Lançado há 50 anos, Pasquim provocou ditadura e costumes

Publicação marcou época com humor e linguagem solta e ditou tendência no jornalismo

Alvaro Costa e Silva

[RESUMO]  Marco da imprensa brasileira alternativa, o Pasquim chegava às bancas há 50 anos. Com humor, linguagem solta e provocativa nos anos mais repressores da ditadura, a publicação ditou tendências no jornalismo e tornou-se fenômeno de vendas.

O cartunista Jaguar passou os últimos tempos falando a historiadores, professores e estudantes de jornalismo, repórteres, autores de teses de mestrado e doutorado sobre como criou o Pasquim em 1969 e foi o único que nele trabalhou durante 22 anos, do berço à agonia. Mas não adianta —sempre resta alguma dúvida a esclarecer, geralmente envolvendo um nome que costuma ser citado como fundador do jornal sem nunca ter sido.

Nessas horas, Jaguar volta ainda mais ao passado e relembra um cartum que bolou para a revista Senhor, em 1959, no qual aparece um escultor conversando com um amigo no ateliê de Congonhas do Campo (MG): "Hoje me chamam de Aleijadinho, mas a posteridade me fará justiça".

O caricaturista Cássio Loredano pegou a publicação no auge, em 1972. Eis seu depoimento: "Qual a atitude do burro diante da catedral? Eu via o Ziraldo, o Ivan Lessa, o magnífico Fortuna e a sacristã Nelma receber as epístolas do [Paulo] Francis, de Nova York. Até a chegada, para desespero do Henfil, do sumo sacerdote. Millôr fazia o trabalho no estúdio de Ipanema e só ia à Redação para encantar todo mundo com homilias e sermões que atrasavam barbaramente o envio das escrituras à oficina".

"E o burro —era o tempo em que burro não falava— bebendo aquilo tudo pelas orelhas e estudando Steinberg, que o Jaguar descobriu, horrorizado, que eu ignorava por completo."

A ideia de criar O Pasquim (que, ao longo de sua trajetória, um belo dia perdeu o artigo) surgiu em setembro de 1968, quando morreu o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, responsável por um tabloide semanal de humor chamado A Carapuça. Murilo Reis e Altair Ramos, os empresários por trás do semanário humorístico, buscaram um substituto à altura: Tarso de Castro, "enfant terrible" que assinava uma coluna de sucesso no jornal Última Hora. 

No bar Jangadeiros, em Ipanema, Tarso se encontrou com Jaguar para decidir se aceitava o convite. Ouviu que era melhor abrir um novo jornal.

Um jornal sem patrões, em que os colaboradores pudessem escrever o que quisessem, é uma velha utopia da profissão, que costuma morrer na ressaca do dia seguinte. Ainda mais no Brasil daquele momento, alguns meses após o AI-5, no período mais repressor da ditadura militar, marcado por prisões, desaparecimentos, exílios e tortura.

rato do pasquim velho
Cartum de Jaguar feito para a edição sobre os 50 anos do Pasquim traz o rato Sig, símbolo do jornal - Jaguar

Tarso topou, desde que tivesse carta branca. Convocou o jornalista Sérgio Cabral para se juntar a Jaguar. Carlos Prósperi, publicitário da Shell, e Claudius Ceccon, cartunista do Diário Carioca, cuidariam do projeto gráfico.

Jaguar deu o nome —pasquim significa jornal difamador, folheto injurioso—, aceito sem muito entusiasmo, mais por falta de opções. A primeira Redação ficava em uma sala da distribuidora da imprensa, na rua do Resende, 100, no centro do Rio. 

Além dos cinco mosqueteiros, a equipe contava com secretária, dona Nelma Quadros, e um boy, Haroldo Zager (mais tarde, diretor de arte). "Três mesas com máquinas de escrever, a prancheta do Prósperi, um estoque de uísque e estávamos prontos para ganhar a rua", lembra Jaguar.

A expectativa era a pior possível. Parte da imprensa já estava sob censura. Nomes que no futuro seriam indissociáveis do Pasquim, como Ziraldo e Paulo Francis, tinham sido presos pela ditadura. Cinco anos antes, Millôr Fernandes fizera uma experiência de jornal independente, o Pif Paf, que só durara oito números. O Cartum JS, suplemento de humor criado por Ziraldo para o Jornal dos Sports em 1967, também acabara.

Com tiragem de 14 mil exemplares (Jaguar queria apenas 5.000), impressos na gráfica do Correio da Manhã, o Pasquim chegou às bancas no dia 26 de junho de 1969 —celebram-se os 50 anos da publicação nesta quarta-feira. A edição esgotou-se em dois dias. Mais 14 mil exemplares foram rodados. 

Tarso de Castro batera o martelo: a primeira entrevista seria com o colunista social Ibrahim Sued, que falou pelos cotovelos e ainda deu o furo de que o próximo presidente do país seria o general Médici. Tarso também escreveu uma espécie de editorial: "O Pasquim surge com duas vantagens: é um semanário com autocrítica, planejado e executado só por jornalistas que se consideram geniais e que, como os donos dos jornais não conhecessem tal fato em termos financeiros, resolveram ser empresários".

