sociológica está centrada no tipo social de Brás e no contexto ideológico do Brasil Império". De acordo com o crítico, "uma combinação de vetores formais, existenciais e miméticos, sem que uma instância monocausal tudo regule e sobredetermine, parece responder melhor ao problema recorrente dessa obra desafiadora". Ver Bosi, Alfredo, op. cit., pp. 50-51.

2 Ibidem, p. 29.

3 Bosi, Alfredo, op. cit., p. 31.

4 O nome correto da personagem é Baqbaqa, que não é barbeiro, e sim o segundo dos seis irmãos do barbeiro, que narra episódios escabrosos envolvendo cada irmão —noites 152ª a 168ª. O episódio citado nas "Memórias" encontra-se no relato: "O segundo irmão do barbeiro". Ver: "O Livro das Mil e Uma Noites, vol. 1", traduzido do árabe por Mamede Mustafa Jarouche. São Paulo: Globo, 2005, pp. 330-362.


Milton Hatoum é autor dos romances "A Noite da Espera", "Dois Irmãos" e "Cinzas do Norte", entre outros. Foi professor de literatura francesa da Universidade do Amazonas (1984-1999) e professor visitante da Universidade da Califórnia (Berkeley/1996). Sua obra foi traduzida em 12 línguas e publicada em 14 países.

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