Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Ernesto Araújo foi de diplomata discreto a crítico ferrenho do marxismo

Opiniões do futuro chanceler, indicado por Olavo de Carvalho, surpreenderam colegas do Itamaraty

Ricardo Balthazar

[RESUMO] Missão antimarxista do futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi recebida com surpresa pelos colegas do Itamaraty.

 

Em agosto de 2013, convidado a falar sobre as relações entre o Brasil e os EUA num evento organizado por um centro de estudos em Washington, Ernesto Araújo começou fazendo reverência ao poeta Walt Whitman (1819-1892), pai do verso livre e um pilar da literatura americana.

Com entonação monocórdia e olhos fixos nos papéis em que reuniu suas anotações, o diplomata recitou um poema que Whitman escreveu quando soube da Proclamação da República no Brasil, em 1889. “Bem-vindo, irmão brasileiro”, diz o texto. “Aprendeste bem a verdadeira lição da luz de uma nação no céu.”

Araújo contou que a primeira bandeira adotada pelo novo governo no Brasil era cópia da americana e logo foi abandonada. Lembrou que o nome oficial do país, então República dos Estados Unidos do Brasil, era quase igual ao dos EUA. Citando o escritor gaúcho Vianna Moog (1906-1988), disse que os brasileiros sempre se viram como um fracasso, incapazes de alcançar progresso semelhante ao da sociedade americana.

Araújo, que ocupava o segundo posto mais graduado da embaixada do Brasil em Washington, observou que o país atravessava uma fase diferente, em parte graças aos esforços do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para exercer um papel mais assertivo no palco internacional.

“A vocação do Brasil para ser um grande país e estar entre os maiores é um conceito político poderoso, e não apenas retórica”, afirmou o diplomata. “É uma ideia que sobreviveu através de gerações, e que está produzindo frutos agora.”

Araújo exibiu no telão do evento uma cena de um desenho animado em que Zé Carioca e o Pato Donald se abraçam, falou de novo sobre a comunhão de valores entre o Brasil e os EUA e encerrou a apresentação com uma foto de uma visita de Lula a Barack Obama, ambos sorridentes.

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O diplomata e futuro chanceler brasileiro Ernesto Araújo - Evaristo Sá/AFP

O Ernesto Araújo descrito por muitos diplomatas que o conheceram em 29 anos de carreira no Itamaraty é parecido com o que foi visto no evento em Washington —um funcionário público retraído, discretíssimo e treinado para defender o país que representa sem criar confusão.

Para espanto até de colegas que trabalharam ao seu lado, um personagem muito diferente surgiu nos últimos meses, quando Araújo se movimentou rapidamente até assegurar a indicação do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), para chefiar o Ministério das Relações Exteriores.

No blog Metapolítica 17, que ele criou na reta final da corrida eleitoral, Araújo se apresenta como alguém que deseja “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, descrita como um “sistema anti-humano e anti-cristão”, cujo fim seria “romper a conexão entre Deus e o homem, tornando o homem escravo e Deus irrelevante”.

Na véspera do primeiro turno da eleição, após acompanhar uma carreata de apoio a Bolsonaro em Brasília, Araújo classificou a campanha como um movimento feito de “amor e esperança”. O presidente eleito definiu sua escolha como chanceler duas semanas depois do segundo turno.

Araújo teve um padrinho ilustre nas fileiras bolsonaristas, o escritor Olavo de Carvalho, pensador conservador que vive nos EUA e tem uma legião de seguidores nas redes sociais. Segundo Olavo, os dois se conheceram há cerca de um ano, ou seja, quando o diplomata já havia encerrado sua temporada em Washington e estava trabalhando no Brasil.

“Um amigo veio aqui e o trouxe”, disse Olavo à Folha, em novembro. “Era um cara que queria conhecer. Comecei a ler artigos dele no blog, fiquei muito impressionado com a cultura do cara, que vai muito além da média dos diplomatas brasileiros. E da mídia, nem se fala.” Há um ano, o blog de Araújo não existia. O primeiro texto foi publicado há três meses, em meados de setembro.

Diplomatas que trabalharam com Araújo em diferentes momentos de sua trajetória falam bem dele como colega e profissional, mas, protegidos pelo anonimato, se dizem desconcertados diante das facetas de sua personalidade reveladas agora. Araújo tem evitado jornalistas e não respondeu a um pedido de entrevista.

Gaúcho de Porto Alegre, hoje com 51 anos de idade, ele entrou no Itamaraty em 1989, recém-saído do curso de letras da Universidade de Brasília. Foi o nono colocado no disputado concurso para o Instituto Rio Branco, que aceitou 24 candidatos nesse ano. Assim que se formou, foi trabalhar no departamento de integração regional, que na época estava envolvido com a criação do Mercosul, o bloco criado pelo Brasil com a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.

