Descrição de chapéu Memorabilia

Estamos pior que quando 'Roda Viva' estreou, diz Pedro Paulo Rangel

Ator lembra seus primeiros passos no teatro, na peça de 1968 dirigida por Zé Celso

Pedro Paulo Rangel

“Roda Viva”, em 1968, foi a minha estreia no teatro. Eu tinha 19 anos, estava para cursar o terceiro ano da escola de teatro no Rio. Tinha saído há pouco do Exército —eu servia em Deodoro, ia às aulas de farda.

Eu era um filho da classe média, meus pais eram funcionários públicos. Não tinha formação política alguma. Foi no teatro que passei a entender as coisas.

Soube que o Zé Celso estava abrindo testes para sua peça nova no Teatro Princesa Isabel. Como era um texto do Chico Buarque, eu imaginei que ia ficar num canto do palco, com um blazer e gola rolê, cantarolando para as músicas dele. Bom, foi muito diferente disso.

Zé Celso gostou do meu teste e me escolheu. Eram umas 12 ou 13 pessoas no coro, algo com muita presença e significância. A gente dizia, brincando, que havia os representativos —os personagens— e o lumpemproletariado —o coro. Eu era parte dessa segunda leva.

Durante os ensaios, ia se criando o que o coro faria. A peça tinha uma estrutura bastante simples, Zé Celso criou muita coisa em cima do texto. O espetáculo acabou muito mais criativo do que o arcabouço que o Chico tinha inventado.

A peça ganhou uma dimensão que na época não tinha. Era até ingênua, se pensar bem. Tinha um ar hippie, tudo era muito colorido, explícito, uma grande alegoria. Não era algo para fazer a cabeça de ninguém —não era um espetáculo, digamos, político.

Na história, o personagem principal, o cantor Benedito, primeiro virava Ben Silver, uma coisa mais Jovem Guarda, todo vestido de prateado e cantando músicas americanizadas. Depois, quando o povo rejeitava esse tipo de show, ele virava o Benedito Lampião, com um chapéu nordestino onde estava desenhada uma foice e um martelo.

O Comando de Caça aos Comunistas levou aquele chapéu como uma prova de que o espetáculo era subversivo. Não era —era uma grande bobagem, uma brincadeira. Mais uma idiotice que eles cometeram. Só uma mente deturpada como era a dos filiados ao CCC podia achar que aquilo era um manifesto político.

Sofremos dois ataques, em São Paulo e em Porto Alegre. A peça foi proibida no Sul, após sermos atacados até nas ruas e no hall do hotel.

Depois desse episódio, Zé Celso pegou os rapazes e moças do coro e levou para fazer “Galileu Galilei”, que ele estava montando. Essa peça do Brecht foi certamente uma das mais bonitas de que já participei em minha vida —se não a mais. Era um espetáculo cujo tema central é um personagem obrigado pela Igreja a abdicar de suas crenças —no caso, de que o Sol era o centro do Universo.

Zé Celso é um grande diretor e teórico, um homem brilhante e uma pessoa especial. Através do estudo do “Galileu”, mais do que a brincadeira do “Roda Viva”, é que comecei a perceber como é que a banca toca.

“Roda Viva” não tinha esse teatro de agressão, como se falava. É claro, os atores tocavam no público, em especial numa cena em que se discutia a sociedade de consumo e o coro falava para as pessoas na primeira fila: “Compre, compre”. Dependendo do temperamento do ator, essa ação era mais ou menos forte. Mas o dito “teatro de agressão” era isso. Havia um pouco de exagero.

Dizia-se que nós atirávamos fígado na plateia. Absolutamente. Essa carne era como se fosse o coração do ídolo, do qual arrancávamos pedaços e devorávamos em determinada cena, como num ritual de comunhão. Vai ver que um dia alguém encostou um pedaço no vestido de alguma senhora e isso virou “jogaram fígado na mulher”. Então as coisas foram tomando uma dimensão que nunca tiveram.

Arte é uma coisa, agressão é outra. A arte nunca vai chegar a esse ponto. As pessoas confundem as coisas, buscando pretextos. Agora existe um movimento grande de estupidez, vingativo em relação à classe artística em geral. É uma revanche, porque a classe teatral foi maciçamente contra esse governo que se instalou em Brasília.

Há uma tentativa forte de calar e prejudicar artistas. Isso envergonha o país diante do resto do mundo, e não é de agora que as pessoas querem amordaçar, calar o próprio país.

Acho que o estado hoje é pior do que em 1968. As pessoas estão desinteressadas. Durante muito tempo, foram colocados antolhos nelas, fazendo com que só se preocupassem com o que diz respeito a elas mesmas. A cultura foi tão desvalorizada.

É um fenômeno que não consigo desvendar. Tanta gente nunca foi a um teatro na vida, tanta gente não sabe nem o que é. Às vezes, por culpa nossa, dos artistas. Fizemos um teatro elitista por certo tempo —não soubemos nos comunicar e estamos pagando um preço por isso também. E a grande vitoriosa foi a desinformação. 


Pedro Paulo Rangel é ator; está em cartaz com a peça “O Ator e o Lobo” no Teatro Poeira, no Rio, até 2/6.

Depoimento a Walter Porto.

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