O número de estreia trazia, entre outros, os colaboradores Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Sérgio Noronha, Olga Savary, Groucho Marx (entrou para tapar um buraco, sem receber um tostão) e dois correspondentes: Chico Buarque, com o texto "Por Que Sou Tricolor", de Roma; e Odete Lara, diretamente do Festival de Cannes. Quatro páginas (do total de 20) eram de propaganda. 

Na última página, o expediente: Tarso de Castro (editor), Sérgio Jaguaribe (editor de humor), Sérgio Cabral (editor de texto), Carlos Prósperi (editor gráfico), Claudius Ceccon e Murilo Pereira Reis (diretor-responsável). "O Ziraldo não queria participar. Mas me deu autorização para republicarmos os 'Zeróis' na edição número um", revela Jaguar.

Millôr Fernandes entrou na brincadeira, mas, bem a seu estilo, mandou uma ducha de água fria. Em seu artigo, previu três meses de vida para o hebdomadário: "Independência, é? Vocês vão me matar de rir". No quarto número, teve de admitir que se equivocara. Mais tarde, Millôr se tornaria a figura mais importante da chamada patota. 

Com 16 semanas de existência, o jornal já vendia 80 mil exemplares e logo bateria na incrível marca de 200 mil. "Foi o maior fenômeno da imprensa editorial brasileira", afirma Sérgio Augusto, que debutou no tabloide em agosto de 1969, escrevendo um texto sobre a atriz Sharon Tate, assassinada naquele mês.

Na flor dos seus 21 anos, Ruy Castro deu as caras na Redação da rua do Resende. "Você é a favor ou contra o regime militar?", perguntou-lhe Tarso. "Torce pelo Flamengo? Então está contratado." 

Na edição com a famosa entrevista com a atriz Leila Diniz, que vendeu 117 mil exemplares, o nome do hoje colunista da Folha aparece nas chamadas de capa.

"Ao contrário do que se pensa, o Pasquim não nasceu de uma fórmula pronta. Os primeiros que o fizeram vinham da Senhor, Pif Paf, Última Hora, Fairplay, Jornal do Brasil, Correio da Manhã. Quase todos passaram pela revista Diners. Já escreviam com liberdade, de maneira provocativa e engraçada. Os outros que foram chegando é que começaram a escrever do jeito do Pasquim", analisa Ruy Castro.

A revolução do Pasquim se ancorava na linguagem moderna, solta e coloquial, que logo reverberou no jornalismo das revistas mensais e, sobretudo, nos textos de cultura dos segundos cadernos. As entrevistas pingue-pongue, com perguntas diretas e surpreendentes, também se transformaram em modelo.

Ziraldo entrou de cabeça na feitura do jornal no início dos anos 1970. "O que me recordo é a coincidência fantástica da reunião de tantas pessoas brilhantes. Quando a Redação já estava mais ou menos montada, ainda chegaram Henfil e Ivan Lessa. Tínhamos orgulho de incomodar o poder. O Pasquim dava sentido a nossas vidas."

Cronista a partir de 1975, Aldir Blanc relembra sua recepção: "Mal entrei pela primeira vez no jornal e o Henfil foi me puxando para um canto e, daquele jeito dele, quase gritando: 'Humor é pé na cara'".

O Pasca, assim chamado só por aqueles que não eram íntimos, virou uma fonte geradora de cartunistas: lançou quase 200. Entre eles, Laerte: "Participei de um concurso em 1971 ou 1972 e fui publicada. Nessa época, eu nem pensava em seguir a profissão. O jornal foi um dos meus pilares motivacionais. Aprendi a fazer desenho de humor com Fortuna e Henfil". 

Um dos fundadores do Casseta & Planeta, Reinaldo começou sua carreira em 1974, atuando como cartunista e ilustrador do jornal. "Sempre repito aquele clichê que é pura verdade: foi a minha escola", diz. 

"Eu já pendurei as chuteiras de comediante, mas foi no Pasquim que perdi a timidez, fazendo as fotonovelas escritas pelo Ivan Lessa. Comecei como figurante, mas aos poucos cheguei a protagonista, fazendo papéis importantes, como o filósofo Voltaire. Isso me deu embasamento suficiente para depois, na televisão, interpretar personagens mais complexos, como o Devagar Franco e o ET de Varginha."

No fim da década de 1980, era triste ver nas bancas o cadáver ainda em atividade do Pasquim, que só foi enterrado em 1991. Mas, de novo, há razões para sorrir. Até o fim do ano, a coleção completa, com 1.072 edições, estará toda digitalizada e disponível no site da Biblioteca Nacional, com dispositivo de busca completo. Entre lá e procure por Jaguar. 


Alvaro Costa e Silva, jornalista e colunista da Folha, atuou como repórter e editor. É autor de "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro".

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.