“Foi um dos meus melhores alunos no Rio Branco”, diz o embaixador Sérgio Florêncio, primeiro chefe de Araújo no Itamaraty, hoje aposentado. “Escrevia muito bem e conseguiu dominar os temas econômicos com rapidez para alguém que era formado em letras francesas.”

Eles escreveram juntos um livro sobre o Mercosul, que depois foi o tema da tese apresentada por Araújo ao Itamaraty para garantir sua promoção de conselheiro ao cargo de ministro de segunda classe, em 2008. Revelada pelo site Nexo em novembro, a tese faz defesa enfática do bloco econômico regional e da política externa adotada após a chegada de Lula e dos petistas ao poder.

Suas conclusões apontam em direção oposta à dos escritos mais recentes de Araújo, como o artigo que ele publicou no jornal Gazeta do Povo, do Paraná, pouco depois da sua indicação como chanceler. Nesse texto, ele afirma que sua missão será “acabar com a ideologia em política externa” e “libertar o Itamaraty” do marxismo e da “ideologia do PT”.

Washington foi o posto diplomático mais relevante de Araújo até aqui. Ele ficou na capital americana entre 2010 e 2015 e chefiou a missão brasileira como encarregado de negócios por alguns meses, quando o embaixador Mauro Vieira foi chamado às pressas pela presidente Dilma Rousseff para assumir o ministério.

“Sempre me pareceu um funcionário competente e discreto”, diz Nicholas Zimmerman, ex-assessor da Casa Branca que foi um dos principais interlocutores de Araújo no governo americano e hoje trabalha como consultor. “Ele nunca expressou opiniões pessoais fortes como agora.”

Em fevereiro de 2015, semanas antes de voltar ao Brasil, Araújo defendeu o governo Dilma num debate com economistas em Washington. A presidente estava no início do segundo mandato e tentava promover uma guinada em sua política econômica, ignorando as promessas que tinha feito na campanha à reeleição.

“Nenhum conjunto de políticas pode funcionar para sempre”, afirmou o diplomata no evento. “Algumas funcionam, um dia param de funcionar e você tem que procurar outra coisa.” Como exemplo, mencionou as políticas intervencionistas apoiadas pelo PT. “Não quer dizer que antes estava errado”, acrescentou. 

Araújo continuou a escalar os degraus da carreira no Itamaraty após o impeachment de Dilma e assumiu a chefia do departamento que cuida das relações com EUA e Canadá. Chegou ao topo em junho deste ano, quando foi promovido a ministro de primeira classe e ganhou direito ao título de embaixador, mesmo sem ter chefiado postos no exterior.

Em 2017, pouco depois da eleição de Donald Trump, o diplomata sentiu-se à vontade para dar um passo mais ousado e escreveu um ensaio em que enaltece o presidente americano —segundo ele, o único líder mundial capaz de resgatar os valores fundamentais do Ocidente e salvá-lo da ruína imposta pelos “globalistas”.

O artigo foi publicado por uma revista patrocinada pelo Itamaraty no fim do ano e caiu no gosto de Olavo de Carvalho, que fez propaganda nas redes sociais. Escrito quando poucos levavam Bolsonaro a sério, o texto só recebeu atenção após a indicação de Araújo como chanceler.

Foi uma descoberta incômoda para muitos colegas, mas quem tivesse procurado com cuidado poderia ter encontrado antes a face mais obscura do diplomata. De 1998 a 2001, no meio da carreira, Araújo publicou três obras de ficção por uma pequena editora paulistana, a Alfa-Ômega. 

“A Porta de Mogar” (1998) tem como protagonista um guerreiro num país imaginário, dividido entre uma princesa deserdada e a sacerdotisa de um culto decadente, segundo a sinopse que Araújo ofereceu na época. “Xarab Fica” (1999) trata de conflitos em outra terra fantástica. “Quatro 3” (2001) é um conjunto de textos sem trama muito definida, que seu editor classificou como anárquico.

Araújo tinha menos de 40 anos quando escreveu os livros, mas eles continuaram sendo motivo de orgulho por um bom tempo, e ele chegou a presentear colegas no exterior com alguns dos seus volumes.

“Acho meio sufocante pensar que vivemos numa terra que já não oferece surpresas e onde está proibido buscar aventuras”, disse, numa entrevista concedida à editora para a divulgação do segundo livro. “Inventar países é a minha maneira de abrir uma janela e respirar um pouco.” 

 

Ricardo Balthazar é repórter especial da Folha. Foi editor de Poder e Mercado.

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